Condenados por Deus: Um Problema Teológico (Parte II) *

  por Jefferson   O presente texto é a segunda parte do artigo “Condenados por Deus: Um Problema Teológico”, no qual analisaremos a Soteriologia[[1]] professada pelo Cristianismo, discutindo as suas bases históricas e racionais, abordando as suas implicações morais para, após, verificarmos como o Espiritismo trata o tema. Encerramos a primeira parte com o seguinte resumo da salvação cristã: – Cada um de nós nasce contaminado por transmissão pelo pecado de Adão e Eva; – O pecado nos afastou de Deus e nos condenou à morte; – Deus se reconciliou conosco enviando o seu único filho para ser sacrificado em nosso nome, como os animais eram sacrificados em nome dos ofertantes nos altares do templo de Jerusalém; – O sangue de Jesus limpou os nossos pecados, nos aproximando de Deus novamente; – Serão salvos aqueles quem Deus escolheu antecipadamente para isso, não dependendo da vontade do homem ou de seus méritos, mas da graça de Deus. Em continuidade, analisaremos a veracidade dessas afirmações e quais as suas consequências que elas passam na concepção de Deus. Um Homem, uma Mulher e Uma Cobra que Fala Se o pecado original é a fonte das misérias humanas e da nossa tendência para o mal, como quer a teologia cristã, a história bíblica sobre este pecado deve ser verdadeira, o que inclui a certeza histórica da existência de Adão e Eva e de uma serpente que fala. Se algo faltar nesta história, o erro do casal primitivo não ocorreu, e se não houve pecado, não há de se falar em punição divina e nem mesmo da sua redenção pela cruz. Primeiramente, ao contrário do que se pensa, o livro de Gênesis não foi o primeiro texto bíblico a ser escrito[2], nem tampouco Moisés foi o seu autor. Ele foi a compilação de diversas tradições dos povos de Israel e da Judéia, que servem de introdução a história dos patriarcas, pessoas que serviram a ideologia de um povo formado a partir de um ancestral comum. As narrativas sobre a criação, o surgimento do homem, da mulher, a explicação da necessidade do trabalho, das dores do parto, da morte, etc., são lendas piedosas que os hebreus antigos tinham como explicações sobre os fatos da vida a que cotidianamente eram confrontados. São mitologias daquelas sociedades, metáforas apropriadas ao objetivo de seus autores e de satisfação dos seus ouvintes. Querer dar a essas historietas a chancela de verdades incontestáveis é desfigurar o seu objetivo narrativo e retirar a idéia do contexto onde surgiu e se desenvolveu. Não cabe nem mesmo a afirmação dogmática de ser a “palavra de Deus”, porque o dogma da inerrância bíblica já foi superado, principalmente com os avanços da Ciência, notadamente a partir do século XIV. O primeiro grande golpe desferido contra a “incontestável veracidade bíblica” foi dado por Galileu Galilei (1564 – 1642), que com o seu telescópio artesanal provou a incorreção do sistema cosmológico dos antigos hebreus: a Terra não é o centro do universo e nem do nosso sistema solar. Josué não poderia ter parado o Sol (Js 10, 12-15) para se sagrar vitorioso sobre os exércitos dos reis amorreus, pois é a Terra que gira em torno do Astro Rei e não o contrário, sem contar que “parar o Sol” significaria sair da velocidade de rotação (1.674 km/h na linha do equador) para o estado estacionário do planeta, o que resultaria em um abalo sem precedentes nos continentes, oceanos, montanhas, cidades, etc., transformando tudo em pó. O segundo grande golpe veio com naturalista britânico Charles Darwin (1809 – 1882), com a sua obra “Origem das Espécies“[3] que comprova que os seres vivos são resultado da evolução de espécies anteriores. Além das provas derivadas dos fósseis de animais e hominídeos, a teoria de Darwin é corroborada pelos dados da Genética, que comprovam a ligação entre espécies pelas cadeias de seus DNAs, provando que existe um parentesco cromossômico entre os seres, não havendo um único indivíduo que não tenha surgido de um outro mais elementar. Descobertas após descobertas científicas vão demonstrando que a Bíblia deve ser vista como um livro religioso, e não um livro de história ou de ciência. A religião é uma abordagem humana de Deus, e não o contrário. Calcada em dogmas e rituais, ela não se presta a ser seguida como verdade absoluta, posto que o seu objetivo é o de atrair a humanidade para Deus, fazendo uso da linguagem figurada, das imagens literárias, das metáforas, parábolas, de sacerdotes, lugares sagrados e toda a sorte de recursos didáticos que tornem a Divindade mais inteligível a nós, seres imperfeitos em dificuldade para conhecer, ainda que parcialmente, a Perfeição Absoluta. Não é função da religião disputar o conhecimento com as academias, os laboratórios e universidades, da mesma forma que seria um absurdo a Ciência atacar a fé de cada um de nós. Portanto, partindo do princípio que Deus não erra, visto que é perfeito, a Sua palavra não pode ser desmentida. Se Galileu e Darwin provaram que a Bíblia contém equívocos, não é porque Deus errou, mas porque a Bíblia não pode ser tomada como a Sua palavra, mas palavra humana colocada nos lábios divinos, de acordo com os povos, seus costumes e a época. Darwin trouxe uma situação incômoda na crença da condenação da humanidade resultante do “pecado original” cometido por Adão e Eva: pela teoria da evolução das espécies, o casal adâmico, como original e diferente dos demais seres, nunca existiu. O fato é Darwin nos mostrou que a humanidade é resultado da evolução de espécies anteriores, e não fruto de uma criação única, exclusiva. Portando, o “casal original” não é nada original; se existiu de forma histórica, foi resultado de milhares de casais anteriores a ele. Um fato curioso, mas que é importante nessa história, é o papel da serpente na queda do casal primogênito. Na historieta de Gênesis, existe uma serpente que pensa, fala, seduz e que parece ter pernas, pois não se arrastava sobre o próprio ventre. Falar requer aparelho fonador, pensar requer estrutura cerebral e intricada rede neural e para seduzir se necessita de vontade. Fora do mundo das fábulas e da mitologia, tal cobra nunca existiu. Retirar a linguagem figurada da narrativa bíblica para uma aceitação literal de seu conteúdo é abrir mão da própria inteligência e torcer o texto sagrado dos antigos hebreus. Não se precisa avançar do senso comum para saber que cobra não pensa, não fala e não tem astúcia, características próprias dos seres humanos. E antes que alguém levante a hipótese demoníaca, o texto não permite identificar a serpente com Satanás, pois o que consta no primeiro texto é que “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito.” (Gn 3,1). O texto é claro, trata-se de um animal e não nos permite criar uma situação onde o Anjo Mau – sem entrar no mérito de sua existência – se apresentou como o réptil da história aqui narrada. Por último, o texto bíblico é claro ao afirmar o motivo da expulsão de Adão e Eva do paraíso: “E o Senhor Deus disse: ‘Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente.’ O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra donde tinha sido tirado.” [4] Logo, o motivo apresentado pelo narrador bíblico não é o da desobediência, mas o da rivalidade: a criatura já tinha ciência, se conquistasse a eternidade, rivalizaria com Deus. Por isso da impossibilidade da permanência do casal original no jardim do Éden. De forma intencional, o Cristianismo atribuiu o motivo da expulsão à desobediência. Em resumo, não temos Adão, Eva ou serpente, não temos fruto proibido, expulsão do paraíso e pecado original. O que temos é uma narrativa metafórica incluída na Bíblia, e como tal era vista pelos judeus antigos até que Paulo de Tarso fez uso dela para solucionar um grande problema que as comunidades cristãs viviam: a judaização do Cristianismo. São Paulo e a Teologia da Cruz A idéia do “pecado original” nasce com São Paulo. O Apóstolo dos Gentios cria uma forma inteligente dos incircuncisos participarem das comunidades cristãs sem precisarem aderir ao Judaísmo. A sua saída teológica foi a da salvação pela cruz. Paulo entendia que em Jesus não havia mais judeus e gentios, homens e mulheres, senhores e escravos; todos eram iguais por Nosso Senhor Jesus Cristo[5]. Era uma forte oposição ao grupo representado por Tiago, irmão do Senhor, que entendia que Jesus era o coroamento das promessas feitas por Deus à Abraão. Ora, pensavam os partidários de Tiago, não haveria como a pessoa ser recebida em Cristo sem antes fazer parte da família de Abraão. Isso significava aceitar todas as prescrições mosaicas, inclusive as da circuncisão, respeito ao sábado, ofertas no templo de Jerusalém, abstenção das carnes consideradas impuras, etc. Paulo, e seu companheiro de evangelização, Barnabé de Chipre, entendiam que tais exigências sufocariam qualquer tentativa de converter as pessoas oriundas do politeísmo à causa cristã. Uma coisa era aceitar o rito do batismo, outra bem diferente seria um grego adulto aceitar um corte na pele do pênis, prática mosaica conhecida como circuncisão. O Convertido de Damasco, com sua experiência na comunidade cristã de Antioquia da Síria, concluiu que não haveria justificativa plausível para a tendência judaizante imposta pelo grupo de Jerusalém. Afinal, tanto os gregos como os judeus recebiam os dons do Espírito Santo, não cabendo aos homens distinguir onde Deus abençoou[6]. Imbuído de tal pensamento, Paulo de Tarso construiu a teologia pela qual o pecado entrou no mundo por um só homem, Adão, e por um só homem, Jesus, o mesmo pecado saiu dele[7]. Jesus, ao morrer na cruz, afirmava Paulo, foi o derradeiro sacrifício pelos pecados de todos nós, libertando o homem das amarras da lei de Moisés, lei esta que permitia ao homem viver de forma digna ainda que sob o poder da sua fraqueza. Se Jesus havia nos liberado do pecado, não faria sentido os homens continuarem sob a lei dada aos pecadores. Com isso, a fé de Abraão era a fé dos cristãos em Nosso Senhor, não havendo mais a necessidade de templo, oferendas, circuncisão, etc. Por isso que encontramos no evangelho de João a afirmativa do Batista de que Jesus é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1, 29). Este evangelho, escrito por volta do ano 100, concebido décadas depois da epístola de Paulo, já traz a doutrina da libertação pela cruz. A teologia paulina também atendia a uma grande indagação dos primeiros cristãos: se Jesus era o Messias Divino, o Filho de Deus, por que ele morreu na cruz como um bandido? Como explicar para os judeus que o seu mashiak, ao invés de libertar o “povo escolhido” do abuso imperialista romano, foi vítima pacífica daqueles estrangeiros tirânicos? Como fazer um grego entender que o Christós havia sido sentenciado ao castigo mais vergonhoso e doloroso que o Império dos Césares poderia reservar a uma pessoa? Que tipo de salvador era aquele que não conseguiu descer da cruz onde o deixaram? A teologia paulina, mais uma vez, responde a esses questionamentos transformando o escândalo da cruz em símbolo de redenção, de vitória. É na salvação dos pecados que Paulo encontra utilidade na morte por crucificação de Jesus. O seu sangue escorreu na cruz pela humanidade como o sangue do cordeiro imaculado era oferecido sobre o altar do templo de Jerusalém, mas em Jesus a redenção é universal e eterna, enquanto a do sacrifício animal é individual e precisa ser renovada a cada ano ou a cada falta. Jesus precisava morrer para que o seu sangue resgatasse a humanidade do pecado de Adão e Eva, permitindo aos crentes a limpeza da alma necessária para viverem na nova ordem das coisas, aguardada para a segunda vinda de Cristo: o Reino de Deus. Quando a Solução se Torna o Problema Entendida em seu contexto, a teologia paulina foi de uma genialidade impar. Não há como pensar o Cristianismo sem Paulo de Tarso. É provável que, sem a teologia de Paulo, o Cristianismo desaparecesse como outras religiões orientais desapareceram no Império Romano. Foi a sua visão inovadora que permitiu não só a recepção dos gentios no seio das comunidades cristãs, como a rápida propagação dos Cristianismo em toda a costa do Mediterrâneo em apenas um século. Se a doutrina judaizante de Tiago tivesse vencido, a igreja seria de poucos adeptos no mundo helênico, e teria sucumbido junto com a cidade de Jerusalém, com a invasão do exército romano sob o comando do general Tito, no ano 70 d.C. Contudo, nos dias de hoje, a teologia paulina não se sustenta, pois o terreno onde foi erigida é todo movediço. Adão, enquanto primeiro homem criado por Deus pronto e acabado, nunca existiu, da mesma forma que não existiu Eva, assim como nunca existiu uma serpente que fala, quanto mais uma serpente detentora de astúcia. Sem Adão e Eva não existe desobediência a Deus, logo não existe pecado e, por decorrência, não existe punição. Somente a imposição dogmática dos teólogos e a aceitação incondicional dos fiéis cristãos tem impedido que a teologia do pecado desapareça. Ainda que Adão e Eva fossem personagens reais, ainda que serpente tivesse pernas, falasse e os tivesse convencido a comer do fruto da árvore do conhecimento, o bom senso não poderia aceitar que Deus, detentor da infinita bondade e justiça, punisse não só o casal original como toda a sua descendência com a maldição da morte e de uma natureza íntima corrupta. Também não se pode admitir que este mesmo Deus, para se reconciliar com a humanidade, precisasse do sangue de um inocente para aplacar a sua ira. Em termos simples, teríamos um Deus irado, que nos culparia pelo pecado dos outros (Adão e Eva) e que nos absolveria pelo sacrifício de um inocente (Jesus). Por essa lógica, seríamos punidos pelo erro de desconhecidos e redimidos pelo sacrifício de terceiro, sem que em nada fizéssemos a diferença, nem para o erro, nem para a remissão, nos roubando por completo o dom maravilhoso do livre arbítrio. No dizer do grande escritor espírita Léon Dennis: “Apresentado em seu aspecto dogmático, o pecado original, que pune toda a posteridade de Adão, isto é, a Humanidade inteira, pela desobediência do primeiro par, para depois salvá-la por meio de uma iniqüidade inda maior – a imolação de um justo – é um ultraje à razão e à moral, consideradas em seus princípios essenciais – a bondade e a justiça. Mais contribuiu para afastar o homem da crença em Deus, que todas as agressões e todas as críticas da Filosofia.”[8] Assim, a condenação surge da cabeça de um homem, Paulo de Tarso, motivada pela preservação do Cristianismo frente ao desafio de sua autonomia em relação ao Judaísmo, mas, nos dias atuais, ameaça ser o motivo da perda de credibilidade do mesmo Cristianismo quando chamado a explicar-se em mundo menos inclinado às fábulas e mais exigente em relação aos fatos. Na terceira e última parte deste artigo, mostraremos como o Espiritismo entende o pecado e a salvação da humanidade. Até lá. [1] Parte da teologia que trata da salvação do homem. [2] Vários estudiosos apontam para o livro de Jó como o livro mais antigo da Bíblia. [3] O título completo pode ser traduzido como “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida”. [4] Gn 3, 22-23 [5] Gl 3, 28-29. [6] At 10, 44-48; 15, 1-35. [7] Rm 5, 15. [8] Léon Dennis, Cristianismo e Espiritismo, Ed. FEB.

* publicado originalmente em 27/03/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

Condenados por Deus: Um Problema Teológico (Parte I) *

por Jefferson

Toda a teologia[1] cristã é decorrente do pensamento de que o homem tem natureza pecadora, que já nasce com esta mancha. Não se trata de pecado pessoal, porque não foi cometido por nós; o bebê recém saído do conforto uterino, por exemplo, nada fez contra às leis divinas, contudo, segundo a doutrina cristã, a indefesa criança já surge amaldiçoada, resultado da transmissão do pecado de Adão e Eva, exclusivo da espécie humana, que nos condenou à morte e ao afastamento da presença de Deus. O preço do perdão divino? A morte sacrificial de um homem-deus na cruz erguida no Gólgota e o sangue desse inocente para pagar pela absolvição de cada um de nós. Este é o fundamento da fé cristã, independente de ser católica, protestante, ortodoxa grega ou outra qualquer.

 

No presente artigo, tentaremos dissecar a Soteriologia[2]professada pelo Cristianismo, discutir as suas bases históricas e racionais, analisar as suas implicações morais para, após, verificarmos como o Espiritismo trata o tema.

Observamos, antes de adentrar no tema, que a fé professada é escolha de cada um, não podendo haver críticas ou desconsiderações sobre aquilo em que cada um acredita, não sendo justificadas quaisquer ironias, ofensas ou agressividades de qualquer natureza sobre a religião alheia. Todavia, o questionamento é ato livre do ser humano, não havendo assunto ou dogma que não possa ser dissecado pelo bisturi da razão, acolhendo como único limite o respeito e a urbanidade no estudo.

 

O Pecado de Adão e Eva

 

É provável que o leitor conheça a história de Adão e Eva desde a sua infância, portanto, não nos demoraremos nela, que pode ser consultada em qualquer Bíblia no livro de Gênesis (Gn 1-3). O que nos interessa neste estudo é a chamada “queda”. Segundo a mitologia bíblica, Adão e Eva sucumbiram à tentação da serpente e comeram do fruto da árvore do bem e do mal. Deus os expulsou do paraíso antes que provassem da árvore da vida e conquistassem a eternidade, também se tornando deuses. Para que não retornassem ao Éden, dois anjos com espadas flamejantes ficaram responsáveis pela guarda dos portões paradisíacos, impedindo o retorno deles e de qualquer ser humano àquele lugar.

O episódio rendeu várias maldições divinas. Por conta da falta dos nossos antepassados, a serpente foi destinada a se arrastar pelo chão e a comer poeira por todos os dias da sua vida; a mulher recebeu as dores do parto e a subordinação ao marido; o homem ficou condenado a trabalhar no solo para tirar o seu sustento e, como do pó foi tirado, ao pó o homem deveria voltar quando se extinguisse a sua vida. A morte e o afastamento da presença de Deus foram as consequências da gula adâmica.

A Remissão dos Pecados por Cristo

Segundo a narrativa bíblica, passados aproximadamente 3.800 anos da criação de Adão[3], o fariseu Paulo de Tarso, conhecido pelos cristãos como São Paulo, estava com um grande problema na sua tentativa de divulgar a mensagem de Cristo entre os povos pagãos: a resistência dos judeus convertidos ao Cristianismo. Liderados por Tiago, irmão de Jesus, os cristãos-judeus acreditavam no filho de José e Maria como o Messias prometido, que voltaria em toda a sua glória para estabelecer o seu Reino em toda a Terra. Contudo, Paulo e Barnabé, seu companheiro de evangelização, haviam chamado os gentios (não-judeus) também para fazerem parte dessa nova ordem mundial, o que causava profundas divergências com os que consideravam que as promessas de Cristo somente poderiam ser destinadas ao povo de Abraão. Para o grupo de Tiago, antes de ser cristão, os gregos, macedônicos, cretenses, romanos, etc., deveriam, primeiro, se tornar judeus, circuncidando os homens e sujeitando os convertidos às prescrições mosaicas. Depois sim, segundo a igreja de Jerusalém, eles poderiam ser cristãos.

Paulo discordava duramente desse entendimento. Para ele, bastava a fé em Cristo, ponto final. Nada de circuncisão, cuidados alimentares, rituais de purificação, sacrifícios no templo de Jerusalém. A recepção do batismo e a fé no Messias ressuscitado era o bastante para judeus e gentios, afirmava o Convertido de Damasco.

De inteligência impar, com um conteúdo rabínico não encontrado entre os discípulos mais próximos de Jesus, Paulo de Tarso fundamenta o seu discurso em uma teologia que livra os cristãos das exigências judaicas, libertando-os das prescrições mosaicas que sempre os remetiam ao templo de Jerusalém.

Dessa forma, explica Paulo:

“Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. (…) Se pela falta de um só todos morreram, com quanto maior profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se derramaram sobre todos. (…) Por conseguinte, assim como pela falta de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da obra de justiça de um só, resultou para todos os homens justificação que traz a vida. De modo que, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.”

Graças à genialidade de Apóstolo dos Gentios, o Cristianismo estava desvinculado das exigências do Judaísmo, tornando a sua divulgação muito mais fácil entre outros povos, pois o único rito de iniciação era o batismo e a única prática ritual era a ceia em comum, com a divisão do pão e do vinho. Se ficasse vinculado ao Judaísmo, o Cristianismo esbarraria na resistência natural entre culturas, principalmente na questão da circuncisão[4] de homens adultos. É provável que muitos simpatizantes do Cristianismo desistissem de abraçar a nova fé se tivessem que ter os seus pênis tocados por uma lâmina.

Sem o vínculo às prescrições mosaica, o Cristianismo pode se desenvolver por toda a bacia do Mediterrâneo.

Contudo, as palavras de Paulo foram apropriadas por outros pensadores religiosos seguidores de seus passos, que fizeram da morte de Jesus na cruz a única salvação da natureza pecadora da humanidade, desvirtuamento moral este decorrente da falta de Adão e Eva.

 

No magistério católico oficial, publicado no Catecismo da Igreja Católica, temos a seguinte explicação

“Na linha de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens e sua inclinação para o mal e para a morte são incompreensíveis, a não ser referindo-se ao pecado de Adão e sem o fato de que este nos transmitiu um pecado por nascença nos afeta a todos e é ‘morte da alma’. Em razão desta certeza de fé, a Igreja ministra o batismo para a remissão dos pecados mesmo às crianças que não cometeram pecado pessoal.

De que maneira o pecado de Adão se tornou o pecado de todos os seus descendentes? O gênero humano inteiro é em Adão ‘sicuti unum corpus unius hominis – como um só corpo de um só homem’. Em virtude desta ‘unidade do gênero humano’, todos os homens estão implicados no pecado de Adão, como estão implicados na justiça de Cristo.”[5]

Para o autor evangélico Myer Pearlman:

“(bPecado Inerente, ou ‘pecado original’. O efeito da queda arraigou-se na natureza humana que Adão, como pai da raça, transmitiu aos seus descendentes a tendência ou inclinação para pecar. (Sl 51: 5.) Esse impedimento espiritual e moral, sob o qual os homens nascem, é conhecido como pecado original. Os atos pecaminosos que se seguem na idade de plena responsabilidade do homem são conhecidos como ‘pecado atual’. Cristo, o segundo Adão, veio ao mundo resgatar-nos de todo o efeito da queda. (Rm. 5: 12-21.)”[6]

Portanto, no ritual católico, por exemplo, vemos nas igrejas em destaque o altar, lugar de imolação, de sacrifício. A missa é o ritual de sacrifício pascal, no qual os fiéis relembram que Jesus foi imolado pelos seus pecados:

” Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela; assim, quer pela oblação quer pela sagrada comunhão, não indiscriminadamente mas cada um a seu modo, todos tomam parte na acção litúrgica.”[7]

A cada celebração eucarística dominical, Cristo é oferecido como vítima para o aplacamento da ira de Deus e remissão do pecado de todos os participantes da ação litúrgica.

Contudo, não basta acreditar ou querer para obter a salvação. Não são todos que são salvos pelo sacrifício de Jesus, mas somente aqueles que Deus escolheu antecipadamente. O homem não pode salvar a si mesmo e nem mesmo escolher ser salvo, pois a salvação vem da graça de Deus e esta graça Ele dá a quem quer. Os que receberão a graça de Deus já foram escolhidos e predestinados a ela.

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme o beneplácito da sua vontade, para louvor e glória da sua graça, com a qual ele nos agraciou no Amado. (…) Nele, predestinados pelo propósito daquele que tudo opera segundo o conselho da sua vontade, fomos feitos sua herança, a fim de servirmos para o seu louvor e glória, nós, os que antes esperávamos em Cristo.” (Ef 1, 3-6 e 11-12)

“Pela graça fostes salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é o dom de Deus: não vem das obras, para que ninguém se encha de orgulho.” (Ef 2, 8-9)

“E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio. Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de ser ele o primogênito entre muitos irmãos. E os que predestinou, também os chamou; e os que chamou, também os justificou, e os que justificou, também os glorificou”. (Rm 8, 28-30)

Assim, em termos simples, podemos resumir a questão da salvação cristã da seguinte forma:

– Cada um de nós nasce contaminado por transmissão pelo pecado de Adão e Eva;

– O pecado nos afastou de Deus e nos condenou à morte;

– Deus se reconciliou conosco enviando o seu único filho para ser sacrificado em nosso nome, como os animais eram sacrificados em nome dos ofertantes nos altares do templo de Jerusalém;

– O sangue de Jesus limpou os nossos pecados, nos aproximando de Deus novamente;

– Serão salvos aqueles quem Deus escolheu antecipadamente para isso, não dependendo da vontade do homem ou de seus méritos, mas da graça de Deus.

Expostas as premissas básicas da Soterologia cristã, no próximo artigo, analisaremos as suas bases e as suas consequências, para, ao fim, comparar com a “Soterologia” espírita.

[1] 1 Teologia: ciência ou estudo que se ocupa de Deus, de sua natureza e seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo; ciência da religião, das coisas divinas (Dicionário Houaiss)

[2] Parte da teologia que trata da salvação do homem.

[3] Tomando por base o calendário judaico, que coloca a criação de Adão 3.761 anos antes do nascimento de Cristo.

[4] Circuncisão: retirada cirúrgica do prepúcio, pele que recobre a glande do pênis. No Judaísmo, o ato ritual marca a inclusão masculina na comunidade judaica

[5] Catecismo da Igreja Católica – Edições Loyola (em parceria com as editoras Ave Maria, Vozes, Paulinas e Paulus) : São Paulo – 2009 – parágrafos 403 e 404

[6] PEARLMAN, Myer – Conhecendo as Doutrinas da Bíblia – trad. Lawrence Olson – Ed. Vida : São Paulo – 1999, p. 93.

[7] LUMEN GENTIUM – SOBRE A IGREJA – Papa Paulo VI – 21/nov/1964. Fonte: sítio eletrônico do Vaticano (http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html)

 

* publicado originalmente em 23/02/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

A Travessia do Mar Vermelho por Ron Wyatt *

Por Jefferson

Existe uma apresentação em power point que é muito difundida na internet, contendo fotos que provariam o êxodo hebreu descrito na Bíblia como fato histórico. São vários slides com fotos da praia de Nuweiba, no Golgo de Ácaba, fotos de rodas de charretes utilizadas pela cavalaria egípcia e ossadas humanas submersas no Mar Vermelho, etc. As referidas “descobertas” são fruto de um trabalho “investigativo” do Sr. Ron Wyatt, enfermeiro anestesista, arqueólogo amador, já falecido (1999), que afirmou ter descoberto a arca de Noé, provas do Êxodo e a arca da aliança (segundo ele, debaixo da cruz onde Cristo foi martirizado). O Sr. Wyatt era obcecado em obter provas arqueológicas dos eventos bíblicos. Suas “descobertas” foram profundamente criticadas no meio científico. Atualmente, o seu trabalho é divulgado pelo Sr. Randall Osborn, evangélico e carpinteiro em acabamentos, que veio a Brasília em 2010 para divulgar as ditas “descobertas”. A apresentação de slides se encerra com o dizer: “É difícil dizer mas a tendência predominante da mídia anti-Deus é não retratar estes fatos verdadeiros na luz da fé. Preferem ser céticos e duvidar da veracidade de tais provas arqueológicas e a historicidade das narrações bíblicas, um dos livros de história mais acurados do mundo.” Em uma época de profundo avanço científico e de rigor acadêmico, muito natural que a história mais importante da Bíblia Hebraica recebesse a tentativa de legitimidade nas universidades e academias. Contudo, pesquisadores não se contentam com boa-vontade e fé, mas com fatos comprovados. Não basta gritar “Deus disse…”; os cientistas querem saber onde Ele escreveu e se o documento tem firma reconhecida. Em entrevista à Revista Adventista (mar/2009), o especialista em Arqueologia Bíblica Dr. Rodrigo Silva, com o título “O Êxodo Que Não Existiu”,  analisou as tais evidências de Wyatt. Eis aqui alguns trechos da matéria: “Por mais de uma vez tive [diz Rodrigo] a oportunidade de visitar, com a equipe arqueológica da Universidade Andrews, os locais a que Wyatt faz referência. Coletamos dados, fizemos análises, entrevistas, etc. e, depois de tudo isso, posso afirmar, sem temor de erro, que essas descobertas são completamente falsas.” “[Wyatt] sustentava que o Golfo de Áqaba, perto de Nuweiba, seria o local da travessia dos hebreus. Ali, num trabalho arqueológico submarino, Wyatt disse ter encontrado ossos humanos e rodas das carruagens de faraó cobertas de corais…” Quanto as fotos das rodas do fundo do oceano, assim o Dr, Rodrigo afirma: “O que Wyatt não contou”, diz Rodrigo, “é que os egípcios tinham dois tipos de carruagem: uma para a guerra, com aro sêxtuplo (…) e uma para passeios ocasionais, a quádrupla, que ele disse ter encontrado. Se a dita roda fotografada por Wyatt fosse mesmo autêntica, teríamos de perguntar por que faraó teria usado carruagens de passeio para perseguir o povo hebreu e deixado em casa as carruagens de guerra?” Segundo a revista:  “As peças fotografadas por Wyatt provavelmente provieram de navios cargueiros que afundaram na região entre 1869 e 1981. A cidade de Hurghada, no norte do Mar Morto, chega a abrigar um sítio turístico para mergulhadores que desejam ver destroços de navios naufragados ali.” E Rodrigo conclui: “Não acreditemos apressadamente em tudo o que se diz na internet, nem propaguemos o boato através de e-mails do tipo FWD. A descoberta de uma fraude pode colocar em descrétido a verdadeira mensagem que devemos comunicar”. Fonte: http://www.criacionismo.com.br/2009/03/boataria-internetica.html

Para subsidiar o presente artigo, transcrevemos matéria publicada no sítio eletrônico Portal G1, da Globo.com:

“Moisés pode não ter existido, sugere pesquisa arqueológica Escavações e inscrições mostram que povo de Israel se originou dentro da Palestina. História sobre libertação do Egito teria influência de interesses políticos posteriores. Reinaldo José Lopes

Do G1, em São Paulo

Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP), resume a situação: “O Moisés da Bíblia é claramente ‘construído’. Pode até ter existido um Moisés lá no passado que inspirou o dos textos, mas nada sabemos dele com segurança. Nas minhas aulas de história de Israel, começo com geografia e passo para as origens de Israel em Canaã [antigo nome da Palestina], não trato mais de patriarcas e nem do Êxodo”. Data-Limite Os pesquisadores dispõem há muitos anos do que parece ser a data-limite para o fim do Êxodo. Trata-se de uma estela (uma espécie de coluna de pedra) erigida pelo faraó Merneptah pouco antes do ano 1200 a.C. A chamada estela de Merneptah registra uma série de supostas vitórias do soberano egípcio sobre territórios vizinhos, entre eles os de Canaã. E o povo de Moisés é mencionado laconicamente: “Israel está destruído, sua semente não existe mais”. Não se diz quem liderava Israel nem que regiões eram abrangidas por seu território. Trata-se da mais antiga menção aos ancestrais dos judeus fora da Bíblia. Por algum tempo, arqueólogos e historiadores acharam que haviam identificado evidências em favor dos elementos básicos dessa trama. É que, por volta do ano 1700 a.C., a região da foz do Nilo foi dominada pelos chamados hicsos, uma dinastia de soberanos originários de Canaã e de etnia semita, tal como os israelitas. (O nome “Jacó”, muito comum na época, está até registrado entre nobres hicsos.) Pouco mais de um século mais tarde, os egípcios expulsaram a dinastia estrangeira de suas terras. Isso mataria dois coelhos com uma cajadada só. Explicaria a ascensão meteórica de José na burocracia egípcia, graças à proximidade étnica com os hicsos, e também por que seus descendentes foram escravizados — eles teriam sido associados à ocupação estrangeira no Egito. Os textos egípcios também não falam em nenhum momento da fuga liderada por Moisés, se é que ela ocorreu. “Isso é um problema grave. O argumento de que os egípcios não registravam derrotas é falso: a saída de um pequeno grupo nem era um revés, e eles relatavam derrotas sim, mesmo quando diziam que tinha sido um empate”, afirma Airton José da Silva. Apiru = hebreus? Para Milton Schwantes, professor da  Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, outro problema com a ligação entre os israelitas e os hicsos é dar ao Êxodo uma dimensão muito mais grandiosa do que seria razoável esperar do evento. “É uma cena de pequeno porte — estamos falando de grupos minoritários, de 150 pessoas fugindo pelo deserto. Em vez do exército egípcio inteiro perseguindo essa meia dúzia de pobres e sendo engolido pelo mar, o que houve foram uns três cavalos afundando na lama”, brinca Schwantes. Ele é menos pessimista em relação aos possíveis elementos de verdade histórica na narrativa do Êxodo. Os israelitas são freqüentemente chamados de “hebreus” nesse livro da Bíblia, uma mistura de nomenclaturas que deixou os estudiosos com a pulga atrás da orelha. Documentos do Oriente Médio datados (grosso modo) entre 2000 a.C. e 1200 a.C., porém, falam doshabiru ou apiru — grupos que parecem ter vivido às margens da sociedade, atuando como trabalhadores migrantes, escravos, mercenários ou guerrilheiros. “Ou seja, os hebreus talvez não fossem um grupo étnico, mas uma categoria social, de pessoas que muitas vezes eram forçadas a participar de grandes construções no Egito, sem receber o necessário para o seu sustento”, afirma Schwantes. Ele também vê sinais de memórias históricas antigas nos nomes de algumas cidades egípcias mencionadas na narrativa do Êxodo — lugares que foram ocupados por um período relativamente curto de tempo, por volta de 1200 a.C. “O próprio nome de Moisés é um nome egípcio que os israelitas não entenderam”, diz Schwantes. Parece ser a terminação “-mses” presente em nomes de faraós como Ramsés e quer dizer “nascido de” algum deus — no caso de Ramsés, “nascido do deus Rá”. No caso do líder dos israelitas, falta a parte do nome referente ao deus. Mar: Vermelho ou de Caniços? O momento mais famoso da saída dos israelitas do Egito é o confronto entre Moisés e o exército egípcio no Mar Vermelho, quando, por ordem de Deus, o profeta abre as águas para seu povo passar e as fecha para engolir os homens do faraó. No entanto, é possível que a história original tenha se referido não a águas oceânicas, mas a um pântano. Explica-se: o sentido original do hebraico Yam Suph, normalmente traduzido como “Mar Vermelho”, parece ser “Mar de Caniços”, ou seja, uma área cheia dessas plantas típicas de regiões lacustres. Assim, nas versões originais da lenda, afirmam estudiosos do texto bíblico, os “carros e cavaleiros” do Egito teriam ficado presos na lama de um grande pântano, enquanto os fugitivos conseguiam escapar. Conforme a tradição oral sobre o evento se expandia, os acontecimentos milagrosos envolvendo a abertura de um mar de verdade foram sendo adicionados à história. O dado mais importante sobre a dimensão real do Êxodo, no entanto, talvez venha da Palestina. Israel Finkelstein, arqueólogo da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, conta que uma série de novos assentamentos associados às antigas cidades israelitas aparecem na Palestina por volta da mesma época em que a estela de Merneptah foi erigida. Acontece que a cultura material — o tipo de construções, utensílios de cerâmica etc. — desses “israelitas” é idêntica à que já existia em Canaã antes de esses assentamentos surgirem. Tudo indica, portanto, que eles seriam colonos nativos da região, e não vindos de fora. Para Finkelstein, isso significa que a história do Êxodo foi redigida bem mais tarde, por volta do século 7 a.C. O confronto com o Egito teria sido usado como forma de marcar a independência dos israelitas em relação aos vizinhos, que estavam tentando restabelecer seu domínio na Palestina. A figura de Moisés, talvez um herói quase mítico já nessa época, teria sido incorporada a essa versão da origem da nação.”

Fonte: Portal G1 do sítio Globo.com http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL418821-9982,00.html

Portanto, na falta de evidências confiáveis, e de subsídios secundários que corroborem o relato bíblico, o espírita sério deve ser contido em seu entusiasmo bíblico, evitando de replicar e-mails que, depois, se mostram sem credibilidade. Nunca nos esqueçamos desta máxima espírita: “Fé inabalável só  o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.” ( Allan Kardec – Ev. Segdo. o Espiritismo – Cap. XIX, item 7).

 

* publicado originalmente em 10/02/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

MPF-MG vai à Justiça pelo tombamento do patrimônio de Chico Xavier *

RISCO DE DESCARACTERIZAÇÃO

MPF-MG vai à Justiça pelo tombamento do patrimônio de Chico Xavier

Da Redação – 08/02/2012 – 10h16

O MPF-MG (Ministério Público Federal em Minas Gerais) ajuizou ação civil pública  na 1ª Vara Federal de Uberaba para obrigar a União, o estado de Minas Gerais e o município de Uberaba a realizarem o inventário e tombamento dos bens móveis e imóveis deixados pelo médium Chico Xavier.

 

Segundo a ação, apesar de reconhecer o expressivo valor histórico e cultural desse patrimônio brasileiro, o governo nada fez para conservá-los. “Mas, pelo contrário, permaneceram omissos e inertes, o que obrigou o MPF a pedir a intervenção judicial para conferir proteção constitucional aos bens”, diz ação.

O objetivo  do MPF é o de impedir a evasão, destruição e descaracterização do patrimônio deixado por Chico Xavier. O médium é considerado um dos maiores fenômenos religiosos de todos os tempos, e um dos mais importantes personagens brasileiros do século XX.

Chico Xavier nasceu em Pedro Leopoldo/MG, em 1910. Mudou-se em 1959 para Uberaba, no Triângulo Mineiro, onde viveu até a sua morte em 2002. Ele deixou mais de 400 livros psicografados. Estudiosos dizem que, dos 10 melhores livros espíritas do século XX, sete são da lavra do médium brasileiro, que doou os direitos autorais de todas as suas obras para organizações espíritas e instituições de caridade. Estima-se que foram vendidos mais de 50 milhões de livros em português, com traduções em várias línguas.

Sua devoção à caridade e ao próximo renderam-lhe a indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 1981, disputando a indicação com o Papa João Paulo II e o Escritório do Alto Comissariado da ONU para refugiados.

Valor material e imaterial

Para o MPF, é “inegável a importância de Chico Xavier para a cultura nacional, regional e municipal” e “chega a ser absurdo o fato de que todos os bens deixados pelo médium estejam completamente desprotegidos, sem qualquer medida de conservação, controle ou catalogação”, com grande parte deles exposta ao público de forma inapropriada.

A ação relata que, somente após intensa provocação do MPF, o imóvel, que é alvo de peregrinação por adeptos da doutrina espírita de todo o mundo, foi cadastrado como museu pelo Ibram (Instituto Brasileiro de Museus). Tal medida, no entanto, não levou a qualquer medida protetiva mais eficaz dos bens expostos à visitação pública.

“A casa de Chico Xavier é um museu particular, onde se encontram expostos livros, esculturas, imagens sacras, mobiliário, fotografias, roupas, documentos e inúmeros outros bens”, lembra a procuradora da República Raquel Silvestre.  “O problema é que essa exposição requer medidas técnicas especiais como identificação, catalogação, ambientação, ou seja, requer um projeto museográfico, o que nunca foi feito”.

Visita técnica feita por especialistas do IBRAM detectou que os bens não possuem qualquer tipo de instrumento de registro, controle e segurança. À exceção dos livros psicografados pelo médium, que apresentam etiquetas, não há nenhuma identificação dos demais itens expostos.

Para a procuradora, “fica evidente que esses bens de inestimável valor histórico e cultural não estão recebendo as medidas protetivas necessárias à sua conservação. Afinal, não se sabe ao certo nem o que de fato existe. Não há nenhuma forma de controle e, evidentemente, nessa situação, os bens podem facilmente se extraviar e deteriorar”.

O próprio imóvel que abriga o museu, a casa situada na Rua Dom Pedro I, 145, no Bairro Parque das Américas, onde Chico Xavier morou por mais de 30 anos, está passando por modificações de forma pouco técnica e respeitosa à cultura nacional.

“É evidente que a manutenção das características originais da edificação faz parte da própria história que se objetiva preservar. O visitante que procura a Casa de Chico Xavier quer encontrá-la em seu estado original, para conhecer o local onde o médium viveu. No entanto, estão sendo realizadas alterações estruturais no imóvel, sem qualquer auxílio de técnicas de preservação da identidade histórica e cultural do ambiente”, afirma a procuradora.

Ela explica que o tombamento é uma medida administrativa que impõe restrições aos bens particulares e públicos, com o intuito de preservá-los. Essas restrições consistem, por exemplo, na obrigatoriedade de conservação e de preservação das características originais. Mas não há qualquer ingerência na titularidade dos bens. “Ou seja, o atual proprietário dos bens deixados por Chico Xavier, Eurípedes Higino dos Reis, não tem com que se preocupar. O tombamento nada mais fará do que auxiliá-lo no controle e conservação dos bens, podendo trazer orientações técnicas e procedimentos adequados. Ele não perderá a propriedade de nenhum bem”, diz.
Número da ação: 0007942-75.2011.4.01.3802.

Fonte: site “Última Instância”

http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/54892/mpf-mg+vai+a+justica+pelo+tombamento+do+patrimonio+de+chico+xavier.shtml

 

* publicado originalmente em 08/02/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

O ESPIRITISMO É CRISTÃO?


por Jefferson
Quando se pergunta se o Espiritismo é cristão para um certo número de pessoas, existe uma grande possibilidade de se receber respostas divergentes. Um católico ou um evangélico (protestante) não terá dúvida de afirmar que não,   o Espiritismo não é cristão, e elencará uma série de fundamentos para tal.  Por outro lado, a mesma questão analisada por um espírita receberá uma resposta afirmativa – sim, o Espiritismo é cristão – e haverá, também, uma explicação bem embasada para a sua opinião. Portanto, a questão longe está de ter uma resposta conclusiva.
Se a pergunta fosse feita a mim, eu pediria para o interlocutor ser mais específico: cristão por qual critério? A depender do critério que se use para se definir o que é ser cristão, teremos uma resposta que inclui ou que exclui o Espiritismo do Cristianismo.
Para um religioso cristão, a exigência a ser cumprida, via de regra, será a aceitação incondicional do denominado Credo Niceno-Constantinopolitano que, como o nome já diz, foi definido no Concílio de Nicéia (325 d.C.) e ampliado no Concílio de Constantinopla (381 d.C.). Os concílios surgiram pela necessidade de unificar, entre os bispos cristãos, a doutrina a ser preservada pelas igrejas, aquela reconhecida como fiel à tradição apostólica e evangélica, e, por outro lado, quais as doutrinas que deviam ser combatidas por serem  distorções. Isso porque havia um embate sem-fim entre os religiosos sobre o entendimento do Cristianismo, principalmente sobre a natureza de Jesus Cristo, surgindo seitas com idéias muito particulares sobre quem teria sido o Mestre de Nazaré e como os fiéis deveriam vivenciar a mensagem dele.
Dessa forma, os bispos reunidos em grandes assembléias (conciliuns) definiram em que os fiéis deveriam acreditar, daí o nome “credo”, ou seja, “eu creio”. Era uma forma de declarar a sua fidelidade à Igreja (não confundir com a Igreja Católica Apostólica Romana).
Assim, ficou definido como cristão quem declarava a sua fé nos pontos capitais abaixo:
Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra,
de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho Unigênito de Deus,
gerado do Pai antes de todos os séculos
Deus de Deus, Luz da luz,
verdadeiro Deus de verdadeiro Deus,
gerado, não feito,
da mesma substância do Pai.
Por Ele todas as coisas foram feitas.
E, por nós, homens,
e para a nossa salvação,
desceu dos céus:
Se encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria,
e se fez homem.
Também por nós foi crucificado
sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia,
conforme as Escrituras;
E subiu aos céus,
onde está assentado à direita de Deus Pai.
Donde há de vir, em glória,
para julgar os vivos e os mortos;
e o Seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo,
Senhor e fonte de vida,
que procede do Pai (e do Filho);
e com o Pai e o Filho
é adorado e glorificado:
Ele falou pelos profetas.
Creio na Igreja
Una, Santa, Católica e Apostólica.
Confesso um só batismo para remissão dos pecados.
Espero a ressurreição dos mortos;
E a vida do mundo vindouro.
Amém.
(Fonte: Wikipedia)
* Católica significa “universal”, abrange todas as igrejas (romana, ortodoxa, etc.), não somente a Igreja Católica Apostólica Romana.
Estes foram os artigos de fé que definiram o que é ser cristão. Posteriormente, a Igreja Católica (Romana) reescreveu o Credo Niceno-Constantinopolitano em uma fórmula mais simples, chamada de “Símbolo dos Apóstolos”, pois, segundo a lenda, os seguidores diretos de Jesus teriam se reunido para definir os fundamentos da fé cristã, conforme exposto abaixo:
Símbolo dos ApóstolosCreio em Deus,
Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra;
e em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor,
que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;
nasceu da Virgem Maria;
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado;
desceu à mansão dos mortos;
ressuscitou ao terceiro dia;
subiu aos Céus,
onde está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,
de onde há-de vir a julgar os vivos e os mortos.Creio no Espírito Santo.
na santa Igreja Católica;
na comunhão dos Santos;
na remissão dos pecados;
na ressurreição da carne;
na vida eterna. Amen.
(Fonte: http://www.paroquias.org/oracoes/?o=7)

Assim, para os ortodoxos da fé, quem não reza por essa fórmula, não é cristão em comunhão com a Igreja, podendo ser um herege, um apóstata ou um cismático. Qual a diferença? O Código de Direito Canônico elucida:

O Código do Direito Canônico — legislação oficial da Igreja Católica — considera hereges os indivíduos batizados que negam de modo pertinaz verdades que a igreja ensina como reveladas por Deus. Define ainda como cismático o cristão que recusa a submissão à hierarquia eclesiástica e, direta ou indiretamente, ao papa. Qualifica, enfim, como apóstata aquele que renega totalmente sua fé.. (Fonte: Enciclopédia Barsa)

Portanto, se o critério para definir alguém como cristão for o Credo, os espíritas serão colocados do lado de fora do Cristianismo. Isso porque o denominado “Símbolo dos Apóstolos” não representa para os espíritas a doutrina deixada por Jesus.

Mas, então, por que os espíritas afirmam que o Espiritismo é cristão?

A base cristã que se abraça ao Espiritismo está nos Evangelhos, que representam a tradição daquilo que Jesus teria dito e feito em sua vida (lembrando: os evangelhos, no formato que conhecemos, começaram a ter a sua configuração final trinta ou quarenta anos após a morte de Jesus).

Esqueçamos um pouco o que os bispos definiram como ser cristão. A pergunta que devemos fazer é: qual o critério de Jesus para considerar alguém como seu seguidor? Afinal, seguidor de Cristo é cristão, certo? Vejamos o que nós encontramos na Boa Nova (em grego, evangelion):

Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estão à direita: – Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. Perguntar-lhe-ão os justos: – Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? Responderá o Rei: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: – Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes. Também estes lhe perguntarão: – Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos? E ele responderá: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer. E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna. (Mt 25, 31-46  – Bíblia Católica v.2.0).

Outra passagem é evangélica é mais intrigante e desafiadora

Em seguida, dirigiu-se a todos: Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. (Lc 9, 23 – Bíblia Católica v.2.0).

Na primeria passagem, Jesus define como “benditos do meu Pai” todos aqueles que foram caridosos para o seu semelhante, sem exigir nenhum outro critério (batismo, confissão de fé, etc.). No segunda passagem, a de Lucas, adverte para os que pretendem ser os seus seguidores: negue a si mesmo (a prioridade está no Reino de Deus), tome a sua cruz (aceite a sua cota de rejeição do mundo por optar pelo Evangelho) e siga-o (siga o seu exemplo).

Como vemos, o critério de Jesus é muito mais abrangente do que o das igrejas. Qualquer pessoa que ame ao seu próximo, qualquer pessoa que lhe siga os passos com prioridade, que sacrifique o seu egoísmo, orgulho e vaidade para que a paz se faça, este é o verdadeiro seguidor do Rabi da Galiléia. Aliás, não só seguidor, mas familiar de Cristo:

Jesus falava ainda à multidão, quando veio sua mãe e seus irmãos e esperavam do lado de fora a ocasião de lhe falar. Disse-lhe alguém: Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar-te. Jesus respondeu-lhe: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, apontando com a mão para os seus discípulos, acrescentou: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. (Mt 12, 46-50)

Algum concílio ecumênico teve o poder de revogar isto? Qual bispo, patriarca ou papa possui legitimidade para limitar onde Jesus ampliou?

Portanto, se o critério para se considerar alguém cristão for as palavras do próprio Cristo, o que nos parece mais acertado, os espíritas são tão membros da comunidade cristã como qualquer outro que atenda às suas exigências, independente de dogmas de fé criados pelos homens mais de trezentos anos após a sua morte.

Em resumo: para Jesus, não precisa nem acreditar em Cristo para ser cristão; ele quer é que os seus ensinamentos sejam vivenciados. O seu critério é único: fazer a vontade do Abba (“papai” em aramaico), que nada mais é do que a prática da lei do amor.

Evangelhos Perdidos, de Bart D. Ehrman*

Evangelhos Perdidos

 

Bart D. Ehrman – Título original: Lost Chirstianities

 

Tradução: Eliziane Andrade Paiva – 3ª.Edição – Editora Record

 

RESENHA

Bart D. Ehrman Chefia o Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, EUA. Uma autoridade nos estudos da Igreja primitiva e da vida de Jesus, é presença constante em programas de rádio e televisão. É autor de diversos livros relativos ao assunto Jesus Histórico.

Neste livro, dividido em três partes e doze capítulos, Ehrman mostra a diversidade de Cristianismos que existiam nos primeiros séculos da Era Comum, e se atem particularmente às obras que não chegaram até nós, por terem sido banidas do cânon sagrado que compôs a Nova Aliança que temos disponível nos dias atuais. Ele analisa diversos textos apócrifos descobertos a partir do século XVII e principalmente no século XX, com os manuscritos do Mar Morto e a biblioteca de Nag Hammadi. Se hoje já é difícil falar em Cristianismo, dada a enormidade de variantes existentes, para os mais diversos gostos (Presbiterianos, Manipuladores de Serpentes nos Apalaches, Sacerdotes Gregos Ortodoxos, Pentecostais, Evangélicos e muitos outros), nos primeiros anos do Cristianismo, a quantidade de visões em relação ao ensinamento de Jesus e dos apóstolos era significativamente maior, cada uma delas se declarando as portadoras da verdadeira fé e donas da correta interpretação destes ensinos, declarando todas as outras como doutrinas falsas e em muitos casos, vinculadas ao demônio. Havia cristãos que acreditavam em um Deus. Havia aqueles que acreditavam em dois, outros em trinta e outros que diziam ser 365. Havia cristãos que acreditavam que a Terra era criação do Deus verdadeiro, outros que era criação de um Deus menor e outros que a Terra era um erro cósmico criado por uma divindade má como um lugar de prisão. Havia aqueles que consideravam os escritos do Antigo Testamento como válidos. Havia aqueles que rejeitavam tudo o que vinha da religião judaica e outros que permaneciam seguindo aquela tradição religiosa. Uns, criam na divindade plena de Jesus, outros que Jesus foi um ser humano como todos nós. E ainda outros que acreditavam que Jesus era as duas coisas, ao mesmo tempo ou em partes distintas da sua vida. Também havia contrassenso a respeito da morte de Jesus, tento cristãos que acreditavam que através dela veio a salvação da humanidade, outros que não acreditavam em tal hipótese, e outros mais que nem acreditavam que Jesus havia sido crucificado. Todas essas questões eram um prato cheio para a existência de centenas de formas de Cristianismo, dado que não havia consenso geral de como era a fé Católica (fé geral), que surgiu somente séculos mais tarde. E cada uma dessas visões de fé produziu seus textos, suas escrituras, nas quais acreditavam piamente. Houve naqueles primórdios do Cristianismo a produção de inúmeros Evangelhos, Epístolas, Atos e Apocalipses, todos eles atribuídos aos apóstolos de Jesus e para cada um dos grupos distintos, seus textos tinham o status de escritura sagrada, enquanto o dos outros eram considerados textos heréticos, crenças falsas.

O método de escrita da obra foi estruturado de maneira a abordar, na primeira parte, as “Falsificações e descobertas”, onde se analisa os textos descobertos recentemente e o conteúdo destes, para tentar entender o que pregavam e no que acreditavam as seitas do Cristianismo que, no decorrer da história, foram desaparecendo. Depois, na segunda parte, o enfoque é sobre “Heresias e ortodoxias”, onde são apresentados os tipos principais de crenças existentes e o combate perpetrado pelos proto-ortodoxos à essas crenças consideradas heréticas. Por último, na terceira parte, são vistos os “Vencedores e perdedores”, o trabalho exercido pela proto-ortodoxia para eliminar as “falsas crenças”, a assimilação por parte destes de muitas das crenças heréticas como forma de criar um entendimento comum, a produção do cânon de escrituras autorizadas e por fim, uma analise do que poderia ter acontecido caso outro grupo de Cristãos tivesse vencido as disputas para o título de fé verdadeira. Iniciando a primeira parte do livro, Ehrman mostra que todas as escrituras perdidas tratavam-se de falsificações, ou seja, que não foram escritas por aqueles que se diziam ser os autores de tais documentos. De fato, a grande maioria dos documentos canônicos também se tratam de falsificações, livros escritos em nome de apóstolos que não escreveram uma linha sequer, em qualquer documento, sendo uma das poucas, senão a única exceção, as epístolas de Paulo de Tarso (e mesmo assim nem todas as que lhe atribuem), sendo que até mesmo nas reconhece de sua autoria há indícios de falsificações de trechos. Ehrman mostra também que falsificações não são raras mesmo em dias atuais, citando alguns exemplos dessa “arte”, que muitas vezes engana por muito tempo comunidades inteiras. No primeiro capítulo, Ehrman aborda um documento falsificado que era utilizado por muitas comunidades cristãs nos séculos II e III – O Evangelho de Pedro, um documento que carregava elementos doutrinários Docéticos e Adocionistas Os Docéticos eram um grupo de Cristãos que acreditavam que Jesus nunca possuiu um corpo de carne, que era completamente divino, e sua presença junto aos seus discípulos se dava só em aparência. Já os Adocionistas criam em Jesus como ser humano normal, mas que foi adotado por Deus no momento de seu batismo, cumpriu sua missão e abandonou o corpo de Jesus antes de sua morte. Fala-se da descoberta recente de um trecho desde manuscrito, que contém um relato do julgamento, da crucificação e da ressurreição de Jesus, e de muitos outros trechos deste mesmo Evangelho (não descobertos),que foram comentados por Serapião, bispo de Antioquia, que inicialmente não viu problemas com a adoção deste evangelho por muitas igrejas, mas após uma avaliação mais cuidadosa proibiu seu uso por conta destas teologias ‘heréticas”. Baseando no trecho de manuscrito descoberto e nos comentários de Serapião, Ehrman faz uma análise deste Evangelho, mostrando a popularidade que ele tinha. Além deste, também é abordado o Apocalipse de Pedro e outros documentos, até mesmo um chamado Atos de Pilatos, que narra o julgamento de Jesus de maneira muito mais completa, mostrando a culpa dos judeus e a superioridade de Jesus sobre tudo o que é pagão. O segundo capítulo continua abordando o tema falsificações, mostrando esta prática sendo usada para produção de vários textos. Os Atos de Paulo e Tecla, suposta ajudante de Paulo em suas viagens missionárias, um texto com viés de romance, que também atraia muitos cristãos, sendo Tecla considerada muito popular até o século V. Este e outros “Atos” utilizaram deste estilo literário. Trata também do tema “mulheres na igreja” e das inconsistências da visão proto-ortodoxa, onde se mostra trechos de cartas de Paulo orientando que estas permanecessem caladas nas igrejas, e no mesmo texto (1Coríntios), capítulos antes, o mesmo apóstolo defendendo a participação das mulheres na igreja, concluindo que o texto original da carta foi falsificado posteriormente por motivação doutrinária (para defender uma posição contrária à participação feminina nas comunidades). Aborda-se também outros Atos Apócrifos, como os Atos de Tomé, que seria irmão gêmeo de Jesus (?!?!?!), os Atos de João e os problemas que estes textos geravam para os proto-ortodoxos, por conseguirem atrair a atenção de muitas comunidades. No terceiro capítulo, discute-se as várias descobertas recentes de manuscritos que mudaram sobremaneira a visão que se tinha do Cristianismo primitivo, manuscritos estes que permitiram o entendimento aprofundado de visões e interpretações das escrituras que geraram seitas que se perderam no tempo, como é o caso dos Gnósticos. Estuda-se a fundo um dos documentos mais importantes recém-descobertos, o Evangelho Copta de Tomé, onde se pode encontrar a síntese do pensamento gnóstico. Ehrman mostra a história por trás das descobertas recentes destes manuscritos que mostraram ao mundo aquilo que a corrente de fé vencedora não divulgou (justamente por ter sido a vencedora e consequentemente, por considerar todas as outras heréticas). O capítulo seguinte inicia-se com a demonstração de que a prática da falsificação de textos é comum mesmo nos dias atuais, com exemplos de falsificações famosas, como “O diário de Hitler”, e voltando-se ao tema do livro, o surgimento de Evangelhos estranhos, que tratam de porções da vida de Jesus desconhecidas (infância, adolescência), viagens de Jesus à Índia, dentre outras coisas inusitadas. Verifica-se que, apesar da maioria das falsificações serem grosseiras e de fácil identificação, outras são muito elaboradas e muitas delas passam por originais e muitas destas são, até hoje, objeto de muita discussão entre estudiosos sérios a respeito da originalidade/falsificação É demonstrada também a questão de uma das falsificações recentes, feita por um estudioso de história do Cristianismo chamado Morton Smith em cima do texto do Evangelho Secreto de Marcos, texto utilizado por gnósticos que acreditavam que havia duas versões deste evangelho, um para os cristãos comuns (o que nós conhecemos) e outro com conteúdo secreto, de entendimento específico daqueles que possuíam a gnose. Questiona-se, no entanto, a autenticidade do material usado por Morton em suas pesquisas, bem como o fato de somente ele ter tido acesso aos documentos que estudou. Isso tudo gerou questionamentos quanto a real existência do conteúdo por ele estudado, apesar de haverem algumas provas materiais através de fotografias que ele tirou da carta polêmica. Várias questões são levantadas em relação ao estudo feito por Smith, e muitos fatos levaram muitos a acreditar na possibilidade de que ele tenha falsificado o texto analisado, principalmente pelo fato de Smith ter sido um especialista sobre Clemente de Alexandria, famoso teólogo que viveu e escreveu por volta do ano 200 da Era Comum, o autor da carta polêmica que foi objeto dos estudos de Smith. Abrindo a segunda parte da obra, Ehrman nos fala sobre o entendimento dos diversos grupos cristãos, e da obsessão com a qual estes grupos buscavam considerar-se os portadores da verdade, fato que diferia de tudo o que se via no Império Romano, onde a diversidade de crenças era tolerada e respeitada, mesmo entre as seitas que acreditavam em coisas distintas. Somente com o surgimento do Cristianismo é que surge o conceito de que era necessário acreditar na coisa certa para ser salvo, e que todos os que não acreditassem naquilo estariam condenados. E justamente por isso, a diversidade de seitas e de entendimentos a respeito dos ensinamentos de Jesus fazia com que a intolerância fosse, em alguns casos, violenta. No quinto capítulo, são analisados dois grupos com entendimentos diametralmente opostos, do ponto de vista da origem Judaica da fé cristã: os Ebionitas e os Marcionitas. O primeiro grupo mantinha a crença na tradição judaica, enquanto o segundo abominava tudo que advinha dos judeus. Ehrman mostra Paulo como grande disseminador da tese pagã de que, para ser cristão, não era necessário adotar a religião judaica. É mostrada como era a crença de cada um dos dois grupos. Particularmente em relação aos Ebionitas, a falta de documentos produzidos por estes dificulta o entendimento de suas crenças, mas uma análise deste grupo é possível através do estudo do que foi escrito pelos oponentes destes (sempre avaliando estas fontes com bastante critério). Sabe-se, através de consenso em relação a estas fontes, que tratava-se de um grupo de judeus seguidores de Jesus, que respeitavam a lei e as tradições judaicas, que não acreditavam na preexistência de Cristo e muito menos na concepção virginal de Maria. Acreditavam que Jesus teria sido adotado por Deus, mas era um ser humano real, de carne e osso como todos nós, que foi concebido da união sexual entre seus pais. Adotavam o Evangelho mais judaizado, o de Mateus (com diferenças em relação ao Evangelho de Mateus que temos a disposição). Já os Marcionitas, por considerarem Paulo como o apóstolo maior de Jesus, tinham suas crenças extremamente atrativas à grupos pagãos. Este grupo rejeitava tudo de origem judaica, inclusive o Deus dos judeus, que estes consideravam uma deidade inferior ao Deus de Jesus. Acreditavam que o Deus dos judeus era um Deus rigorosamente justo, e que por isso, se encolerizava e punia as transgressões às suas leis, e o Deus de Jesus veio para salvar as pessoas do vingativo Deus dos judeus (o que os fazia acreditar na existência de dois Deuses). Acreditavam que Jesus nunca teve um corpo material, ou seja, ele apenas parecia ser humano. Marcião, o líder deste movimento, foi a primeira liderança entre as diversas seitas do Cristianismo a se preocupar em formular um cânon de escrituras sagradas, e muito provavelmente foi devido a este fato que os proto-ortodoxos passaram a sentir a necessidade de fazer o mesmo. E aqui, estamos falando de apenas duas visões, duas interpretações da vida e ensinamentos de Jesus, completamente distintas nos seus entendimentos, ambas reivindicando para si o título de verdadeiros seguidores de Jesus, sendo que é sabido que haviam diversos outros grupos, e que mesmo entre estes dois grupos definidos, havia diferenças menores de entendimento, o que mostra o quão complexo era o contexto Cristão dos primeiros séculos. O que teria acontecido com o Cristianismo atual se, no passado, um desses dois grupos tivesse prevalecido frente aos proto-ortodoxos? Ehrman faz uma breve análise a respeito deste questionamento neste ponto da obra. O capitulo 6 aborda especificamente um grupo de cristão: os Gnósticos. Como abordado anteriormente no livro, muitos documentos referentes à essa variante do Cristianismo vieram a público com o descobrimento da biblioteca de Nag Hammadi, com diversos evangelhos desconhecidos até então, onde se podia verificar ensinamentos secretos e “mais verdadeiros”, Evangelhos supostamente escritos pelos discípulos Filipe, João (filho de Zebedeu), por Tiago (irmão de Jesus) e por seu irmão gêmeo Tomé, dentre outros, todas as falsificações reconhecidas, mas que foram levados a sério por muitas comunidades e por muitas gerações. Mostra-se as características da crença Gnóstica, de que o mundo é um lugar ruim, e que a busca destes é a fuga deste mundo ruim, através do conhecimento secreto. Há, nos escritos de Nag Hammadi, descrições detalhadas dos Gnósticos sobre a criação do mundo e como viemos a habitá-lo e como se escapar dele, e que só aqueles que detém este conhecimento secreto, só uma pequena elite que possua uma fagulha divina dentro de si, faísca essa que é reacendida por meio da gnose, é que seria, salvos, segundo eles. A vastidão dos textos descobertos em Nag Hammadi é tão grande que alguns pesquisadores cogitam se a parte referente aos Cristãos Gnósticos (muitos dos textos lá descobertos não são sequer de seitas cristãs) pode ser representativa do grupo inteiro de Gnósticos ou se havia variantes de interpretação dentro deste grupo maior, fato que é aceito pela maioria dos estudiosos. Além dos textos descobertos em Nag Hammadi, outras descobertas compunham o rol de informações sobre esta seita, entre documentos escritos pelos combatentes contra tal seita nos primeiros séculos da Era Comum, bem como documentos descobertos nos séc. XVIII e XIX, que não foram levados em consideração pela comunidade acadêmica da época por não representarem a fé vigente. Cita-se também neste capítulo alguns exemplos de textos gnósticos, como “O Evangelho da Verdade”, “A Carta de Ptolomeu a Flora” e “O Tratado sobre a Ressureição”. O capítulo seguinte, seguindo uma linha didática de abordagem sobre o assunto, refere-se à última parte das divisões-macro do Cristianismo, ainda não descrita à fundo até este ponto da obra: os proto-ortodoxos, a parcela dos Cristianismos que no fim sagrou-se a “vencedora”, e cujos ensinamentos foram repassados adiante através dos séculos até nos alcançar nos dias atuais. Ehrman discorre sobre os mártires proto-ortodoxos, dentre eles Inácio, Bispo de Antioquia, preso e martirizado pelas feras doColisseum Romano, por conta de suas atividades cristãs. É frisada uma das características marcantes deste grupo, que era o desejo de morrer pela fé, característica esta que separava, segundo os proto-ortodoxosos, os verdadeiros fiéis dos falsos “hereges”. Cita-se também outros martirológios, todos cercados de acréscimos lendários. Inácio também é muito lembrado pela sua visão de organização da igreja, preocupação esta crescente na igreja primitiva, onde a desorganização e a falta de lideranças foi bastante prejudicial. Cita-se cartas falsamente atribuídas ao apóstolo Paulo, onde este escreve às suas comunidades sobre a necessidade de organização (o que o mesmo Paulo não havia feito em epístolas reconhecidamente escritas por ele – daí a conclusão de que são falsificações). Inácio, no seu caminho para o martírio em Roma, também escreve a diversas comunidades, sempre frisando a necessidade de respeito às autoridades eclesiásticas e aos livros da Antiga Aliança, pois os proto-ortodoxos sabiam na necessidade de busca de legitimidade em tradições antigas (naqueles tempos, o Cristianismo era uma religião considerada nova, e a vinculação aos textos tradicionais judeus ajudou a dar legitimidade à igreja, perante outras crenças). Além disso, Inácio buscava mostrar aos cristãos que Deus falava aos cristãos por outras formas, além do Velho Testamento e dos textos que mais tarde vieram a compor a Nova Aliança. De fato, Inácio considerava a si próprio como recipiente direto das revelações divinas, e durante muito tempo a revelação direta fez sucesso entre os cristãos proto-ortodoxos. Finalmente, é verificado o desenvolvimento de Inácio e outros expoentes sobre a teologia proto-ortodoxa, com a adoção de crenças na Trindade e a dualidade da figura de Cristo (totalmente humano e totalmente divino). Interessante observar que conceitos tidos como válidos pelos proto-ortodoxos eram considerados heréticos pelo mesmo grupo após poucas décadas, e tão interessante quanto é a adequação, por parte da teologia proto-ortodoxa, de suas crenças, como forma de abranger as crenças de outras seitas, de maneira a explicar suas posições teológicas e buscar se considerada como a fé verdadeira. Na terceira e última parte do livro, explora-se o tema “Vencedores e Perdedores”. Nesta parte, Ehrman discorre sobre as lutas entre os grupos distintos, suas ações e estratégias em busca da ortodoxia da fé, mostrando que desde sempre houve disputas de entendimento das escrituras, até mesmo na época em que Jesus era vivo (como por exemplo, a disputa tradicionalmente conhecida entre Jesus e os Fariseus), passando por Paulo, com suas cartas dirigidas às comunidades com o intuito de resolver problemas originados nas comunidades fundadas por este, problemas estes gerados por “falsos professores” que estavam deturpando o ensino dado por ele. Posteriormente, são estudados os conflitos entre os grupos, que perduraram entre os séculos II e III, sempre com cada parte buscando para si o título de fé ortodoxa. Ao término das disputas, a parte vencedora acabou escolhendo quais registros dos embates deveriam ser mantidos e como contariam a história do conflito, tendo as “vozes” dos perdedores sido silenciadas por muitos séculos até voltarem a ser “ouvidas” novamente com alguma clareza recentemente. O oitavo capítulo mostra que, a partir do século IV, os termos heresia e ortodoxia não eram mais problemas, visto que a crença Cristã foi definida com o Credo Niceno. Heresia, após a vitória da proto-ordodoxia, era considerado por estes tudo o que estivesse em desvio com a crença estabelecida, e para os ortodoxos, qualquer doutrina herética deveria ter surgido após a doutrina ortodoxa inicial tendo, aqueles que produziram as novas crenças, tido em mãos a crença verdadeira, a qual deturparam, ou seja, a partir do momento em que o credo Católico foi definido, este foi considerado como “A” forma original de Cristianismo. Esta visão clássica de ortodoxia e heresia perdurou por muitos anos, e cita-se o trabalho de Eusébio de Cesaréia, que em sua obra “História da Igreja”, escrita em 10 volumes, narra o curso do Cristianismo sob este prisma. Segundo Eusébio, as visões heréticas à ortodoxia se iniciaram com Simão Mago, que se considerava “o Poder de Deus”. Tal visão clássica sobre ortodoxia e heresia, no entanto, começou a ser combatida a partir da era moderna. No livro, são explorados três enfoques sobre o combate à esta visão clássica: Jesus e seus discípulos ensinaram uma ortodoxia que foi transmitida para as igrejas dos séculos II e III? O livro dos Atos fornece um relato confiável dos conflitos internos da igreja cristã mais antiga? Eusébio dá um resumo imparcial das disputas que fervilhavam nas comunidades cristãs pós-apostólicas? A primeira questão envolve os ensinamentos de Jesus e seus apóstolos e a confiabilidade dos documentos do Novo Testamento que transmitiram estes ensinos. Como vimos na obra “O que Jesus disse, o que Jesus não disse”, do mesmo autor, há milhares de problemas com os textos dos diversos manuscritos que os historiadores tem acesso, e como foi dito por um destes historiadores, “há mais diferenças entre os manuscritos do que palavras no Novo Testamento”. Nesta obra, Ehrman contempla os estudos feitos sobre estas inconsistências pelo historiador alemão Hermman Reimarus, na época da do Iluminismo, onde ele mostra que muitas das qualidades atribuídas a Jesus não eram ensinadas ou assumidas por Ele, mas sim que foram atribuídas por aqueles que vieram depois, durante a criação da religião Cristã (a qual Jesus também não fundou e, segundo documentos históricos, não pediu que fosse fundada). Fala-se também do trabalho de outro estudioso alemão, F.C Baur, a respeito das disputas entre o Cristianismo Judaico e o Cristianismo Gentio, onde o Livro do Apocalipse, por exemplo, mostra-se completamente judaico (tese da síntese de Baur), enquanto as cartas de Paulo aos Gálatas e aos Romanos são completamente anti-judáicos (tese da antítese), enquanto obras como O Livro de Atos são uma força mediadora, o que leva ao entendimento de que o Livro de Atos não pode ser considerado uma visão histórica dos fatos os quais ele narra, sendo dirigido por uma ordenação teológica que afeta a exatidão histórica. E na terceira questão, mostra-se o estudo de Walter Bauer sobre os escritos de Eusébio de Cesaréia e seu relato sobre ortodoxia e heresia na história da igreja.

O próximo capítulo mostra que as disputas doutrinárias ocorriam mais fortemente no campo das palavras (apesar de ter havido batalhas armadas entre grupos). Há uma vasta coleção de manuscritos contendo os ataques verbais dos proto-ortodoxos às outras visões de fé e vice-versa. Mostra-se alguns exemplos de ataques dos Ebionitas (judeus cristãos) contra os ensinos de Paulo de Tarso, bem como ataques gnósticos à proto-ortodoxia, mostrando que a crença proto-ortodoxa não era errada em si, mas que era ridiculamente inadequada e superficial, e que os gnósticos interpretavam os credos, as escrituras e os sacramentos dos proto-ortodoxos de maneira muito mais espiritual e iluminada. Em contrapartida, são mostrados os ataques da proto-ortodoxia às outras visões, utilizando de meios polêmicos para extirpar os gnósticos das suas igrejas, destruir as escrituras especiais e aniquilar seus seguidores, estratégia tão bem executada que até recentemente não se fazia ideia do tanto que os gnósticos foram significativos nos primeiros séculos do Cristianismo. Ehrman demonstra como os proto-ortodoxos defendiam a unidade (por exemplo, a crença em um só Deus, Deus e Jesus como sendo um só) e imputavam aos outros a diversidade. Falavam de bom senso e imputavam aos outros a falta de senso. Falavam em verdade em suas crenças e erro na crença dos demais grupos. Citavam a sucessão apostólica contra a crença em falsos profetas. Inventam falsos costumes de ordem moral dos outros grupos, em casos escandalosos de orgias sexuais como atos litúrgicos destas outras seitas, e coisas ainda mais escandalosas. No décimo capítulo, são verificadas as falsificações produzidas pelos proto-ortodoxos, para desmoralizar as crenças por eles consideradas heréticas, como por exemplo, O Evangelho de Infância de Tomé, onde se contam fatos mirabolantes sobre os poderes de Jesus quando criança, documento esse atacado pelos proto-ortodoxos como sendo falsificação gnóstica, mas que numa análise mais aprofundada, é mostrado que não há nenhum traço gnóstico neste, ou seja, que o texto não parece desenvolver nenhum traço teológico específico, mas foi usado pelos proto-ortodoxos no combate a outras crenças. Além disso, mostra-se falsificações de relatos com o intuito puramente teológico, para dar embasamento à crença proto-ortodoxa, como se fossem escritos antigos, mas que de fato foram produzidos nos séculos II e III, mostrando a preocupação existente neste grupo em relação à busca de legitimidade de suas crenças. Cita-se o exemplo de várias falsificações deste tipo, uma mais elaboradas, outras mais sutis, e também a falsificação dos textos que vieram posteriormente a compor o cânon sagrado, com inserções de trechos nos textos sagrados para combater outras teologias. O penúltimo capítulo enfoca a criação da escritura proto-ortodoxa, com a adoção do cânon de livros sagrados no final do século IV, após a oficialização do Cristianismo Católico como religião oficial do Império Romano. Ehrman estuda o processo de formação do cânon da Nova Aliança, mostrando as interpretações de Jesus às Escrituras Judaicas e a tradição destas interpretações sendo convertidas em Escrituras por aqueles que vieram depois Dele. Verifica-se que além de seguir em grande parte o que estava escrito na Antiga Aliança, os ensinamentos de Jesus muitas das vezes suplantavam esta. Tais ensinamentos, já no final do século I já haviam adquirido, para os Cristãos, o status de textos sagrados, dando a estes textos autoridade. No decorrer do capítulo, verifica-se os métodos utilizados para definir quais livros da vasta coleção de textos que haviam na época deveriam entrar no cânon sagrado, quase no final do século IV, apesar do surgimento da necessidade de estabelecimento deste já ser verificada entre os proto-ortodoxos a partir do século II.Cita-se a descoberta de um cânon, no século XVIII – o Cânone Muratoriano, um texto pessimamente copiado, com textos de vários padres da igreja do século IV e V, mas que já citava grande parte dos livros que acabaram compondo o cânon definitivo. Cita também os quatro critérios usados para verificar se um determinado texto deveria fazer parte da Nova Aliança (Antiguidade, Apostolicidade, Catolicidade e Ortodoxia do texto), e o trabalho de Eusébio, na sua obra de 10 volumes sobre a história da igreja, onde este classifica os textos em quatro categorias (reconhecidos, questionados, espúrios e heréticos), bem como as discussões da ortodoxia que culminaram na escolha dos 27 livros que foram escolhidos. Fechando a obra, Ehrman avalia mais a fundo as possibilidades alternativas de vitoriosos na ortodoxia e as consequências que estas vitórias alternativas poderiam trazer para a humanidade dos dias atuais. Explica também que, como parte da estratégia de vitória, a proto-ortodoxia adotou, muitas das vezes, a prática de absorver o conteúdo do que as outras visões e interpretações tinham, incorporando tais visões à sua, levando a conclusão de que a vitória da proto-ortodoxia não foi completa, justamente por conta desta absorção de tradições não-ortodoxas para explicar muitas das crenças defendidas pelos proto-ortodoxos. E apesar destes fatos, verifica-se o quão intolerantes eram os proto-ortodoxos em relação às outras visões e interpretações existentes, embora não seja possível afirmar que estas outras visões fossem mais tolerantes em relação às outras, dado que a maioria dos textos destes grupos foram perdidos. Verifica-se também que, graças à essas descobertas e estudos sobre os Cristianismos primitivos, a visão atual das crenças é bem mais tolerável e gera maior fascínio por estas visões, o que gera sentimento de perda em relação ao esquecimento de tradições bem intencionadas que foram abandonadas e destruídas, mas ao mesmo tempo, vem a alegria das novas descobertas oriundas dos estudos e pesquisas, para nos mostrar cada vez mais que a crença que chegou até nós, vitoriosa dos conflitos do passado, também carrega consigo os traços daquelas que foram derrotadas, suprimidas e perdidas. Diante de tudo o que foi visto na obra, é possível verificar o quão distante da ortodoxia está a crença que hoje é divulgada pela Igreja Católica Romana. A diversidade de crenças existente desde os primeiros momentos do Cristianismo, as diversas interpretações que haviam nos primeiros séculos, os intensos combates entre as partes na busca pela hegemonia de crença, as falsificações perpetradas por todos os lados e os meios utilizados para garantir a manutenção de determinados textos em detrimento de outros, que fizeram com que tradições inteiras fossem perdidas, tudo isso mostra que a visão de ortodoxia defendia pela igreja, desde que a proto-ortodoxia venceu as disputas teológicas no início do século IV passa longe de ser um consenso. Ao mesmo tempo, é fácil perceber que, apesar de tudo o que aconteceu naqueles tempos, é difícil imaginar que a vertente vencedora não tenha sido a mais apropriada, diante de interpretações muitas das vezes absurdas que eram dadas ao ensino perfeito deixado por Jesus para a humanidade. E o livro consegue mostrar todos estes pontos com excelente didática, numa leitura agradável e muito informativa.

Resenha feita por Bruno Oliveira
* publicado originalmente em 07/03/2014 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/