Quem escreveu o pentateuco? O Caráter fragmentário dos textos bíblicos

QUEM ESCREVEU O PENTATEUCO? O CARÁTER FRAGMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
Iara Cecília Monteiro de Barros Almeida Paiva

Artigo científico apresentado à Universidade Cândido Mendes – UCAM como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Ciências da Religião
RESUMO
Este artigo tem por finalidade demonstrar por um minucioso exame do Pentateuco bíblico, utilizando métodos científicos, que a autoria dos livros atribuída a Moisés, conforme a tradição judaico-cristã, é equivocada. Os relatos fragmentados e muitas vezes incoerentes entre si apontam para uma autoria plural e diversificada. Há ainda o objetivo de verificar se é possível identificar os prováveis autores do texto. Neste caso, a proposta é dar exemplos de alguns trechos significativos atribuídos pela crítica literária bíblica, às tradições Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal, conforme proposta na hipótese documentária. A investigação verifica a possibilidade de haver glosas posteriores que modificaram ainda mais os textos das quatro tradições do Pentateuco. A metodologia utilizada no presente artigo é a revisão bibliográfica de produções literárias de renomados autores especialistas, ilustrada por exemplos de fragmentos discordantes do Pentateuco selecionados por mim, especialmente para este artigo.
Palavras-chave: Bíblia, Pentateuco, Javista, Eloísta, Deuteronomista, Sacerdotal.
Introdução
Este trabalho tem por finalidade principal demonstrar que há diferentes estratos de textos sobrepostos nos cinco primeiros livros da Bíblia e que isso indica a existência de autores diversos, que escreveram em épocas diferentes e com intenções variadas. Os autores bíblicos, quando se propuseram a documentar por escrito as leis de Deus, a história do povo e dos seus patriarcas, não estavam fazendo uma narrativa histórica, conforme os padrões atuais, mas escrevendo uma histórica religiosa que ajudou o povo judeu a construir sua identidade como nação. Durante muitos séculos, a tradição judaico-cristã atribuiu a autoria do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, a Moisés. A partir do final do século XVIII, a análise textual da Bíblia demonstrou que a autoria estava equivocada e que, na realidade, há vários autores, de variadas épocas envolvidos na redação do Pentateuco, conforme demonstram as várias narrativas duplicadas presentes nele. No século XIX, conforme afirma Armstrong (2008), os estudiosos da Crítica Superior, principalmente por influência de Julius Wellhausen, chegaram à conclusão de que há pelo menos quatro estratos diferentes de autores no Pentateuco, teoria que será denominada neste trabalho como hipótese documentária. Cada estrato do texto foi chamado de tradição, por ser fruto de mais de um autor com características e propósitos semelhantes provenientes de uma mesma cultura e região. Apesar de ter recebido inúmeras críticas, a hipótese documentária é amplamente utilizada pelos estudiosos bíblicos nas suas publicações sobre o assunto e nos comentários dos textos das Escrituras, como no caso da Bíblia de Jerusalém (2012) e da Bíblia de Tradução Ecumênica (2002) e pode ser demonstrada, em parte, com a utilização de extratos de trechos do próprio texto do Pentateuco. Este trabalho, ao trazer exemplos práticos de duplicatas e divergências textuais, visa facilitar a compreensão de que o Pentateuco não é uma narrativa linear, que há relatos mitológicos permeando os fatos históricos, que a tradição da autoria por Moisés é equivocada e que, apesar dos problemas encontrados, o Pentateuco não deixa de ser uma fonte fundamental para conhecer a cultura e a crença do povo hebreu, que originou o judaísmo e o cristianismo, religiões que fazem parte da base de grande parte da nossa cultura brasileira.
Desenvolvimento
O Pentateuco é a coleção dos cinco primeiros livros das Bíblias hebraica e cristã composta pelos livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.  O primeiro livro é o Gênesis, que conta a história das origens da humanidade, dos patriarcas Abraão, Isaac, Jacó e José, terminando com a divisão das doze tribos de Israel que estão na origem do povo judeu. O Êxodo narra o período em que os hebreus foram escravizados no Egito e como Moisés os libertou pela interseção de Iahweh, o Deus de Israel, abrindo o Mar Vermelho, conduzindo-os pelo deserto e entregando os mandamentos divinos inscritos nas Tábuas da Lei. O Levítico interrompe a narrativa para apresentar leis referentes principalmente ao sacerdócio, ritos e festas religiosas. O livro dos Números, continua a narrativa do deserto com o recenseamento do povo, o tempo passado no deserto e a partilha antecipada de Canaã. O Deuteronômio contém os últimos discursos de Moisés introduzindo novas leis e escolhendo Josué como seu sucessor.
Conforme explicado na Introdução ao Pentateuco da Bíblia de Jerusalém (BÍBLIA, 2012, p. 22), tradições antigas acreditavam que Moisés teria sido o redator do Pentateuco, ao menos parte dele. Esta ideia permanecia ainda na época imediatamente posterior a Jesus, conforme relatado na Epístola aos Romanos capítulo 10, versículo 5: “Moisés, com efeito, escreveu a respeito da justiça que provém da Lei: é cumprindo-a que o homem vive por ela” (BÍBLIA, 2012, p. 1983). Atualmente, ainda há quem acredite que Moisés foi o redator dos cinco primeiros livros da Bíblia, no entanto, muitos exegetas e a maioria dos historiadores concordam que os que pensam assim estão enganados.  Em primeiro lugar, encontramos no último capítulo do Deuteronômio o relato da morte de Moisés que não poderia ter sido escrito pelo próprio, por motivos óbvios. Há informações nos textos do Pentateuco que não condizem com a época em que ele viveu, como a consagração de casas e campos arados que são realidades posteriores à época em que os hebreus teriam vivido no deserto habitando tendas, demonstrando que os textos foram escritos muitos anos após a época de Moisés. Há, ainda, muitos indícios de que não houve um único autor para a totalidade do Pentateuco como demonstram os dois relatos independentes da criação que estão nos capítulos 1 e 2 do Gênesis (BÍBLIA, 2012, p. 33, 35). Outro exemplo interessante de ser analisado é o evento conhecido como êxodo, o tema principal dos quatro últimos livros do Pentateuco. O êxodo bíblico, ou seja, a saída do povo hebreu da escravidão do Egito em busca da Terra Prometida por Deus, Canaã, teria ocorrido por volta do ano 1250 a.C. (BÍBLIA, 2012, p. 2171) segundo a cronologia bíblica. No entanto, há muitas evidências de que o êxodo não é um episódio histórico e, portanto, não poderia ter sido documentado por Moisés ou qualquer outro personagem daquela época. Segundo Armstrong:
“[…]arqueólogos israelenses que vêm escavando a região desde 1967 não encontraram evidência alguma que corrobore essa história: não há sinal de invasão estrangeira ou destruição em massa, e nada que indique uma mudança em grande escala da população. O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica. Há muitas teorias. O Egito dominara as cidades-estado cananeias desde o século XIX a.C., e havia se retirado no fim do século XIII, pouco antes que as primeiras povoações aparecessem na região montanhosa até então inabitável. Ouvimos falar pela primeira vez num povo chamado “Israel” nessa região por volta de 1200 a.C. Alguns estudiosos afirmam que os israelitas eram refugiados das cidades-estado em declínio nas planícies costeiras. Talvez tenham se juntado a eles outras tribos vindas do sul, que levavam consigo seu deus Jeová, que parece ter tido origem nas regiões em torno do Sinai, ao sul. Os que haviam vivido sob o domínio egípcio “”nas cidades cananeias talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito – mas em seu próprio país.” (ARMSTRONG, 2008, p.21)
O arqueólogo israelense, Finkelstein, acrescenta:
“No fundo, houve um movimento de pessoas dentro e fora do Egito no final da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, e uma memória foi desenvolvida sobre um possível evento antigo, e depois essa memória ganhou importância e foi transmitida oralmente por várias gerações até que finalmente se tornou a história do Êxodo por escrito. Não estou dizendo que não há qualquer germe histórico nela. Você nunca vai me ver dizer isso. Mas eu não vejo isso como totalmente histórico também”. (FINKELSTEIN, 2010)
O caráter mitológico de algumas partes do Pentateuco já é admitido até mesmo pelo Papa Francisco, que, durante um discurso na Pontifícia Academia de Ciências em outubro de 2014, afirmou que “o Big Bang não contradiz a intervenção criadora, mas a exige” e acrescentou que “a evolução da natureza não é incompatível com a noção de criação, pois exige a criação de seres que evoluem”. O papa criticou ainda aqueles que leem o livro do Gênesis, que relata a origem do mundo, e pensam que Deus agiu como um mago. “Não é assim” (PAPA FRANCISCO, 2014). Desta forma, não há como sustentar a hipótese de Moisés ter relatado por escrito no Pentateuco os episódios exatamente como ocorreram, já que o texto bíblico não corresponde à realidade dos fatos. Armstrong (2008) nos conta que Baruch Spinoza (1632-77) foi um dos primeiros no estudo das origens históricas e dos gêneros literários da Bíblia, concordando que Moisés não poderia ter escrito todo o Pentateuco e afirmando que o texto era obra de diversos autores, sendo o pioneiro do método histórico-crítico que ficaria conhecido como Crítica Superior da Bíblia. No final do século XVIII, Jean Astruc (1684 – 1766) e Johann GottfriedEichorn (1752 – 1827)  afirmaram que havia dois documentos no Gênesis: o Javista e o Eloísta, que denominavam seus deuses respectivamente de Javé (Iahweh) e Elohim. No século XIX, já se sabia que havia quatro fontes independentes no Penteteuco e em 1805, De Wette afirmou que o Deuteronômio era provavelmente o livro encontrado no Templo de Jerusalém, durante a reforma do Rei Josias (622 a.C.). Karl Graf (1815-69) afirmou que o documento mais recente era o correspondente à tradição Sacerdotal. Julius Wellhausen (1844-1918) consolidou a hipótese documentária de quatro fontes: Javista (J), Eloísta (E), Deuteronomista (D) e Sacerdotal (P), mas também afirmou que há estratos oriundos de acréscimos posteriores.
Conforme a pesquisa avançava, consolidou-se a versão de que há ao menos quatro tradições intrincadas no Pentateuco (JEDP), no entanto, verificou-se que era bastante difícil separar, exatamente, cada camada dos estratos das diferentes tradições. Mesmo assim, com base no conhecimento de cada tradição e suas características principais, alguns exemplos mais representativos podem ser elencados. A tradição Javista (J), proveniente do Reino de Judá, ao sul, apresenta um Deus (Iahweh) antropomórfico, conforme encontramos nos relatos do segundo capítulo  do Gênesis, onde Deus passeia pelo Jardim do Éden. Em outras partes ele fecha a Arca de Noé (BÍBLIA, 2012, p. 44) e enterra Moisés (BÍBLIA, 2012, p. 305). A tradição Eloísta (E), proveniente do Reino de Israel, ao norte, denomina Deus como Elohim. Esta divindade já é mais transcendente e não convive diretamente com os humanos, enviando anjos como seus mensageiros e representantes. Um exemplo é encontrado no capítulo 23 do Êxodo, no qual Deus envia um anjo, que representa seu nome, para conduzir o povo até Canaã. Acredita-se que as narrativas javistas e eloístas tenham sido reunidas após a destruição do Reino de Israel pelos Assírios (734 a.C.), provocando a migração dos povos do norte para Judá, ao sul, que levaram com eles as suas tradições específicas. A tradição Deuteronomista (D) foi iniciada pela descoberta de um texto atribuído à Moisés, durante a reforma do Templo de Jerusalém, no século VII a.C. realizada pelo Rei Josias. O texto provavelmente foi produzido naquela época para satisfazer os desejos de reforma do culto, conforme nos explica Armstrong (2008, p.27). “A Lei era tão nova, que quando Josias a ouviu, rasgou suas vestes em desespero e buscou colocá-la imediatamente em prática” (BÍBLIA, 2012, p. 539).

Um exemplo desta tradição é o código de leis encontrado no capítulo 12 do Deuteronômio. A tradição Sacerdotal (P) foi composta durante e logo após o exílio dos judeus na Babilônia, provocado pela invasão e destruição de Jerusalém por Nabucodonosor (597 a.C.). Um exemplo de texto sacerdotal é o relato da criação que teria sido realizado por Deus, em seis dias, encontrado no primeiro capítulo do Gênesis. Os livros Levítico e Números são outros exemplos. Há muitos outros textos de autoria sacerdotal mesclados com textos mais antigos de tradições javista e eloísta, formando uma “colcha de retalhos” principalmente nos livros Gênesis e Êxodo. Após a conclusão do texto do Pentateuco, com a combinação das quatro tradições, outras inserções foram acrescentadas posteriormente. Encontramos no
livro de Neemias o relato do sacerdote Esdras (398 a.C.), enviado do Rei Persa, lendo e explicando a Lei ao povo que chorava copiosamente por não estar cumprindo as prescrições, demonstrando que o que Esdras leu era provavelmente desconhecido do senso comum e deve ter sido incorporado posteriormente ao Pentateuco (BÍBLIA, 2012, p. 649). Além deste exemplo, encontramos outras evidências de acréscimos posteriores.  Um provável adendo é demonstrado pela discrepância que encontramos no relato javista da adoração do Bezerro de Ouro pelo povo, enquanto Moisés recebia as Leis na montanha, contido no capítulo 32 do Êxodo. Moisés suplicou para que Deus não punisse o povo, no que foi atendido. Entretanto, apenas alguns versículos à frente, Moisés ordenou a execução de três mil homens que haviam sido infieis a Deus por adorarem o ídolo de ouro. Este último trecho pode ter sido uma interpolação posterior realizada por um escriba que, indignado, achou que aqueles que idolatraram outros deuses deviam ser punidos, pensamento típico do monoteísmo estrito que tornou-se comum apenas vários anos após o retorno do exílio, quando as quatro tradições já estavam consolidadas. Podemos demonstrar vários exemplos da fragmentação do texto bíblico, oriundos das muitas camadas, dos diversos autores do Pentateuco. Os dez mandamentos, conhecidos como Decálogo, base das leis judaicas e cristãs, não faziam parte do texto original no local onde hoje se encontram. O texto imediatamente anterior diz: “Desceu pois Moisés até o povo e disse…” (Ex 19: 25) e permanece sem conclusão, pois, logo em seguida começa o trecho do Decálogo que diz que o próprio Deus o pronunciou (BÍBLIA, 2012, p. 130). Aliás, não há concordância em relação à quem pronunciou a Lei. Foi o próprio  Iahweh que pronunciou o Decálogo como no capítulo 20 do Êxodo, ou foi Moisés conforme o capítulo 24?  Quem escreveu a Lei e onde? Foi Moisés que escreveu no Livro da Aliança, como no capítulo  24, versículos 4 a 7 do Êxodo? Ou foi o próprio Iahweh que escreveu nas Tábuas do Testemunho, como no capítulo 31, versículo 18 do Êxodo?  Quem poderia subir o Monte Sinai para conversar com Deus e receber suas instruções? No Êxodo capítulo 19, versículo 24, apenas Moisés e Aarão eram permitidos. No capítulo 24, versículo 9, encontramos o seguinte relato: “E Moisés, Aarão, Nadab, Abiú e os setenta anciãos de Israel subiram. Eles viram o Deus de Israel” (BÍBLIA, 2012, p.137). A contradição é evidente com o relato do capítulo 20 em que nem Moisés poderia ver a face de Deus, porque isso provocaria a morte de qualquer ser humano (BÍBLIA, 2012, p. 151). Até mesmo o shabat, que “é a principal contribuição original da cultura judaica para a civilização humana” (SORJ, 2009, p. 27, tradução nossa), tem variações quanto ao motivo pelo qual deve ser um dia de repouso e consagração à Deus. Na tradição mais antiga, Javista, expressa em Êxodo capítulo 23, versículo 12, o motivo do shabat, é o descanso dos animais,  das crianças e dos estrangeiros. Segundo Armstrong:
No Deuteronômio, o Shabat surge para proporcionar um dia de folga a todos, até mesmo aos escravos, e para fazer os israelitas lembrarem o Êxodo. Em P, adquire um novo significado: torna-se um ato de imitação de Deus e uma comemoração da criação do mundo. Ao observar o repouso do Shabat, os judeus participavam de um ritual que, na origem, só deus observara: era uma tentativa simbólica de viver a vida divina (ARMSTRONG, 2012, p. 88).
Além dos exemplos dos diversos estratos que por vezes se contradizem, há também outros que demonstram que o texto não foi escrito em um contexto de um povo nômade passando por décadas no deserto. Encontramos no Código da Aliança, em Êxodo capítulo 20, prescrições quanto ao rebanho, plantações e escravos hebreus. Um povo que acabou de escapar da escravidão faria leis regulamentando escravos entre seu próprio povo? Se eles eram nômades em um ambiente desértico teriam prescrições quanto à colheita? E o que dizer da lei que prevê punição para um ladrão surpreendido arrombando um muro para roubar gado em uma sociedade em que todos habitavam tendas? (BÍBLIA, 2012, p. 133). É evidente que o texto reflete uma realidade de um povo estabelecido em Canaã a um tempo suficiente para construir muros de pedra, ter grandes plantações e diversos animais, demonstrando uma redação tardia do relato. Moisés, segundo a narrativa do Deuteronômio, não entrou na Terra Prometida, Canaã, morrendo em sua fronteira. Não faz sentido atribuir a ele este texto. Há ainda muitos outros exemplos que servem para ilustrar o quão fragmentário, divergente e mitológico é o Pentateuco bíblico, basta examinar minuciosamente e com isenção seus diversos textos.
Conclusão
Os diversos estratos do texto do Pentateuco, apresentando muitas vezes ideias divergentes e impossíveis de serem conciliadas, quando submetidos a um exame acurado, não permitem que afirmemos a hipótese de Moisés como único autor. O trecho em que o Deuteronômio relata a própria morte de seu protagonista e temas encontrados ao longo do texto que não condizem com a realidade de nômades no deserto comprovam que a autoria do Pentateuco atribuída a Moisés não se sustenta quando se utilizam métodos científicos.  Os relatos que compõem o Pentateuco foram transmitidos oralmente por muitos anos, permeando fatos históricos com mitos de formação do povo judeu. A tradição escrita foi iniciada, provavelmente, apenas a partir do século VIII a.C. (ARMSTRONG, 2008) e a partir de então vários autores, em épocas diferentes, contribuíram para dar a forma atual que o Pentateuco apresenta. Isso sem contar com as possíveis diferenças atribuídas às diversas traduções pelas quais o texto passou durante milênios. A hipótese documentária, que atribui a redação do Pentateuco não a um autor, mas a vários autores denominados tradições Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal, possui evidências consideráveis, conforme aqui exemplificados. Ainda assim, é muito difícil determinar quando se inicia uma tradição e termina a outra. Há que se considerar que interpolações tardias ou pertencentes a outras tradições certamente ocorreram. O fato de estar demonstrado que o Pentateuco não pode ser considerado historicamente preciso, de que há trechos baseados em mitos e personagens que provavelmente nem existiram é importante para o conhecimento daqueles que consultam a Bíblia em busca do que realmente ocorreu na história do povo hebreu. Não podemos aceitar, cientificamente, que a Bíblia é expressão de verdades incontestáveis. Outrossim, ela é uma das fontes mais importantes para conhecer a religião judaica e cristã e para compreender a cultura que permeia a nossa sociedade.  O caráter sagrado do Pentateuco permanece, até hoje, para muitas pessoas e deve ser respeitado e valorizado. Mas para nós, que pretendemos estudar as Escrituras pelo viés científico, é importante lembrarmos que a Bíblia é um livro de história religiosa  e assim deve ser utilizado e compreendido por especialistas em Ciências da Religião.

REFERÊNCIAS
ARMSTRONG, Karen. A Bíblia, uma biografia. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
__________________. Uma história de Deus. Quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo. Tradução Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. 8 impressão. São Paulo: Editora Paulus, 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia tradução ecumênica. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. Tradução Tuca Magalhães. São Paulo: A Girafa Editora, 2003.
FINKELSTEIN, Israel. The devil is not so black as he is paintead. Biblical Archaelogy Review, v. 36, n. 3, may/june 2010. Tradução disponível em: http://numinosumteologia.blogspot.com.br/2010/04/entrevista-com-israelfinkelstein.html. Acesso em: 25/03/2017.
Papa Francisco diz que Big Bang e teoria da evolução não contradizem a lei cristã. Disponível em: http://g1.globo.com/ciencia-e-aude/noticia/2014/10/papa-diz-que-bigbang-e-teoria-da-evolucao-nao-contradizem-lei-crista.html. Acesso em: 25/03/2017.
SORJ, Bernardo. Judaísmo para todos. Buenos Aires, Argentina: Siglo XXI Editora Iberoamericana, 2009.

Satanás no Antigo Testamento

Iara Paiva

A história do povo hebreu é permeada de guerras e conflitos, seculares e religiosos. Na busca de se estabelecer como nação e povo escolhido por Deus, a religiosidade, presente em todos os aspectos do cotidiano dos hebreus, influenciou a maneira como foram retratados seus inimigos, sendo estes vinculados a figuras mitológicas representativas do mal.

Alguns dos profetas, alegando inspiração divina, utilizaram figuras da mitologia cananeia como símbolo dos inimigos de Israel como em Isaías 27:1: “Naquele dia, punirá Iahweh, com sua espada dura, grande e forte, Leviatã, serpente escorregadia, Leviatã, serpente tortuosa, matará o monstro que habita no mar”. Se o inimigo era temível, Iahweh era implacável.

A partir do século IV aEC, imagens mitológicas começaram a ser associadas aos inimigos internos de Israel, porém, a figura não era mais monstruosa e sim um membro importante da corte divina conhecido por Satanás.

Na Bíblia Hebraica, Satanás não é o líder dos demônios, personificação do mal como o conhecemos na atualidade. Em sua estreia nas escrituras ele não é inimigo de Deus, tampouco maligno em sua essência.

No livro de Jó, Satanás é um ser angélico, membro da corte celeste, servo de Deus. A palavra grega, angelos, que originou o vocábulo anjo e que foi traduzida do termo hebraico malak, tem o significado de mensageiro. Anjos eram também conhecidos como filhos de Deus. Por sua vez, o termo hebraico satanás, significa adversário e não era inicialmente um personagem específico. Sua conduta era de um ser sobrenatural enviado por Deus para obstruir a atividade humana. O termo grego diabolos, que originaria o termo diabo, significa apenas “ alguém que atira algo no caminho”. Esse personagem era enviado, assim como o anjo da morte, em missões que muitas vezes não eram agradáveis aos humanos, porém necessárias.

A história de Balaão, no livro dos Números, é um exemplo interessante da atuação satânica para mudar os planos humanos visando uma ordem divina. Balaão desobedeceu às ordens de Iahweh, que enviou um anjo com uma espada para lhe barrar a passagem. A jumenta de Balaão, vendo o anjo, desviou do caminho. Para obrigá-la a permanecer no caminho ele espancou a jumenta, que continuou tentando desviar do anjo. A cena da punição do animal se repetiu três vezes. Por fim, a jumenta falou reclamando do tratamento recebido (animais falantes são parte da tradição javista, como a serpente do Éden) e o Anjo de Iahweh se revelou explicando que se a jumenta não tivesse desviado do caminho, ele já teria sido morto. Balaão concordou em obedecer aos desígnios divinos a partir deste incidente. A ação do mensageiro teve um caráter disciplinante. (Números 22: 22-35)

1

No livro de Jó, escrito por volta de 550 aEC, satanás não teve um caráter protetor, chegando o Senhor a admitir que satanás o incitou a ir contra Jó. No capítulo primeiro, o autor narra uma reunião da corte celestial. Os filhos de Deus (anjos) apresentam-se a Iahweh, inclusive Satã, que havia chegado de uma volta pela Terra. Iahweh perguntou se ele viu seu servo Jó, que seria o mais íntegro e reto temente a Deus. Satã replicou que Jó só era temente a Deus porque fora abençoado com muitas posses e que se perdesse tudo o que possuía blasfemaria contra Deus. Iahweh permitiu, então, que Satã tirasse tudo de Jó, mas que não lhe fizesse mal diretamente. Por meio da intervenção satânica, Jó perdeu seu rebanho, seus filhos e todos os seus bens, mas ainda assim continuou fiel. Satã pediu permissão para endurecer a prova lhe enviando uma moléstia de pele. Jó suportou o sofrimento e Deus lhe restituiu o dobro do que tinha e nova descendência. Este final insinua o início de uma tendência que se fortaleceria com a literatura escatológica, de que, apesar da ação satânica, ao final Deus sempre vence.

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Por volta da época em que foi escrito o Livro de Jó, o autor do Livro 1 Crônicas utilizaria novamente a figura de Satanás, desta vez para justificar um ato indesejado ordenado pelo Rei Davi. Ao ordenar o recenseamento para instituir o sistema tributário, Joab, seu principal comandante tentou convencê-lo de que a medida seria impopular, “causa de pecado a Israel”. Davi, porém, foi irredutível e o senso foi realizado. Para condenar o ato sem tampouco comprometer o Rei, o cronista atribuiu o feito à influência de Satanás: “Satã levantou-se contra Israel e induziu Davi a fazer o recenseamento de Israel”. (1 Crônicas 21: 1)

Interessante que o mesmo fato é narrado em 2 Samuel 24: 1, porém a responsabilidade por incitar o rei é atribuída à ira de Iahweh sobre Israel. Podemos ver que prejudicar os humanos não era prerrogativa apenas de Satã e as ações de Deus e de Satanás eram por vezes tão semelhantes que se confundiam entre si.

Apesar de ter sido influenciado, segundo 2 Samuel pelo próprio Iahweh, Davi se arrependeu e pediu perdão a Iahweh que, por intermédio do profeta Gad, propôs que o rei escolhesse a penitência entre três opções: sete ou três anos de fome (os relatos são diferentes em 2 Samuel e 1Crônicas), três meses de derrota fugindo do adversário na guerra ou três dias de peste. Davi escolheu a última e setenta mil homens de Israel morreram pela espada do anjo divino. Satã provocou um recenseamento, Iahweh ordenou o extermínio de setenta mil.

Aos poucos foi se firmando a ideia de que Satanás não era apenas um agente divino, mas um adversário de Iahweh e de Israel, conforme demonstra a narrativa do profeta Zacarias 3: 1-2: “Ele me fez ver Josué, sumo sacerdote, que estava de pé diante do Anjo de Iahweh, e Satã, que estava de pé à sua direita para acusá-lo. O Anjo de Iahweh disse a Satã. “Que Iahweh te reprima Satã, reprima-te Iahweh, que elegeu Jerusalém”.

A narrativa de Zacarias tem como contexto os conflitos gerados entre os que retornaram da Babilônia após o término do exílio (538 a EC) e aqueles que permaneceram em Jerusalém. O profeta tomou o partido dos que retornavam e associou Satanás aos habitantes identificados como inimigos que, tendo permanecido na cidade, não aceitavam Josué como sumo sacerdote.

A nova perspectiva de Satanás, que passa de um servo de Deus a seu opositor, deve-se em grande parte à influência do zoroastrismo, religião persa com a qual os judeus tiveram contato durante o período de exílio na Babilônia. Zoroastro acreditava que a guerra na Terra refletia a guerra no céu. Sua doutrina dualista colocava em oposição os deuses Ahura Mazda, representante do bem, e Ahriman, do mal. Ao retornar para Jerusalém, os exilados adaptaram ao monoteísmo judaico a ideia dos deuses Ahura Mazda e Ahriman associando-os respectivamente a Iahweh e Satã. Durante o longo período em que permaneceram exilados, a sensação de terem sido abandonados por Deus provocou questionamentos sobre os motivos das desgraças que recaíram sobre o povo eleito. A ideia de uma potência celeste em oposição a Iahweh atuando na Terra fazia todo sentido para explicar a situação pela qual estavam passando.

Para espanto de muitos, a menção a Satanás no Antigo Testamento é rara. A figura maligna e poderosa que conhecemos hoje como Diabo ganhará importância nos escritos apócrifos judaicos, que surgiram após as dissidências entre os judeus depois da revolta de Judas Macabeu em 167 aEC, e principalmente na literatura cristã. A luta entre o bem e o mal tomará proporções cósmicas na literatura apocalíptica que será abordada em texto posterior.

Bibliografia:

Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada, 8ª reimpressão, São Paulo: Editora Paulus, 2012.

BOWKER, John (org). O livro de ouro das religiões. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

PAGELS, Elaine. As origens de satanás; tradução Ruy Jungman, 2ªedição, Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.

Papiro citando a Santa Ceia pode ser o mais antigo amuleto do cristianismo

Publicado em:

 http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2014/09/06/papiro-citando-a-santa-ceia-pode-ser-o-mais-antigo-amuleto-do-cristianismo.htm

Do UOL, em São Paulo
  • University of Manchester, John Rylands Research Institute

    Fragmento indica que cristãos adotaram costume egípcio de usar amuletos contra perigos

    Fragmento indica que cristãos adotaram costume egípcio de usar amuletos contra perigos

Um fragmento de papiro com referência à Santa Ceia pode ser o mais antigo amuleto do Cristianismo. O pedaço de papel foi descoberto por uma pesquisadora entre milhares de papiros mantidos na biblioteca da Universidade de Manchester, no Reino Unido.

A responsável pelo achado, Roberta Mazza, diz que ele provavelmente foi usado dobrado em um pingente como amuleto de proteção. “Foi uma descoberta importante e inesperada. Trata-se de um dos primeiros registros de uso de magia no contexto do cristianismo e o primeiro amuleto com referência à Santa Ceia”, diz Mazza.

O fragmento é provavelmente originário de uma cidade do Egito. Seu texto traz uma mistura de trechos dos Salmos e do evangelho de Matheus. “Na época, cristãos começaram a utilizar passagens da Bíblia como amuleto de proteção”, diz Mazza. “Por isso, este achado marca o início de uma importante tendência”, completa.

Análises de carbono indicam que o papiro data de período entre os anos de 574 e 660. O criador provavelmente transcreveu trechos da Bíblia de que lembrava de cabeça, ao invés de copiá-los. Segundo a pesquisa, há erros de ortografia e palavras que não estão na ordem correta, como estão na Bíblia.

A íntegra do texto diz:

“Temei o que governará sobre a terra.

Saibam nações e povos que Cristo é o nosso Deus.

Pois ele falou e tudo veio a ser, ele mandou, e tudo foi criado; ele colocou tudo sob os nossos pés e nos libertou da cobiça de nossos inimigos.

Nosso Deus preparou uma Ceia Sagrada no deserto para o povo e deu o maná da Nova Aliança para comermos, o corpo imortal do Senhor e o sangue de Cristo derramado por nós para a remissão dos pecados”.

A passagem foi originalmente escrita na parte de trás de um recibo usado para pagamento ou cobrança de imposto. Um texto quase ilegível faz referência à coleta de tributos da vila de Tertembuthis, localizada no interior de Hermópolis, cidade da antiguidade onde hoje está localizada El Ashmunein, no Egito.

“Provavelmente, a pessoa que utilizou as costas do papiro para escrever o texto do amuleto era dessa mesma região”, diz Mazza.

A descoberta será apresentada por Roberta Mazza em conferência internacional. Em seu estudo, ela mostra que cristãos adotaram a prática egípcia de usar amuletos para proteger seu portador e afastar perigos. Segundo a pesquisadora, a prática pode ser verificada ainda hoje, no uso de escapulários e orações em santinhos.

A pesquisa foi publicada na revista especializada Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik.it.

“De Saulo a Paulo”, de Dora Incontri

Dora Incontri é paulistana, nascida em 1962. Jornalista, educadora e escritora. Suas áreas de atuação são Educação, Filosofia, Espiritualidade, Artes, Espiritismo. Tem mestrado, doutorado e pós-doutorado em Filosofia da Educação pela USP. É sócia-diretora da Editora Comenius e coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita. Docente de pós-graduação pela Universidade Santa Cecília. Dirige em São Paulo, o Espaço Pampédia, um centro de educação e cultura, uma incubadora de ideias. Tem mais de 30 livros publicados sobre Educação, Filosofia, Espiritualidade; livros didáticos; livros psicografados.

Dora está lançando o livro “De Saulo a Paulo”, e fez uma interessante publicação em seu blog sobre o assunto, que reproduzimos a seguir:

Minha relação com Paulo de Tarso (*)

E eis que no meio da estrada repentina luz se faz, mais luminosa que o sol, quase ofuscando o rapaz. Tremendo de comoção, Saulo tomba do camelo. No céu se rasga um caminho e desce alguém para vê-lo. Voz suave, olhar profundo, rosto belíssimo, santo, pergunta esse Alguém a Saulo: — Por que me persegues tanto? Responde Saulo espantado: — Mas quem sois vós, meu Senhor? — Sou Jesus, a quem persegues, com tanta raiva e rancor! Saulo chora, se arrepende, ajoelhado sobre a estrada. Ante Jesus majestoso. seu orgulho vira nada!

E eis que no meio da estrada
repentina luz se faz,
mais luminosa que o sol,
quase ofuscando o rapaz.
Tremendo de comoção,
Saulo tomba do camelo.
No céu se rasga um caminho
e desce alguém para vê-lo.
Voz suave, olhar profundo,
rosto belíssimo, santo,
pergunta esse Alguém a Saulo:
— Por que me persegues tanto?
Responde Saulo espantado:
— Mas quem sois vós, meu Senhor?
— Sou Jesus, a quem persegues,
com tanta raiva e rancor!

Há exatos 40 anos, quando tinha apenas 11 anos de idade, li pela primeira vezPaulo e Estêvão, romance de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier. Ou melhor, minha mãe leu em voz alta para mim, porque descobriu que eu estava lendo escondido no banheiro. Ela achava que o livro era muito pesado para minha idade e não queria que eu lesse. Mas acabou ela mesma fazendo a leitura, não sei se censurando alguma coisa. Morávamos então em Berlim. E no inverno sombrio daquela cidade, na época ainda com o muro, que tanto nos deprimia, fiquei apaixonada pela figura de Paulo, pela história de sua vida.

Depois dessa primeira vez, li mais que 50 vezes esse livro. E isso não é hipérbole. Parei de contar quando cheguei à 50ª leitura. E passei a estudar vorazmente todas as versões da vida do apóstolo. A que está nos Atos, suas Epístolas, li narrativas católicas, protestantes, ateias e a que mais me encantou foi a escrita na primeira metade do século XX, por um judeu, Sholem Ash, intitulada O Apóstolo. Nos últimos 15 anos, com o intenso envolvimento com a Pedagogia Espírita e questões educacionais, não me dediquei mais a esse tema.

Agora estou lançando o livro de Saulo a Paulo, a história recontada inteiramente em versos para crianças e que faz parte da série Grandes Pessoas. Na verdade, muito antes de imaginar lançar essa série, quando ainda nem tinha fundado a Editora Comenius e minha mãe ainda estava encarnada, escrevi esse texto, constituído de 70 estrofes. Talvez uns 18 ou 19 anos atrás.

Por conta desse lançamento, reli de cabo a rabo Paulo e Estêvão e decidi fazer esse balanço público da minha relação com Paulo de Tarso. Essa releitura me fez muito bem, porque me levou às motivações profundas que enraizaram os ideais dessa minha presente vida e aos sentimentos mais viscerais que ainda nutrem a minha personalidade.

Primeiro, devo dizer, que o romance de Emmanuel resistiu ao tempo, em sua estrutura literária, belissimamente escrito, em sua mensagem que revitaliza o espírito e acende ideais. Apesar, é claro, de hoje minha visão a respeito desse livro ser muito diversa de anos atrás. Dediquei-me ao estudo dos primeiros 300 anos de Cristianismo, com autores como Bart Ehrman, Richard Rubenstein ou Paul Johnson, afora todas as novidades de manuscritos descobertos no século XX, que lançaram novas luzes sobre os Evangelhos. Com esse conhecimento, fica claro que o romance de Emmanuel é um romance. Tem uma validade histórica relativa. Por exemplo, sabemos hoje que os conflitos entre Paulo e Tiago não foram tão amistosos como parecem ter sido nos relatos de Emmanuel, com uma reconciliação final tão fraterna e cristã. Mais: Paulo certamente conservou traços de autoritarismo de sua personalidade depois de sua conversão. E não se tornou aquele modelo de humildade que Emmanuel retrata. Outra coisa que me chamou atenção nessa leitura de agora: na narrativa de Emmanuel, a leitura e a cópia de um manuscrito de Levi ocupam lugar central da história. Todos os apóstolos liam, copiavam etc. Hoje se sabe que eram todos analfabetos. Com exceção do próprio Paulo, que era doutor da Lei e talvez de Mateus (ou Levi), que era cobrador de impostos. A escrita e a leitura não ocupavam essa centralidade entre os primeiros cristãos, mas sim o ensino oral, pois a maioria da população não sabia nem ler nem escrever.

Tudo isso apenas para dizer que os romances mediúnicos (os bons romances que hoje nem existem mais) não têm a intenção de nos dar informações históricas, porque cabe a nós, encarnados, pesquisar a História. A intenção dos Espíritos é de nos edificar com uma mensagem estimulante, uma inspiração positiva – como aliás, fez comigo.

Mas voltemos à figura de Paulo. Passado esse arrebatamento juvenil pelo apóstolo, tive que me defrontar com as numerosas críticas que existem em torno de sua doutrina e atuação. Muitos historiadores do cristianismo, entre eles Charles Guignebert (que li por conselho de Herculano Pires) ou Paul Johnson, consideram que Paulo é o verdadeiro fundador da Igreja, tendo lançado a base dos dogmas que ainda empanam a pureza da mensagem de Jesus. Exemplo disso é a ideia do pecado original, que não aparece nas palavras de Cristo, sempre otimista em relação ao ser humano: “vós sois deuses”, “sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito”.

Outra acusação séria e verdadeira, feita a Paulo, é que se encontram em suas epístolas, traços do machismo que promoveu a exclusão da mulher como participante ativa nas práticas cristãs. E ainda há seu conservadorismo político, manifesto por exemplo na Epístola aos Romanos, que pode ter fundamentado a teoria do “direito divino” na Idade Média, ideia segundo a qual temos de respeitar a autoridade constituída, porque ela foi posta por Deus.

É verdade que Paulo, como ex-doutor da Lei judaica, como filho de seu tempo, numa cultura greco-romana e judaica (as três extremamente patriarcais), inserido num contexto pessoal de culpa (tinha matado Estêvão, promovido vasta e sangrenta perseguição aos cristãos), impregnado dos conceitos bíblicos do pecado, não poderia se furtar a carregar tudo isso para sua interpretação da mensagem de Jesus! Não é possível julgarmos um homem de dois mil anos atrás, com nossos conceitos de hoje. Ele compreendeu e traduziu Jesus, como um ex-doutor da Lei daquele contexto histórico e com aquela história pessoal poderia compreender!

Mas o que pode ainda nos inspirar Paulo, sua luta, sua vida?…Muitas coisas. Tanto que ao reler sua história agora, aos 51 anos de idade, consegui sentir em mim as mesmas emoções motivadoras, que me tocaram aos 11 anos de idade.

Embora carregando para a sua tarefa de difusão do cristianismo nascente, as marcas de sua herança cultural, só Paulo podia fazer o que fez: arrancar a mensagem de Jesus do exclusivismo judaico e espalhá-la aos quatro cantos do Império Romano. Não foi à toa que Jesus o chamou para isso. O que me fascina em Paulo, ainda hoje, é seu espírito desbravador e universalista, fiel até o sacrifício e a morte a uma incumbência recebida. É daquelas almas que quando possuídas de um ideal, quando encarregadas de uma missão, não medem esforços, não se detém diante de nenhum obstáculo, percorrem estradas, atravessam mares, se defrontam com inimigos e vão até o fim. Devoção sem limites, ímpeto sem descanso, coragem sem esmorecimento.

Exatamente dessas virtudes precisava o homem que fosse desentranhar a mensagem de Jesus do seu horizonte apenas judaico, para lançá-la ao mundo e semeá-la na história e fazer com que ainda hoje a tivéssemos em mãos. E isso, apesar de suas licenças históricas, o romance de Emmanuel retrata muito bem.

E exatamente dessas virtudes que precisa qualquer pessoa ainda hoje que queira levar adiante uma causa nobre, que queira participar do bom combate pela mensagem do Reino, qualquer pessoa que tenha recebido alguma incumbência existencial que implique em mexer com mentalidades cristalizadas, com corações adormecidos, para acordar consciências!

Mudanças significativas, desbravamento de novas ideias, semeaduras de paradigmas transformadores não se fazem com pessoas mornas, pacatas e sossegadas no seu canto. É preciso garra e paixão, ímpeto e capacidade de sacrifício para empreendimentos assim. Isso não significa santidade e perfeição, como Paulo não era santo, nem perfeito. Apenas a pessoa certa para a tarefa em vista.

A personalidade de Paulo também me atrai pela sua sinceridade absoluta, com seu ódio à hipocrisia, pela sua incapacidade de fazer compromissos com princípios e ideias (o que para muitos pode parecer agressividade e inflexibilidade).

É fácil entender por que Paulo tanto me encantou. Minha tarefa existencial – que não é maior ou melhor do que outras tarefas – também requer essa coragem, esse espírito desbravador e essa sinceridade de princípios.

Às vezes, isso não agrada a muitos. Mas, espero estar cumprindo com a fidelidade paulinamente teimosa a incumbência recebida. A releitura de Paulo me realimentou, passados 40 anos, os mesmos sentimentos apaixonados de agir pela mensagem do Reino, nesse mundo que ainda é um grande Império Romano. E não posso deixar de mencionar que o meu grande inspirador na infância e adolescência, J. Herculano Pires, assinou durante décadas uma coluna no Diário de São Paulo, com o pseudônimo de Irmão Saulo. Coincidência de inspirações?

Para finalizar, uma consideração a respeito das Epístolas de Paulo, que hoje são consideradas pelos pesquisadores das escrituras como efetivamente os documentos mais antigos que temos do cristianismo primitivo (todos os evangelhos foram escritos depois das epístolas): apesar das heranças judaicas, apesar de algumas ressonâncias da cultura da época, esses textos de Paulo contém pérolas espirituais muito valiosas. Por exemplo, apesar da ideia de pecado original, há frases profundamente otimistas em relação ao ser humano, como “somos herdeiros de Deus e co-herdeiros do Cristo”. E apesar de muitas vezes se acusar Paulo de ser um espírito duro e autoritário, ele escreveu umas das mais belas páginas de todos os tempos sobre o amor:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (Cor. I, 13)

 

(*) http://doraincontri.com/2014/08/29/minha-relacao-com-paulo-de-tarso/

Jesus Histórico – um estudo relativo *

Por Jefferson



Recebemos e-mail do nosso amigo e aluno do Curso Cristianismo e Espiritismo, Adolfo Simon, com a seguinte indagação aqui transcrita:

Caros Douglas e Jefferson.

Desculpem-me por fugir do texto primoroso sobre mitos, mas não sei exatamente onde “conversar” com voces sobre o tema Jesus Histórico, que é realmente muito interessante e o tempo da aula acaba ficando exíguo para satisfazer a ânsia dos alunos em perguntar ou comentar o que foi apreendido a partir dos textos e da aula. Nesse sentido, estou fazendo este post, na esperança de que um de vocês tenha tempo para comentar e corrigir eventuais distorções da minha compreensão a respeito do assunto.

Entendi, a partir do texto do Roberto Pompeu de Toledo, na Veja de 1992, das suas respostas às perguntas que estavam no blog e da entrevista com o professor Gabriele Cornelli, que talvez nunca possamos remontar de maneira completa o “Jesus real” e que o Jesus que emerge das pesquisas históricas – o “Jesus histórico”, a partir da análise não contaminada pelo sectarismo religioso dos evangelhos canônicos, dos manuscritos do Mar Morto e de outras pesquisas arqueológicas, ambientando adequadamente a sua figura à época, local e circunstâncias em que Ele viveu, esclarece muito melhor o que Jesus não pode ter sido, desmontando um pouco do imaginário de cada um, mas também com discordâncias entre os historiadores, demonstrando que as conclusões que conduzem à hipótese de quem era Jesus – o Jesus Histórico, se apoiam ainda muito em achados fragmentados, que levam a inferências em sequência e, como consequência inevitável, conclusões diferentes nos detalhes, como é o caso da educação e das condições socioeconômicas da família de José, do tempo de pregação, do convívio ou não com determinada seita e outros que a minha ignorância não permitiu captar.

Não faz sentido, no momento, comentar a respeito da transformação de Jesus em Cristo e Deus (a terceira das “personalidades de Jesus”, fora o Jesus individual), mas seu exemplo e seu Evangelho, a “Boa Notícia” que nos deixou, moldou o pensamento ocidental a partir dessa transformação, apesar das deformações que a institucionalização causou, a partir do século IV DC. Estou errado nesta conclusão?

O problema que surge é de credibilidade. Será que tudo o que foi comentado dos Evangelhos, com suas falhas históricas, sua autoria contestável e a época real de suas redações comprometem o conteúdo como um todo? Acredito (opinião pessoal) que se separarmos adequadamente o anúncio da figura de Jesus Cristo – a publicidade que permitiu sua penetração no mundo romano, dos ensinamentos morais e do estabelecimento definitivo do conceito de vida no mundo espiritual, o problema se resolve.
Não foi mais ou menos isso que Kardec fez, ao elaborar o Evangelho Segundo o Espiritismo?
Um abraço,
Adolfo Simon

 

Com a sua autorização, reproduzimos aqui a nossa resposta.
 
Oi Adolfo, feliz Páscoa para você e os seus!
 
Obrigado pela postagem e vou tentar responder dentro daquilo que estudei.
 
A pesquisa sobre Jesus histórico é uma pesquisa em andamento. Ainda não está concluída. Assim, temos muitas coisas ainda a serem resolvidas, principalmente quanto a detalhes, pois as linhas gerais estão pacificadas. 
 
O ícone da “terceira busca” – John Dominic Crossan – afirma algo que deve ser motivo de reflexão para nós:
 
“É impossível evitar a desconfiança de que a pesquisa do Jesus histórico é um campo em que se pode fazer teologia e chamá-la de história, ou então fazer autobiografia e chamá-la de biografia, sem correr grandes riscos.” (CROSSAN, 1994, p. 27).
Feita esta observação, sigamos.
 
Existem discordâncias entre pesquisadores sobre o objeto de estudo em questão, mas isso ocorre em relação a vários outros personagens históricos, inclusive personagens muito bem documentados e mais recentes, como Napoleão Bonaparte, Hitler e Getúlio Vargas.
 
No caso de uma figura central de uma das maiores religiões do planeta, com recursos parcos de documentação, não há como afastar o caráter ideológico, consciente ou inconsciente, dessas pesquisas. Ninguém será isento em área nenhuma do conhecimento, muito menos quando o assunto é Jesus Cristo. Um historiador ateu, outro cristão, outro espírita, outro judeu, etc., terão visões de Jesus mais ou menos contaminadas por suas crenças. São seres humanos e a sua ciência será fruto de sua humanidade.
 
Mesmo assim, com todos os avanços metodológicos e técnicos, o cerco em torno de um conhecimento ideológico tem se fechado cada vez mais. Cada tese, cada artigo é muito avaliado e discutido entre pares do meio acadêmico. As reputações de teóricos estão cada vez mais estão em xeque. As discordâncias ficaram menos marcantes e se atêm cada vez mais aos detalhes nem sempre relevantes.
 
Portanto, existem hipóteses muito robustas nas linhas gerais, como Jesus ter nascido em Nazaré, ser de família campesina pobre, de ter vivido em um mundo de mentalidade apocalíptica, etc. Casado ou solteiro, letrado ou analfabeto, mono ou poliglota, isso são detalhes que não tem a importância de afastá-lo do mundo conturbado e profundamente religioso em que vivia.
 
Portanto, muito temos a compreender Jesus de Nazaré através dos estudos de Jesus histórico. Para nós espíritas, o desafio é grande, pois temos médiuns e mentores – a quem reverenciamos – que estão com muitas de suas informações refutadas por esses estudos. Um espírito pode contradizer um pesquisador, sem problemas. Agora, e quando o espírito é desacreditado por um achado arqueológico? Também nisso os estudos sobre Jesus histórico nos prestam um grande favor, pois a nossa premissa é de que a verdadeira fé é aquela que pode enfrentar a razão em todas as épocas . 
 
Quando à credibilidade dos evangelhos, vale à pena ler a referência que faço no texto enviado ontem (Aula 06- Jesus, o início) sobre a “New Quest” com Käsemann, que reproduzo abaixo: 
 
“Sem dúvida, os textos canônicos do Segundo Testamento são querigmáticos, mas não se pode simplesmente negar a existência de um teor histórico nas narrativas, e sim mudar abordagem metodológica. Para Käsemann, a fé pascal faz parte de uma tradição querigmática que também inclui aspectos do Jesus encarnado.” (p. 5)
 
Em outras palavras, temos uma tela branca de fatos históricos pintadas pelas cores fortes do anúncio (kerigma) de Cristo ressuscitado. As cores estão sobre uma tela real, a busca por Jesus histórico é ver a tela apesar da pintura vibrante.
 
A parte moral dos evangelhos é muito importante, mas não devemos subestimar o poder da verdade histórica, ainda que envolta em discussões infindáveis. Lembremos que o antissemitismo e tudo que ele resultou, o ódio aos homossexuais, a categorização inferior da mulher, etc.,  foi resultado da falta da crítica histórica dos textos canônicos.
 
Assim, o aspecto moral continua irresistível e tem atrevessado os séculos, mas o bisturi do método crítico-histórico se faz necessário para estirparmos os tumores que justificam as injustiças em nome de Cristo.
 
Espero ter contribuído.
 
Amigo Douglas, caso queira complementar ou divergir em algo, fique à vontade.
 
Um abraço – Jefferson
 
Como o assunto é de interesse de todos que frequentam o curso, pedimos a autorização do Adolfo para publicar os seus comentários e a resposta respectiva.
 

 

CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Tradução de André Cardoso. Rio de Janeiro : Imago E., 1994.

 

 

* publicado originalmente em 01/04/2013 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

Espíritas têm os melhores indicadores de educação e renda, revela Censo (2010) *

 

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

Dados do Censo Demográfico 2010, divulgados nesta sexta-feira (29), mostram que a população que se autodeclara espírita tem os melhores indicadores de educação e renda em relação às demais representações religiosas no país.

Os espíritas têm a maior proporção de pessoas com nível superior (31,5%) e os menores índices de brasileiros sem instrução (1,8%) e com ensino fundamental incompleto (15%). Apenas 1,4% das pessoas que se declararam adeptas desse grupo religioso não são alfabetizadas.

Espíritas no Brasil:

31,5%têm nível superior

15%têm ensino fundamental incompleto

1,8%não têm instrução

1,4%não são alfabetizados

Quanto às classes de rendimento acima de cinco salários mínimos, os espíritas também se destacam com incidência de 19,7% –a pesquisa considera a distribuição das pessoas de dez anos ou mais por rendimento mensal domiciliar per capita. Os católicos, por sua vez, estão concentrados na faixa até um salário mínimo: 55,8%.

Os evangélicos pentecostais são o grupo com a maior proporção de pessoas nessa classe de rendimento de até um salário mínimo (63,7%), seguidos dos sem religião (59,2%).

Os católicos (6,8%), os sem religião (6,7%) e evangélicos pentecostais (6,2%) também se destacam negativamente com as maiores proporções de pessoas de 15 anos ou mais de idade sem instrução. Em relação ao ensino fundamental incompleto são também esses três grupos de religião que apresentam as maiores proporções (39,8%, 39,2% e 42,3%, respectivamente).

Entre a população católica é proporcionalmente elevada a participação dos idosos, entre os quais a proporção de analfabetos é maior. De acordo com o Censo 2010, os católicos e os sem religião formam os grupos que tiveram os maiores percentuais de pessoas de 15 anos ou mais de idade não alfabetizadas (10,6% e 9,4%, respectivamente).

Outros dados

Os dados do Censo Demográfico 2010 mostram também que a população evangélica no Brasil passou de 15,4% da população brasileira para 22,2%, o que dá um crescimento de 6,8 pontos percentuais nos últimos dez anos, e atualmente representa 42,3 milhões de pessoas –sendo esta a segunda religião com o maior número de adeptos no país.

A pesquisa indica ainda aumento da população espírita, que hoje é de 3,8 milhões, e das pessoas que se declararam sem religião (aproximadamente 15 milhões).

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o aumento no número de evangélicos é proporcional ao crescente declínio da religião católica, que perdeu 9,4% de fiéis em relação ao Censo de 1991.

Ainda assim, o catolicismo é predominante no país: são mais de 123 milhões de pessoas (64,6% da população brasileira; até 2000 eram 73,6%). O Brasil é considerado o maior país do mundo em números de católicos nominais.

Até o início da década de 90, os evangélicos representavam apenas 9% do contingente populacional, dos quais a maioria de origem pentecostal. Com a expansão das igrejas evangélicas pelo país e a veiculação de programas religiosos nas emissoras de televisão, tal índice subiu 44,16%.

Espíritas no Brasil

•             31,5% têm nível superior

•             15% têm ensino fundamental incompleto

•             1,8% não tem instrução

•             1,4% não são alfabetizado

 

 

FONTE: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/06/29/espiritas-tem-os-melhores-indicadores-de-educacao-e-de-renda-aponta-pesquisa-do-ibge.htm

 

* publicado originalmente em 29/06/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

Jesus Histórico em Perguntas e Respostas *

Por Jefferson


O que significa a expressão “Jesus histórico”?

Jesus histórico, que tem a imagem construída com base nos estudos feitos da Palestina do século I. É totalmente hipotético. Personagem construído na visão de como uma pessoa daquela época, influenciada dessa ou daquela forma, vivendo nesse ou naquele cenário, viveria. Não se confunde com o indivíduo Jesus de Nazaré, que se vivesse hoje, teria identidade e CPF, que somente sabemos que foi batizado por João Batista, pregou na Galiléia e foi crucificado em Jerusalém. Também não se confunde com o Cristo, o Jesus da fé, a segunda pessoa da Trindade cristã.

Jesus histórico é o Jesus historicamente possível de se estudar.

Jesus existiu?

Sim, os evangelhos e as cartas paulinas atestam a existência de Jesus de Nazaré e não podem ser desprezados como documentos baseados em fatos reais, ainda que exista uma forte carga teológica neles. Além disso, fontes pagãs posteriores, como Flávio Josefo, Tácito e Plínio, o Moço, atestam a sua existência e do início do movimento cristão.

Quando Jesus nasceu?

Uma coisa é certa: ele não nasceu no dia 25 de dezembro. E a razão é simples. Esta data coincide com o solstício de inverno do Hemisfério Norte, quando uma série de festas pagãs, muito anteriores ao nascimento de Cristo, já aconteciam em homenagem a divindades ligadas ao Sol e a outros astros. Ao que tudo indica, o dia foi adotado pelos católicos primitivos na esperança de cristianizar uma festa pagã.

Além disso, Jesus nasceu antes de Cristo 6 ou 4 anos. A contagem cristã baseou-se nos cálculos do monge Dionísio, o Pequeno, que calculou o nascimento com base na duração dos reinados da Antiguidade, errando por 6 anos.

Jesus nasceu em Belém ou Nazaré?

Ignora-se por que seus pais, Maria e José, que moravam em Nazaré, estariam em Belém no momento do parto. A explicação tradicional, encontrada no evangelho de Lucas, de que teriam retornado à cidade natal de José para um censo, esbarra na falta de registros de alguma grande convocação desse tipo nesses anos. Os romanos, que dominavam a região, faziam censos em seu império para recolher tributos – e a lógica sugere que eles registravam seus contribuintes nos locais em que trabalhavam e residiam.

Mateus opta pela residência de José e Maria em Belém e, após o seu retorno do Egito, foram morar em Nazaré a fim de não serem perseguidos pelos descendentes de Herodes, o Grande.

Ao que tudo indica, Lucas e Mateus teriam escolhido Belém como cidade natal de Jesus para que suas versões da vida de Cristo se alinhassem a uma profecia do Antigo Testamento, segundo a qual o Messias nasceria na Cidade do Rei Judeu, ou seja, a Cidade de Davi, que é Belém.

Nazaré era um vilarejo de trabalhadores rurais numa encosta de serra com, no máximo 1000 habitantes (outros estudiosos acreditam que não havia mais de 400 pessoas por lá). Segundo os arqueólogos, essa é a cidade onde Jesus nasceu. Nazaré é tão obscura que, fora dos evangelhos, não existe menção a ela na literatura da época, o que fez com que muitos autores questionassem a sua existência.

A gravidez extraordinária de Maria é um fato ou um mito?

O que se quer mostrar, evidentemente, é que o nascimento de Jesus ocorre a partir de uma intervenção direta de Deus. É uma idéia que aparece com freqüência no pensamento antigo. Não só heróis mitológicos, mas também grandes personagens históricos têm seu nascimento associado a uma divindade. Os faraós do Egito eram considerados filhos de Amon-Ra, o deus Sol. E a mãe de Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.), estava convencida e convenceu o filho de que ele era descendente de Zeus, o deus supremo da mitologia grega.

Por que os evangelhos quase não falam do pai de Jesus?

Os evangelhos também falam pouco da Maria, mãe de Jesus. Ela aparece quando destaca algo que Jesus protagoniza. O mesmo acontece com José. No início da vida pública de Jesus, José não aparece por não ser importante ou por já estar falecido naquela época.

Quem e quantos foram os Reis Magos?

Se realmente existiram, os Reis Magos não eram reis e provavelmente não seguiram estrela nenhuma. O único registro dessas figuras nos evangelhos canônicos, ou oficiais, está em Mateus, que fala dos magos do Oriente e de uma estrela seguida por eles. Mas a menção não diz quantos eram os visitantes nem se eram, de fato, reis. “Como esses magos trouxeram três presentes, supõe-se que eram três reis”. Convencionou-se chamar os visitantes de Melchior, rei da Pérsia, Gaspar, rei da Índia, e Baltazar, rei da Arábia. Também ficou estabelecido que eles teriam trazido incenso, ouro e mirra como presentes ao recém-nascido.

O que era a estrela de Belém?

Não se sabe ao certo, e existe uma forte desconfiança de que essa história veio como uma contestação ao título dado aos imperadores romanos de filhos de deus. Para os cristãos, havia somente um filho de Deus e este era Jesus Cristo. No início do reinado de Otávio, uma estrela brilhante foi vista nos céus de Roma. Segundo Suetônio, seria um cometa ou uma estrela cadente. Otávio, de forma inteligente, afirmou se tratar de Júlio César, seu tio assassinado no senado romano, que estava sendo conduzido aos céus para se juntar aos deuses. Dessa forma, Otávio Augusto estaria de forma legitima no poder, por ser herdeiro político de um deus. Utilizando dessa imagem, mandou cunhar moedas onde havia uma estrela e a inscrição Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus Divi filius (“Gaio Julio César Otávio Augusto, filho de deus).

Para os que acreditam que a história é verdadeira, existem hipóteses, mas nenhuma que possa se sobrepor as outras. Ela pode ter sido um cometa, uma supernova ou o alinhamento celeste de planetas, ou até mesmo um óvni. Como não se sabe ao certo o ano, mês e dia que Jesus nasceu, tudo fica no terreno das especulações.

Qual o idioma que Jesus falava?

O aramaico era a língua corrente na Palestina do século I e era a única que podemos afirmar, com certeza, que Jesus falava. O hebraico, língua morta na época de Jesus, usada apenas nos escritos sagrados do Judaísmo, e o grego, utilizado eventualmente no comércio daquela região, podem ter sido de seu conhecimento, mas é muito pouco provável que os dominava, uma vez que não existia uma preocupação de formação intelectual de crianças e jovens daquele tempo como existe hoje.

Jesus teve irmãos?

Para garantir o sustento, as famílias precisavam ter um número razoável de filhos que ajudassem no duro trabalho no campo. “É pouco provável que Jesus tenha sido filho único”, diz o historiador Gabriele Cornelli. “Assim como um menino de roça que vive em comunidades pobres no interior, ele deve ter crescido cercado de irmãos.” Mesmo pesquisadores católicos como o padre John P. Meier, autor dos quatro volumes da série Um Judeu Marginal, sobre o Jesus histórico, dizem que é praticamente insustentável o argumento de que, no Novo Testamento, “irmão” poderia significar “primo”. “A palavra grega adelphos, usada para designar irmão, deve ter sido usada no sentido literal”, diz Meier.

Os irmãos existiram e eram seis – quatro homens e duas mulheres –, identificados no Evangelho de Mateus (Mt 13, 55-56). No evangelho apócrifo de José fala-se que o pai de Jesus era viúvo quando se casou com Maria e que teria filhos do primeiro casamento. O rechaço da igreja à possibilidade da existência de irmãos de Jesus se explica. Se a teoria fosse verdadeira, iria contra um dos dogmas marianos segundo o qual a mãe de Jesus teria dado à luz virgem e assim permanecido até a assunção de seu corpo aos céus.

Jesus estudou?

Para Wagner Figueiredo, colunista do site Mistérios Antigos e autor de “Trilogia dos Guardiões – O Êxodo”, Jesus teve formação intelectual mais rica do que se supõe a partir dos evangelhos. “Era comum, na Antiguidade, que os mais ricos custeassem os estudos dos prodígios apresentados ao conselho do templo”, diz. “Podemos chamá-lo de um caipira antenado, que tinha sensibilidade suficiente tanto para dialogar com o povo quanto com a elite intelectual de sua época”, resume Paulo Augusto Nogueira, professor de teologia da Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo.

O pesquisador John Dominic Crossan acredita que Jesus, como 95% dos seus conterrâneos do século I era analfabeto. “Somente uma ínfima parcela da população que trabalhava para os governantes sabia ler e escrever”, diz Richard Horsley. “Não acredito que ele fizesse parte dessa parcela.” Então, como explicar o trecho do evangelho que o retrata lendo numa sinagoga? “A palavra ler no evangelho pode significar recitar”, diz Horsley. “O fato de Jesus não saber ler nem escrever não significa que ele não conhecesse os textos e as tradições judaicas.”

Qual profissão seguiu?

Nos evangelhos, José é apresentado como “tekton”, uma espécie de artesão que faria as vezes de um mestre de obras. Ele teria, portanto, as habilidades de um carpinteiro, mas não apenas. Jesus e José seriam uma espécie de faz-tudo. Faziam a fundação de uma casa, erguiam paredes como pedreiros e construíam portas como carpinteiros. É sabido também que tinham ovelhas e uma pequena plantação. Portanto, teriam algumas noções de pastoreio e agricultura.

Como era Jesus fisicamente?

A imagem de Cristo que se consagrou foi a de um tipo bem europeu: alto, branco, de olhos azuis, cabelos longos ondulados e barba. Mas são grandes as chances de que essa representação esteja errada. “É praticamente certo que ele não foi um homem alto, a julgar pelos objetos, como camas e portas, deixados por seus contemporâneos”, revela a socióloga e biblista Ana Flora Anderson.

A julgar pelos registros históricos que contam um pouco da vida na região em que Jesus nasceu e foi criado, o Messias deve ter sido um homem baixo, de pele morena e cabelos escuros e encaracolados (vide a reconstituição feita pelo médico especialista em reconstrução facial inglês Richard Neave, da Universidade de Manchester). Por ser um trabalhador braçal, tinha uma estrutura física bem desenvolvida.

Jesus foi tentado pelo demônio no deserto?

Que Jesus foi tentado no deserto, não há dúvida. O episódio é relatado por três evangelistas, Mateus, Marcos e Lucas, e citado pelo quarto, João. Líderes religiosos como Buda e Maomé também passaram por experiências de jejum, oração e tentação. O que se questiona é a natureza do demônio que se apresenta a ele. Seria ele o demônio feito homem ou apenas uma síntese simbólica das tentações às quais todos os seres humanos estão sujeitos? Para o padre Vicente André de Oliveira, mariólogo da Academia Marial de Tietê, no interior de São Paulo, a tentação do demônio é simbólica. “O deserto e o demônio são maneiras de ilustrar o encontro de Jesus com suas limitações como homem”, diz Oliveira.

Na Gênesis, de Allan Kardec, temos «Jesus não foi arrebatado. Ele apenas quis fazer que os homens compreendessem que a Humanidade se acha sujeita a falir e que deve estar sempre em guarda contra as más inspirações a que, pela sua natureza fraca, é

impelida a ceder. A tentação de Jesus é, pois, uma figura e fora preciso ser cego para tomá-la ao pé da letra. (Cap. XV Item 53.)

Jesus era um judeu milagreiro?

Judeus taumaturgos eram figuras muito comuns no tempo de Jesus: homens que circulavam pela Galiléia fazendo milagres como uma espécie de mágico. “Jesus pedia segredo dos milagres que fazia, não cobrava por eles e evitou fazer curas diante de quem tinha meios de recompensá-lo”, explica Rodrigo Pereira da Silva, professor de teologia do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp-EC). Segundo ele, os taumaturgos jamais agiriam dessa maneira. “Eles eram profissionais da cura. Jesus, não.” Outra diferença importante entre Jesus e os taumaturgos era que o Messias apresentava Deus de maneira acessível aos fiéis. Diferentemente dos taumaturgos, que valorizavam uma espécie de canal exclusivo que teriam com o divino para operar seus milagres, Jesus tentava ensinar as pessoas a cultivar o contato com Deus. E, assim, receber suas graças sem intermediários.

Jesus manteve um relacionamento amoroso com Maria Madalena?

Segundo o evangelho apócrifo de Filipe, Jesus e Maria Madalena teriam uma relação amorosa. Nele estaria escrito que Jesus beijava Maria Madalena na boca – afirmação contestada por uma corrente de tradutores. Ela, por sua vez, o compreendia melhor do que qualquer discípulo, o que gerava ciúmes entre os apóstolos. Mas trata-se de obra tardia escrita em uma época de conflitos entre a disputa de poder entre os que somente aceitavam a liderança masculina na igreja daqueles grupos que defendiam a liberdade de culto, principalmente pelos carismáticos. Não existe nenhuma indicação de valor que possa embasar um relacionamento amoroso ou carnal entre Jesus e Maria de Magdala.

A própria Maria Madalena, aliás, já foi erroneamente confundida com a “pecadora”, mencionada por Lucas, que teria lavado, enxugado com os cabelos, beijado e perfumado os pés de Jesus na casa de um fariseu. Não há evidência de que sejam a mesma pessoa. O que se diz de Maria Madalena em diversas passagens é que dela Jesus expulsou “sete demônios”, que estava presente entre as mulheres que acompanharam Jesus ao monte Calvário, onde foi executado, e que Jesus lhe apareceu e falou depois da ressurreição.

O que Jesus pregava?

Jesus anunciava uma nova ordem social, o Reino de Deus. Nessa nova ordem, os valores morais estariam acima das questões sociais e econômicas. Um reino de amor e justiça, onde os bons serão recompensados e os maus punidos.

A sua pregação é feita por analogias, por linguagem figurada conhecida como parábola, e por máximas morais, como as bem-aventuranças do chamado sermão do monte.

Fez muito sucesso por alcançar pessoas exploradas, abatidas, endividadas e muitas vezes doentes. Não poupava críticas àqueles que exploravam os irmãos de raça em nome do lucro, muitas vezes utilizando a religião como pretexto.

Quanto tempo durou a vida pública de Jesus?

Baseado no Evangelho de João, que faz menção a três Páscoas celebradas por Jesus e seus discípulos, os estudiosos entendem que a sua vida pública durou três anos. Outros autores acreditam que durou algo entre um ano, um ano e meio. Não mais do que isso.

Por que Jesus foi condenado?

Segundo o que se conclui dos evangelhos, Jesus provocou a elite judaica da Palestina, o que gerou temor da classe dirigente de Jerusalém, que tinham muito a perder em termos de poder e fortuna com uma revolução popular.

Jesus provocou ao entrar como o mashiak (messias, ungido) judeu anunciado pelos profetas e, principalmente, ao atacar o sistema de exploração econômica instalado no templo de Jerusalém.

Os romanos executariam Jesus sem pestanejar, como fizeram com centenas de outros rebeldes da Palestina. Ao entregarem Jesus para Pôncio Pilatos, o destino de Jesus estava selado.

Com que idade Jesus morreu?

O ano certo, portanto, dificilmente será conhecido, mas sabe-se, com uma margem mínima de dúvida, que foi entre os anos 29 d.C. e 37 d.C., época em que Pilatos foi prefeito da Judéia. Assumindo que Jesus nasceu entre 6 d.C. e 4 d.C., ele teria morrido com a idade mínima de 33 e máxima de 43 anos.

Como era a crucificação?

No mundo greco-romano, não havia desonra maior do que a morte sem sepultura. Um corpo exposto ao tempo, aos olhares de estranhos, às feras e às aves era um insulto público, e significava também a destruição da identidade – um fim sem epitáfio e portanto sem posteridade, uma preocupação suprema da Antiguidade. Por isso, para acrescentar injúria à tortura, os romanos crucificavam os escravos desobedientes e os presos políticos. Mesmo após o condenado expirar, os soldados continuavam a montar guarda: baixar um morto da cruz era um privilégio que exigia súplica, influência ou propina, ou todas as três coisas. Não é de estranhar que, dentre os milhares de pessoas que se calcula terem sido crucificadas nos arredores de Jerusalém durante o domínio romano, um único esqueleto tenha sido encontrado – o de um judeu de seus 20 anos de idade chamado Yehohanan, filho de Hagkol, como consta da inscrição em seu ossuário.

A análise da ossada de Yehohanan, localizada em 1968, revela que suas mãos não foram pregadas à cruz: provavelmente, seus braços foram amarrados à trave, enquanto seus pés foram dispostos lateralmente à viga e atravessados por trás, na altura do calcanhar, por um pino de ferro. Como o pino entortou, não foi possível despregar o pé direito de Yehohanan, e sua família teve de enterrá-lo com um pedaço da cruz preso ao osso. Na suposição de o jovem judeu preservado no ossuário servir de modelo para a morte de Jesus Cristo – e ele é o único de que se dispõe –, ele levanta duas questões relevantes. A primeira é que é, sim, possível que Jesus tenha ganho uma sepultura, apesar de não ser esse o costume. A outra é que, se as mãos e os pés de Jesus não foram perfurados por cravos, as chagas com que ele é descrito nos Evangelhos e habitualmente representado não correspondem aos seus ferimentos reais. Essas são meras suposições, claro, e é quase certo que nunca será possível prová-las ou desprová-las.

Jesus ressuscitou?

Esta é uma questão de fé, e não de História, pois esta não tem como provar se Jesus ressuscitou de carne e osso, se ressuscitou com um corpo celeste, na terminologia do apóstolo Paulo de Tarso, se apareceu aos seus seguidores com um ser “sobrenatural” ou se foi tirado da cruz e abandonado pelos romanos numa cova rasa tapada com cal e areia, como afirma um dos maiores especialistas do tema John Dominic Crossan. Por ser um artigo de fé, está fora análise acadêmica.

Fazendo uma análise dos escritos mais antigos do Novo Testamento, parece que existe uma crença de Jesus aparecido, em Paulo; um Jesus desaparecido no túmulo, em Marcos; um Jesus ressuscitado diferente de quando vivo, em Mateus e Lucas, e um Jesus que come peixes no Evangelho de João, o mais tardio.

O fato é que a crença na ressurreição foi a grande mensagem do Cristianismo Primitivo que, 3 séculos após o nascimento de Pregador da Galiléia, conquistou o Império dos Césares.

Quem escreveu os evangelhos? E quando?

Não sabemos. Antes do 2º século essas narrativas não ostentavam os nomes de seus autores. A autoria de cada livro foi dada por tradição e de forma tardia. Da mesma forma, existe uma quase unanimidade entre os pesquisadores de que os evangelhos não começaram a serem escritos antes do ano 70, após a destruição de Jerusalém pelos romanos. Os evangelhos surgiram como uma necessidade de preservar a memória da primeira geração de cristãos e de apaziguar diversas crises que essas primeiras comunidades cristãs estavam vivenciando. Provavelmente cada evangelho teve uma redação primitiva que foi sofrendo alterações até a sua redação final.

Os textos seguem o gênero literário conhecido por midrash. Basicamente, o midrash é um forma de contar a história da vida de alguém usando como pano de fundo a biografia de outras personalidades históricas. Mateus e Lucas colocam Jesus em Belém, por exemplo, para associá-lo ao rei Davi do Antigo Testamento – que, segundo a tradição, teria nascido lá.

 

Fontes:

– A busca pelo Jesus da História, artigo de Isabela Boscov, Ed. Abril, Revista Veja, Edição 1884, 15/dez/04.

– Esse Homem Chamado Jesus, artigo de José Tadeu Arantes, Ed. Abril, Revista Superinteressante, Edição 4, jan/88.

– A Face Humana de Jesus, artigo de João Loes, Ed. Três, Revista Isto É, Edição 2094, 23/dez/09.

– As Faces de Jesus, artigo de Isabela Boscov, Ed. Abril,Revista Veja, Edição 1783, 25/dez/02.

– Jesus da História, artigo de José Pompeu de Toledo, Ed. Abril, Revista Veja, Edição 1257 . 23/12/92.

– Quem foi Jesus?, artigo de Rodrigo Cavalcante, Ed. Abril, Revista Superinteressante, Edição 183, dez/2002.

– A Verdadeira História do Natal, artigo de Thiago Minami e Alexandre Versignassi, Editora Abril, Revista Superinteressante, Edição 233, dez/2006.

[1] Os textos foram, em sua maior parte, retirados das revistas citadas nas fontes desse artigo, sendo alguns textuais. Não existe a preocupação com os rigores acadêmicos, tratando-se de simples “copia e cola” de diversas reportagens sobre Jesus Histórico, amplamente divulgadas pela imprensa pátria. Em alguns casos, enriquecemos a resposta com o conhecimento adquirido em nossos estudos, procurando evitar abordagens com viés teológico por parte de determinados autores. Os textos, não obstante não pertencerem aos ciclos acadêmicos, estão em concordância com o que pesquisadores renomados, como J. Dominic Crossan, J. P. Meier, Barth Ehrman, Geza Vermes e outros, tem tratado o tema.

 

* publicado originalmente em 02/04/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

ICONOGRAFIA CRISTÃ – A EVOLUÇÃO DAS IMAGENS *

Por Jefferson

Cristo Pantocrator – Monastério da Síria

O presente artigo é a transcrição do trabalho apresentado pelos alunos Jefferson R. Bellomo e Myrtes C. Lobo Vianna para a disciplina “Iconografia Paleocristã”, ministrada pela professora Vera Pugliese, matéria do curso de pós-graduação latu sensu “Cristianismo Antigo”, realizado pela Universidade de Brasília (2011/2012). O trabalho recebeu nota máxima.

Introdução

A proposta deste trabalho é apresentar uma análise comparativa de duas obras paleocristãs  no que diz respeito a aspectos formais e de conteúdo com duas obras de iconografia cristã posterior ao Concílio de Éfeso.

Abriremos os trabalhos com um breve apontamento sobre o Cristianismo e as Imagens onde logo no início do cristianismo, como atestam as pinturas feitas a partir do segundo século da Era Comum, nas catacumbas romanas, a simbologia trazida do paganismo é apropriada pelos seguidores de Cristo, fazendo com que determinados elementos fossem ressignificados dentro do novo movimento e também propício  para o aparecimento dessa manifestação artística – a iconografia.

Em seguida trataremos do Comparativo de Imagens onde priorizamos a figura da Virgem Santíssima que pelo primeiro concílio de Éfeso é considerada a Mãe de Deus e não Mãe de Cristo como queria a seita herética conhecida como nestorianismo.

Desenvolvimento

I – Um Breve Apontamento sobre o Cristianismo e as Imagens

O livro do Êxodo, um dos mais importantes do Antigo Testamento, traz a proibição dada por Deus aos hebreus – posteriormente, considerada válida também aos cristãos – para que estes não fizessem imagens que servissem de objeto de adoração:

“Então Deus pronunciou todas estas palavras: Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de minha face. Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto.” (Ex[1] 20, 1-4)

Provavelmente, o mandamento citado não deve ter sido difícil de ser respeitado pelos primeiros seguidores de Jesus, visto que eles estavam inseridos no judaísmo e não pretendiam formar nenhum tipo de religião diferente, mas seguir os preceitos herdados de seus antepassados, confiantes nas promessas feitas por Yahweh (nome hebraico de Deus) a Abraão.

Contudo, conforme o denominado Caminho (At[2] 9,2; 18, 25-26) foi tomando às cidades da Ásia Menor e se transformando em Cristianismo (At 11, 26), recebendo uma influência greco-romana cada vez mais intensa em suas comunidades, muito natural que a cultura trazida por esses novos cristãos tingisse ou modificasse antigas proibições judaicas, entre elas, a proibição das representações da divindade.

Logo no início do cristianismo, como atestam as pinturas feitas a partir do segundo século da Era Comum, nas catacumbas romanas, a simbologia trazida do paganismo é apropriada pelos seguidores de Cristo, fazendo com que determinados elementos fossem ressignificados dentro do novo movimento. A própria marginalidade em que foi colocada essa nova seita colaborou para que a simbologia simples e rudimentar (falta de rigor anatômico, pouco naturalismo; pobreza na variação cromática, etc.) fosse propícia para o aparecimento dessa manifestação artística.

Símbolos inicialmente pertencentes à mitologia pagã, como o peixe, a âncora, o alfa e o ômega, a videira e a pomba foram tomados e modificados pelos cristãos. IXOYC (Ichtus – peixe em grego) serviu de anagrama para a expressão “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador” (Gr[3]: Iesus Christós Theóu Uiós Soteér), era relacionado ao batismo, por ter a água como seu elemento natural, e aludia ao milagre da multiplicação dos pães e à pesca milagrosa com Pedro e André (Mc[4] 6, 34-44). A âncora significava a esperança na Salvação, a primeira e última letra do alfabeto − alfa e ômega − grego representavam o monograma de Cristo, e assim por diante. Orfeu pastoreando os animais converteu-se na imagem do Cristo Bom Pastor que salva as almas perdidas, simbolizada pela ovelha em seus ombros.

Conforme o cristianismo se popularizava e se institucionaliza, suas manifestações artísticas são aprimoradas. Representações cada vez parecidas com as imagens de Apolo para Jesus e de Diana para a sua mãe são objeto de prostração e culto, o que rendeu acusações graves de idolatria por parte daqueles que enxergavam na doutrina cristã a continuidade, e não ruptura, das tábuas de Moisés.

Não obstante, graças à doutrina da encarnação, que apregoa que Deus se fez homem em Jesus Cristo, a representação e a adoração das imagens no ambiente cristão foram recebidas como um desdobramento natural da fé em Jesus, face visível de Deus. Visto que Deus agora tinha um rosto, que havia dado a Se conhecer. A adoração da imagem de Cristo era o reconhecimento da manifestação da divindade no mundo material.

“Não venero a matéria, venero Quem fez a matéria e Quem, por mim, se tornou matéria e aceitou habitar na matéria para através dela realizar a minha salvação, e não cessarei de reverenciar a matéria através da qual se faz a minha salvação”. São João Damasceno (675-749) em “Apologia contra os que atacam às imagens divinas” (Cit. Woods Jr, p. 112).

Posteriormente, após o auge da crise iconoclasta, o segundo concílio de Nicéia (787 E.C.) decidiu que Cristo é passível de adoração e a Virgem Santíssima e os santos são passíveis de veneração. Com isso, alarga-se a estrada da produção e adoração religiosa de imagens e relíquias que irão culminar, no Ocidente, com a Reforma Protestante do século XVI.

II – Comparativos de Imagens – A Virgem Santíssima 

Segundo a Wikipedia, “A Arte paleocristã ou Arte cristã primitiva é a arte, arquitetura, pintura e escultura produzida por cristãos ou sob o patrocínio cristão desde o início do século II até o final do século V. Não há arte cristã sobrevivente no século I. Após aproximadamente o final do século V a arte cristã mostra o início do estilo artístico bizantino”.

Imagem 01 : A Virgem Maria Amamentando o Menino Jesus

Século II ou III, Catacumba de Priscila, Roma

Em Roma, na catacumba de Priscila, encontra-se uma pintura rústica representando a Virgem Maria amamentando o Menino Jesus no colo, imagem do século II. À sua frente encontra-se o que se deduz ser do profeta Balaão que aponta para uma estrela pintada mais no alto da cabeça da mulher, representado por um circulo vermelho. A criança e a mãe se olham enquanto ela amamenta o menino nu que está apoiado em seus braços. Não há nada que ateste santidade na mãe ou divindade na criança. A pintura é “tosca”, não apresenta variedade cromática significativa, parecendo explorar apenas as nuances do ocre com o fundo branco da parede. Não se permite tirar maiores detalhes da pintura por que esta se encontra muito castigada pelo tempo e pela falta de cuidados, além do que, não se trata de uma obra com pretensões artísticas e simbólicas mais refinadas, mas simplesmente uma reprodução de uma narrativa do evangelho feita provavelmente por uma pessoa, um fiel cristão, sem instrumentos adequados e dotes artísticos. É apenas uma transposição pura e simples do texto de Mateus (Mt[1] 2, 9-11), uma decoração pictórica feita por um fiel provavelmente em homenagem a algum ente querido já morto.

Não são muitos os exemplos de arte paleocristã referentes a Nossa Senhora que se pode apresentar. Porem, mais um afresco pintado em uma catacumba Romana datado no século IV chama atenção por sua imagem um tanto quanto “assustadora”, provando que esta arte não se referia propriamente a um estilo, mas a todas as formas artísticas produzidas naquela época e por cristãos.  

Imagem 02: A Virgem Maria e o Menino Jesus

Século IV, Catacumba de Roma.

  A leitura da imagem seria apenas a de uma mulher com os braços erguidos e com um menino a sua frente ambos inseridos abaixo de um arco; se não fosse o detalhe à esquerda conhecido por “monograma grego de Cristo”, assim sendo, deduz-se que se trata de uma pintura cristã. Acredita-se tratar da Virgem Maria com um maphorion[1] ou véu fino e discreto, porem com os cabelos à mostra o que fugia à tradição judia e uma túnica trabalhada, as mãos erguidas estão em oração. Por hierarquia deixa em primeiro plano o Menino Jesus. Aqui nem a Virgem nem o Menino possuem ainda o halo ou auréola, confirmando suas santidades.

Todavia, não se pode deixar de perceber a evolução das representações da Virgem Maria com o Menino Jesus no colo foram se sofisticando na mesma proporção em que o cristianismo deixava de ser um movimento religioso e social de excluídos para se tornar a religião oficial do Império Romano.

Exemplo disso é a representação da Virgem como Odiguítria (do grego, pode ser traduzida como “Aquela que mostra o caminho”).

Imagem 03: Ícone da Odigítria – sec. XIV –

Monastério de Balamand, Líbano.

O artista representa Nossa Senhora em posição frontal, com ligeira inclinação da cabeça, com o menino Jesus sentado no seu antebraço com em um trono, e com a outra mão parece apresentar o seu filho. Ela veste um manto púrpura, cor associada ao poder imperial, demonstrando a sua condição deTheóutokos, ou seja, que detém o poder divino por ser Mãe de Deus. A sua cabeça está coberta de forma que ficam ocultos por completo os seus cabelos, representando a mulher piedosa (1ª Cor[1] 11, 5-6). Da manga do manto surgem as mãos, com dedos compridos e finos, pois simulam ser os cabos condutores da energia espiritual. A figura da Virgem tem sobre si, apresentada pelos anjos, as letras MP OY, a abreviatura grega de “Mãe de Deus”, e próximo de seu ombro direito  a palavra  Odiguítria, “Aquela que mostra o caminho”. Os dois anjos estão com as mãos cobertas por seus mantos em sinal de reverência e adoração.

O Cristo Menino, com uma das mãos faz o gesto da benção “à grega” e na outra mão ele segura o papiro enrolado. Jesus não é mais uma lactente, mas um jovem imberbe quase adulto, e usando as mesmas roupas que um adulto. O manto, geralmente amplo, deixa descoberto o pescoço, cobre os ombros e envolve o corpo inteiro em pregas amplas, deixando aparecer os pés com sandálias. A cor do manto é de um tom que faz referência a argila, o “barro” do qual somos criados e no qual Deus se fez carne simbolizando a matéria da qual o homem foi feito, mas respeitando o seu aspecto divino na sua auréola dourada com as iniciais gregas de Christos e, também, com as letras gregas оωн, referindo-se às palavras “Aquele que é”, (Ap[1] 1:8). A túnica por baixo do manto é branca, cor da unidade com Deus e da pureza.

No século V edificou-se a primeira basílica dedicada a Nossa Senhora e em seu interior pode-se apreciar um mosaico datado do final do século XIII, onde a Virgem é coroada por seu Filho.  

Imagem 04 : A Coroação da  Virgem

Século XIII, Basílica di Santa Maria Maggiore, Roma.

Aqui o artista apresenta um subtipo da Virgem Orante com a cabeça levemente inclinada para baixo e um semblante sereno ela aparece ladeada e sentada no mesmo Trono que Jesus Cristo aqui a Virgem está voltada para seu Filho com as mãos erguidas em sua direção colocando-o novamente em primeiro plano. Possui um halo liso e recebe uma coroa acima de seu véu, com os cabelos tapados assim como os seus pés que descansam em uma almofada similar a de Jesus.

Jesus no Trono, por sua vez pode ser considerado como um subtipo do Pantocrator. É representado como Juiz e Rei dos Reis que coroa e abençoa a Mãe. Possui como símbolo de sua santidade e da radiação da luz de Deus o halo com a cruz; seu manto externo passa sobre o ombro esquerdo e desce pelo corpo simbolizando a natureza divina; a Túnica interna longa  desce até os calcanhares, simbolizando a natureza humana; uma faixa vertical desce do ombro direito como símbolo da aristocracia. Com a mão direita segura um livro e seus pés estão calçados por sandálias.

Fechando a cena, um grande círculo envolve os dois, que são observados por dezoito anjos de asas coloridas e distribuídos abaixo simetricamente.

Os afrescos refletem claramente o cânone exarado pelo primeiro concílio de Éfeso (431 E.C.) de que Maria de Nazaré é a Mãe de Deus (Gr.: Theóutokos) e não Mãe de Cristo (Gr.:Christotokos), como queria a seita herética conhecida como nestorianismo. E, nessa condição, a cristandade entende que é perfeitamente possível que ela nos guie para a salvação. Ela é a ponte para a redenção dos pecadores, pois por ela veio àquele que, sendo Deus, se fez homem para a redenção dos pecados da humanidade.

Considerações Finais

Portanto, a iconografia cristã de uma maneira geral, conforme vimos nos exemplos: A Virgem Maria Amamentando o Menino Jesus (século II ou III, Catacumba de Priscila, Roma), A Virgem Maria e o Menino Jesus (século IV, Catacumba de Roma), A Coroação da  Virgem (século XIII, Basílica di Santa Maria Maggiore, Roma),e o Ícone da Odigítria (século XIV, Monastério de Balamand, Líbano), não só é uma forma de representação de fé, como também é uma declaração não escrita dos dogmas que foram se desenvolvendo juntamente com o Cristianismo.

Mesmo com o cristianismo não tendo se consolidado ainda entre o final do século II e início do século III o fundamento básico do pensamento sobre a Virgem sempre foi direcionado para “aquela que deu à luz a Deus” apresentado tanto na iconografia paleocristã como na iconografia bizantina.

Referências Bibliográficas 

BACHET, Jérôme – A Civilização Feudal: do ano 1000 à Colonização da América – trad. Marcelo Rede, São Paulo : Globo, 2006.

BRANDÃO, Antônio Jackson de Souza – A Imagem Nas Imagens: Leituras Iconológicas – Embú-Guaçu : Revista Lumen Et Virtus, Vol. I Nº 2 Maio/2010

COSTA, Mariana Jorge Nobre – Panofsky: Iconologia – FBAUL, 2006.

DUARTE, Adélio Damasceno. Ícones FUMARC, Belo Horizonte, 2003

EUSÉBIO, Maria de Fátima – A apropriação cristã da iconografia greco-latina: o tema do Bom Pastor – Texto apresentado nas XV Jornadas de Formação de Professores, de Homenagem ao Prof. Doutor Manuel de Oliveira Pulquério, Faculdade de Letras da UCP, 29 e 30 de Abril de 2004.

GHARIB, G. “Os Ícones de Cristo” Ed. Paulus, São Paulo, 1997, História Geral da Arte, Pintura I, Madri : Ediciones del Prado, 1996.

WOODS JR., Thomas E.  –  Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental  –  trad. de Élcio Carilho, São Paulo : Quadrante, 2008.

http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/iconografia/icones_e_pinturas.html www.pt.wikipedia.org

 

[1] Livro do Êxodo [2] Atos dos Apóstolos [3] Transliteração do grego. [4] Evangelho Segundo Marcos [1] Evangelho de Mateus [1] Veste externa das mulheres casadas. [1] 1ª Epístola de Paulo aos Coríntios. [1] Apocalipse

* publicado originalmente em 05/04/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

O Evangelho do Dinheiro *

Fonte: http://cidadeantenada.com.br/novo/index.php?option=com_k2&view=item&id=894:fome-de-poder-x-pol%C3%ADtica-click-e-leia-mais

 

por Jefferson

Qualquer forma de religião deve ser respeitada, faz parte do direito inalienável que tem todo o ser humano de escolher no que quer acreditar e o que lhe traz conforto e esperança.

Contudo, a pretexto de respeito religioso, não se pode deixar de criticar e denunciar aqueles que usam a religião como meio de enriquecimento pessoal as custas da fé ou do desespero dos seus irmãos.

“Não se pode servir a Deus e Mamon (deus do dinheiro)”, disse Jesus (Lc 16,13). O dom vindo do alto deve ser dado a todos, e não somente aos que têm condições de pagar, é a advertência que o Mestre nos faz na máxima “Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido.”(Mt 10,8). A primeira comunidade cristã que se tem notícia, instalada em Jerusalém após a crucificação/ressurreição de Jesus, tinha tudo em comum e vivia do trabalho dignificante dos seus membros e do Evangelho. No dizer de Lucas, Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.” (At 2, 44-45)

O dízimo existe para sustentar a Igreja de tal forma que ela não precise depender de favores de ricos e de políticos, nem precise comerciar as coisas sagradas como mercadoria barata. Para que os sacerdotes hebreus pudessem se dedicar com exclusivade aos ofícios religiosos, foi criado o dízimo (Nm 18,21-32), que também servia para sustentar os pobres, os órfãos e as viúvas (Dt 14,22-29; Tb 1,7s). Foi a ambição dos saduceus do templo de Jerusalém que despertaram a indignação de Jesus na cena da derrubada de mesas dos cambistas (Mt 21, 12-13).  A contribuição religiosa não tem por finalidade o enriquecimento pessoal daqueles que deveriam cuidar dos filhos do Calvário, pessoas em condição frágil, que deveriam ser protegidas e não exploradas com a ambição dos falsos pastores.

Ganância e Evangelho não combinam. O madeiro da salvação é a cruz, não o iate.

Vejamos a matéria abaixo, que é bem explicativa e que cada um tire a sua conclusão. 

Forbes lista os seis líderes milionários evangélicos no Brasil

Do UOL, em São Paulo

18/01/2013 – 13h20 

“Religião sempre foi um negócio lucrativo.” Assim começa uma reportagem da revista Forbes sobre os milionários bispos fundadores das maiores igrejas evangélicas do Brasil – Edir Macedo, Silas Malafaia, Valdemiro Santiago, R. R. Soares, entre outros.

A revista destaca o crescimento dos evangélicos – de 15,4% para 22,2% da população brasileira na última década -, em detrimento dos católicos. Hoje, os católicos romanos somam 64,6% da população, ou 123 milhões de brasileiros. Os evangélicos, por sua vez, já somam 42 milhões, em uma população total de 191 milhões de pessoas.

Para a Forbes, um dos motivos do crescimento de religiões evangélicas se dá graças à Teologia da Prosperidade, segundo a qual o progresso material é resultado dos favores de Deus. Enquanto o Catolicismo ainda prega um olhar conservador sobre o além-vida, os evangélicos – sobretudo os neopentecostais – são ensinados a ter prosperidade nesta vida.

A fórmula parece estar funcionando. De acordo com a revista, os evangélicos formam uma parte da nova classe média brasileira, conhecida como Classe C. Enquanto isso, os mais ricos e os mais pobres permanecem católicos.

Os evangélicos não só usufruem de seus bens, como doam uma parte de sua renda à igreja – quantia conhecida como “dízimo”. Tal ato faz com que certas igrejas sejam negócios altamente lucrativos, e seus líderes, milionários. É a chamada “indústria da fé”.

Entre os exemplos de líderes bem-sucedidos, a Forbes aponta o bispo Edir Macedo, fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Com templos até nos Estados Unidos, o bispo Macedo é o pastor mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em quase R$ 2 bilhões. Ele é frequentemente envolvido em escândalos, entre eles o de desviar fundos destinados à caridade. Mas nem estas denúncias fizeram os fiéis desistirem. Macedo tem 10 milhões de livros vendidos, alguns deles extremamente críticos à Igreja Católica e a algumas religiões africanas. Seu maior movimento aconteceu na década de 1980, quando adquiriu a Rede Record, a segunda maior emissora do Brasil. Além disso, é dono do jornal Folha Universal, que tem uma circulação de 2,5 milhões de exemplares, e da gravadora Record News.

Seguindo os passos de Macedo, Valdemiro Santiafo é ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. Após se desentender com o chefe, ele fundou sua própria igreja –a Igreja Mundial do Poder de Deus, que tem 900 mil seguidores e mais de 4.000 templos, muitos deles adornados com imagens dele. Sua fortuna é estimada em R$ 400 milhões.

Entre outros pastores citados pela Forbes, estão Silas Malafaia, R. R. Soares, Estevan Hernandes Filhos e a bispa Sônia.

Muitos pastores brasileiros conseguiram passaportes diplomáticos nos últimos anos. Alguns, especialmente os mais ricos, são cortejados por políticos em época de eleições. Para finalizar, igrejas são isentas de impostos.

Como diz a Bíblia, a fé move montanhas. E dinheiro, também.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/01/18/forbes-lista-os-seis-lideres-milionarios-evangelicos-no-brasil.htm (visto em 18/01/2013)

* publicado originalmente em 18/01/2013 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

O CONSOLADOR E O INSENSÍVEL *

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por Jefferson

O Brasil chora a dor do falecimento de 235 pessoas – em sua maioria, jovens – na tragédia ocorrida na boate Kiss, em Santa Maria – RS, no último domingo (27/01/2013). Mais de 70 estão internados em estado grave. Pais, namorados, amigos, desconhecidos, todos os cidadãos de Santa Maria e do Brasil estão tristes na alma com o ocorrido. Para os mais próximos, o desespero de perder um ente jovem, mal saído da adolescência, para as chamas e a fumaça de um incêndio plenamente evitável é inimaginável.

Qual é o papel do Movimento Espírita diante do sofrimento desses familiares? Do desespero de pais e mães que choram os seus filhos, queenterram as suas esperanças e os seus corações juntamente com os caixões? A resposta é simples: chamar o Espiritismo para o papel dado a ele por Jesus: o de Consolador. Secar lágrimas, ser solidário, oferecer palavras de afeto ou mesmo oferecer ajuda material e técnica, como muitos voluntários da área de saúde do Brasil inteiro estão fazendo.

Contudo, a boa intenção de ajudar, de trazer consolo, quando distraída do amor fraterno e da devida sensibilidade pode ser uma forma de agredir, de machucar, ainda que sem essa intenção.

A Federação Espírita Brasileira (FEB), em seu sítio eletrônico, publicou a seguinte mensagem: “A Federação Espírita Brasileira manifesta solidariedade e vibrações fraternas às famílias envolvidas e a toda comunidade de Santa Maria (RS)”.

 

 

 

Como entidade espírita brasileira, nenhuma outra casa tem a representatividade que a FEB possui. Muito acertado e desejável que em nome do Movimento Espírita nacional, a sua associação mais conhecida mostrasse a sua solidariedade com os envolvidos naquele sinistro. Ótimo se parasse aí.

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A FEB, contudo, querendo esclarecer os possíveis motivos de tantas vidas ceifadas, provavelmente para mostrar que nada ocorre por acaso, que Deus é justo e misericordioso, teve a infelicidade de  publicar, em adendo, a seguinte mensagem psicografada do espírito Emmanuel por intermédio de seu médium, Chico Xavier:

Desencarnações Coletivas (Emmanuel)

Sendo Deus a Bondade Infinita, por que permite a morte aflitiva de tantas pessoas enclausuradas e indefesas, como nos casos dos grandes incêndios?

(Pergunta endereçada a Emmanuel por algumas dezenas de pessoas em reunião pública, na noite de 23-2-1972, em Uberaba, Minas).

RESPOSTA:

Realmente reconhecemos em Deus o Perfeito Amor aliado à Justiça Perfeita. E o Homem, filho de Deus, crescendo em amor, traz consigo a Justiça imanente, convertendo-se, em razão disso, em qualquer situação, no mais severo julgador de si próprio.

Quando retornamos da Terra para o Mundo Espiritual, conscientizados nas responsabilidades próprias, operamos o levantamento dos nossos débitos passados e rogamos os meios precisos a fim de resgatá-los devidamente.

É assim que, muitas vezes, renascemos no Planeta em grupos compromissados para a redenção múltipla.

***

Invasores ilaqueados pela própria ambição, que esmagávamos coletividades na volúpia do saque, tornamos à Terra com encargos diferentes, mas em regime de encontro marcado para a desencarnação conjunta em acidentes públicos.

Exploradores da comunidade, quando lhe exauríamos as forças em proveito pessoal, pedimos a volta ao corpo denso para facearmos unidos o ápice de epidemias arrasadoras.

Promotores de guerras manejadas para assalto e crueldade pela megalomania do ouro e do poder, em nos fortalecendo para a regeneração, pleiteamos o Plano Físico a fim de sofrermos a morte de partilha, aparentemente imerecida, em acontecimentos de  sangue e lágrimas.

Corsários que ateávamos fogo a embarcações e cidade na conquista de presas fáceis, em nos observando no Além com os problemas da culpa, solicitamos o retorno à Terra para a desencarnação coletiva em dolorosos incêndios, inexplicáveis sem a reencarnação.

***

Criamos a culpa e nós mesmos engenhamos os processos destinados a extinguir-lhe as conseqüências. E a Sabedoria Divina se vale dos nossos esforços e tarefas de resgate e reajuste a fim de induzir-nos a estudos e progressos sempre mais amplos no que diga respeito à nossa própria segurança.

É por este motivo que, de todas as calamidades terrestres, o Homem se retira com mais experiência e mais luz no cérebro e no coração, para defender-se e valorizar a vida.

***

Lamentemos sem desespero, quantos se fizerem vítimas de desastres que nos confrangem a alma. A dor de todos eles é a nossa dor. Os problemas com que se defrontaram são igualmente nossos.

Não nos esqueçamos, porém, de que nunca estamos sem a presença de Misericórdia Divina junto às ocorrências da Divina Justiça, que o sofrimento é invariavelmente reduzido ao mínimo para cada um de nós, que tudo se renova para o bem de todos e que Deus nos concede sempre o melhor.

(Transcrito do livro: XAVIER, Francisco C. Autores diversos. Chico Xavier pede licença. S. Bernardo do Campo: Ed. GEEM. Cap. 19).

Não precisa ser perspicaz para imaginar o soco no estômago que uma explicação dessa causa em pais e mães que acabaram de enterrar os seus filhos.

Como esperar que os pais, parentes e amigos se animem ao lerem que as jovens vítimas eram “Invasores ilaqueados pela própria ambição”, que esmagavam coletividades com “volúpia do saque”? Qual o consolo que nós espíritas oferecemos ao dizer as mães em luto que seus filhos provavelmente eram “promotores de guerras” com “megalomania do ouro e do poder”, e por isso morreram de forma tão desastrosa? Esse é o Consolador Prometido por Jesus?

 

Não temos dúvida: o familiar em dor, desespero, sem saber o porquê da perda, ao ler uma mensagem dessas, não ficará mais consolado; ao contrário, se sentirá indignado e ofendido.

Na Palestina do século I, uma pessoa cega, paralítica ou endemoninhada era vista como pecadora. Ninguém tinha pena. Era castigo de Deus e Deus sabe o que faz. Problema delas. Nem no templo de Jerusalém elas poderiam entrar. Estavam afastadas do mundo e de Deus.

Um rabi de Nazaré, tido por muitos como messias de Deus, nunca negou auxílio para nenhuma. Nunca soubemos que acusou qualquer um dos enjeitados da sorte como pecadores. Simplesmente amava e o seu amor puro curava esses sofredores. O nome dele era Jesus de Nazaré.

O Espiritismo só será o consolador prometido por Jesus se os espíritas souberem consolar quem chora, e não apontar o dedo discursando sobre supostas culpas.

No caso da mensagem de Emmanuel, ela integra um livro da série “Na Era do Espírito”[1], onde questões feitas por encarnados são respondidas pelo amigo espiritual do médium mineiro. É um tema de estudo, em um ambiente de estudo e feito para o estudo. Não é mensagem para ser distribuída e amplamente divulgada em um momento tão doloroso, o que quase equivale a entregá-la nos velórios e funerais.

Em tragédias como essa, os votos de fraternidade e solidariedade devem ser os primeiros. As famílias e os amigos desses jovens merecem todo o nosso respeito em seu luto. Não sejamos especuladores do sofrimento alheio. Ainda estamos longe de conhecer todas as causas espirituais de um desastre como esse. Publicar (ou postar nas redes sociais) “Desencarnações Coletivas”, nesta hora, pode causar mais dor do que consolo, além de generalizar a resposta que não temos, pois somos ignorantes das causas das aflições nossas e alheias. O silêncio é a melhor condolência.

 

[1] Os outros livros que compõem a série “Na Era do Espírito” são:  “Na Era do Espírito” (1973), “Astronautas do Além” (1974) e “Diálogo dos Vivos” (1974).

Imagem 1: fonte Fonte: http://www.google.com.br/imgres?start=109&hl=pt&sa=X&tbo=d&biw=1440&bih=776&tbm=isch&tbnid=n3m4rUBqm1j95M:&imgrefurl=http://www.valor.com.br/brasil/2987446/apos-incendio-em-boate-118-pacientes-seguem-internados-no-rs&docid=UgDrcqu33HbPsM&imgurl=http://www.valor.com.br/sites/default/files/imagecache/media_library_560_367/images/santa_maria_galeria_parte20_0_0_1920_1257.jpg&w=560&h=367&ei=2g8IUem8I4T89gTu7oBo&zoom=1&ved=1t:3588,r:17,s:100,i:73&iact=rc&dur=1508&sig=116726518455711075366&page=6&tbnh=178&tbnw=277&ndsp=21&tx=207&ty=99

Imagem 2: fonte: portal da FEB (http://www.febnet.org.br/blog/geral/movimento-espirita/desencarnacoes-coletivas-emmanuel/)

 

* postado originalmente em 29/01/2013 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br