Condenados por Deus: Um Problema Teológico (Parte III – final) *

Ressurreição de Cristo – Carl Bloch

  por Jefferson

Esta é a terceira e última parte do artigo “Condenados por Deus: um problema teológico”. Para os que estão acessando o artigo pela primeira vez, sugerimos a leitura das duas partes precedentes, publicadas nos dias 22/02 e 27/03/12.

Alguns Conceitos Básicos

Este blog é espírita, portanto, muito natural que os assuntos apresentados aqui sejam escritos e lidos sob esta óptica. Já deixamos claro, nas duas partes anteriores deste artigo, que os dogmas do pecado original e da salvação pela cruz, independente de se acreditar ou não no Espiritismo, não fazem nenhum sentido, pois a sua base somente se sustenta se a história de Adão e Eva fosse verdadeira, o que os fatos apresentados pela Ciência já demonstraram não ser o caso. Contudo, se somente derrubássemos o edifício da fé cristã e não oferecêssemos alternativa, como fazem os defensores do Ateísmo, nada de digno faríamos. Se a visão espírita diverge da visão apresentada pela teologia cristã, é necessário que ofereça uma alternativa racional para o desequilíbrio humano e para o sofrimento que sempre ronda a nossa espécie, sem que para isso haja a necessidade de recorrer à “natureza pecadora” e ao “castigo divino” com os quais não concorda. Para tanto, qual a explicação espírita para essas questões? Para responder a essa pergunta, precisamos partir de um conhecimento comum daquilo que o Espiritismo professa, principalmente para quem não tem intimidade nenhuma com a literatura espírita:

1)      O Espiritismo acredita em Deus? Sim, tanto que o início dos estudos espíritas, explanados no livro-base do Espiritismo, “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec, destina o seu primeiro capítulo somente para tratar Dele. Na questão número quatro, daquele livro, temos: “4. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? “Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”

2)      Como é Deus na visão espírita? É um Deus que se revela muito mais pela Sua criação do que pelos livros e pelos templos. Na questão nona, do livro já citado, temos a seguinte explicação: “9. Em que é que, na causa primária, se revela uma inteligência suprema e superior a todas as inteligências? “Tendes um provérbio que diz: Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a obra e procurai o autor. O orgulho é que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si. Por isso é que ele se denomina a si mesmo de espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!” Mais adiante, a questão de número treze trata dos atributos de Deus: 13. Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, temos idéia completa de Seus atributos? “Do vosso ponto de vista, sim, porque credes abranger tudo. Sabei, porém, que há coisas que estão acima da inteligência do homem mais inteligente, as quais a vossa linguagem, restrita às vossas idéias e sensações, não tem meios de exprimir. A razão, com efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma Lhe faltasse, ou não fosse infinita, já Ele não seria superior a tudo, não seria, por conseguinte, Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus tem que se achar isento de qualquer vicissitude e de qualquer das imperfeições que a imaginação possa conceber.” Portanto, Deus, para a Doutrina Espírita, é a causa primária de tudo e a inteligência suprema do universo, possuindo todas as Suas qualidades (justiça, amor, sabedoria, etc.) em grau infinito, sem possuir nenhuma partícula de nossas limitações, nenhum átomo de nossos defeitos.

3)      Como o Espiritismo entende a Bíblia? Podemos tomar por base as palavras de Allan Kardec, que organizou e publicou o ensino dos Espíritos, como uma opinião da maioria dos espíritas: “A Bíblia, evidentemente, encerra fatos que a razão, desenvolvida pela Ciência, não poderia hoje aceitar e outros que parecem estranhos e derivam de costumes que já não são os nossos. Mas, a par disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela guarda grandes e belas coisas. A alegoria ocupa ali considerável espaço, ocultando sob o seu véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do pensamento, pois que logo desaparece o absurdo.” (Allan Kardec, “A Gênese”, capítulo IV, item 6)

4)      Como a Doutrina Espírita interpreta a narrativa de Adão e Eva? Segundo os Espíritos que participaram da criação do “Livro dos Espíritos”, temos a seguinte explicação: 50. A espécie humana começou por um único homem? “Não; aquele a quem chamais Adão não foi o primeiro, nem o único a povoar a Terra.” Segundo entendimento de Allan Kardec, o que tem sido confirmado por diversas escritas mediúnicas, Adão representa um conjunto de espíritos exilados dos seus planetas de origem, vez que teimavam em permanecer retardatários ao progresso geral de suas sociedades. Foram trazidos ao nosso planeta e aqui reencarnaram em expiação, para progredirem e fazer às tribos que aqui estavam, bem mais atrasadas do que eles em termos morais e intelectuais, progredissem também. “De acordo com o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por essa razão mesma, chamada raça adâmica. Quando ela aqui chegou, a Terra já estava povoada desde tempos imemoriais, como a América, quando aí chegaram os europeus. “Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste planeta, a raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso todas as outras. A Gênese no-la mostra, desde os seus primórdios, industriosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância espiritual, o que não se dá com as raças primitivas, mas concorda com a opinião de que ela se compunha de Espíritos que já tinham progredido bastante. Tudo prova que a raça adâmica não é antiga na Terra e nada se opõe a que seja considerada como habitando este globo desde apenas alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, antes tenderia a confirmá-las.” (Allan Kardec, “A Gênese”, capítulo XI, item 34)

5)      Quem é Jesus para o Espiritismo? Uma pessoa sem igual, mas não um deus encarnado, porque Deus é único, como é muito claro toda a Antiga Aliança conhecida como Bíblia Hebraica. Jesus era judeu e como fiel observador da Torá, nunca reinvidicou para si a condição de divindade. A dita Santíssima Trindade nunca foi revelação evangélica genuína, mas uma construção teológica, idéia de gosto das comunidades cristãs de origem helenista, que não tinham a mesma identidade cultural das primeiras comunidades judaicas, como a de Jerusalém. Para ganharmos tempo, citaremos apenas duas passagens evangélicas que deixam bem claro o que afirmamos: “Aproxima-se então um mancebo e lhe diz: ‘Bom Mestre, que bem devo fazer para alcançar a vida eterna?’ Jesus lhe respondeu: ‘Por que me chamas bom? Não há senão somente Deus que é bom. Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos.”(Mateus, 19:16 e 17; Marcos, 10:17 e 18; Lucas, 18:18 e 19.) “Assim falou Jesus, e, erguendo os olhos ao céu, disse: ‘Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique, e que, pelo poder que lhe deste sobre toda carne, ele dê a vida eterna a todos os que lhe deste! Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo.” (João 17, 1-3; grifos nossos) 6)      Se Jesus não é Deus, então, quem ele é? Segundo ensinam os Espíritos, Jesus é o modelo dado por Deus à humanidade e pertence ao grupo dos Espíritos Puros, ou seja, aqueles espíritos que nada mais tem a expiar, que possuem as virtudes humanas em seu grau máximo sem serem portadores de nenhum dos vícios de nossa natureza. “625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?” “Jesus.” (Allan Kardec – Livro dos Espíritos)

7)      Se Jesus é guia e modelo, se a Bíblia tem verdades sublimes sob o véu da alegoria, para que serve a Doutrina Espírita? A humanidade está em constante processo de transformação, sempre com novas demandas e questionamentos. Mais amadurecida, a sociedade atual necessita de respostas que as suas antecessoras nem pensaram em formular. Longe do ambiente agropastoril e patriarcal do Oriente Médio, necessita de esclarecimentos e provas mais apropriadas para o tempo presente. Vejamos o que nos diz o Livro dos Espíritos: 627. Uma vez que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus, qual a utilidade do ensino que os Espíritos dão? Terão que nos ensinar mais alguma coisa? “Jesus empregava amiúde, na sua linguagem, alegorias e parábolas, porque falava de conformidade com os tempos e os lugares. Faz-se mister agora que a verdade se torne inteligível para todo mundo. Muito necessário é que aquelas leis sejam explicadas e desenvolvidas, tão poucos são os que as compreendem e ainda menos os que as praticam. A nossa missão consiste em abrir os olhos e os ouvidos a todos, confundindo os orgulhosos e desmascarando os hipócritas: os que vestem a capa da virtude e da religião, a fim de ocultarem suas torpezas. O ensino dos Espíritos tem que ser claro e sem equívocos, para que ninguém possa pretextar ignorância e para que todos o possam julgar e apreciar com a razão. Estamos incumbidos de preparar o reino do bem que Jesus anunciou. Daí a necessidade de que a ninguém seja possível interpretar a lei de Deus ao sabor de suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei toda de amor e de caridade.” Partindo desses conceitos básicos, fica claro que o Espiritismo não tem por pretensão de desqualificar ou revogar os ensinos bíblicos, muito menos as palavras de Jesus e o seu significado inquestionável para a humanidade. O Espiritismo tem por missão provar, através do ensino daqueles que já viveram como nós e que continuam a existir depois da morte, que o caminho ensinado por Jesus é o único a nos trazer felicidade. São os seus testemunhos do além-túmulo, de felicidade ou de infelicidade, que nos indicam o caminho a seguir ou a evitar, para que tenhamos uma vida de bem-aventuranças espirituais a partir desta vida mesmo. São os Espíritos, enviados pelo Altíssimo, que nos mostram os aspectos práticos de sermos virtuosos, da razão de nossos sofrimentos e da necessidade que temos de sermos pessoas mais integras, justas, caridosas, piedosas e compreensivas para com os nossos semelhantes, enfim, seguirmos os passos de Jesus, para que possamos ter a verdadeira felicidade, que é a da consciência iluminada, o verdadeiro templo de Deus. Com o Espiritismo, que nada mais é do que o desdobramento da mensagem evangélica, a consciência se ilumina, o coração se aquece e a alma se ilumina. Deus não é Beduíno O Barão de Montesquieu certa vez disse “Se os triângulos tivessem um Deus, ele teria três lados”. O Deus da Bíblia Hebraica é um pastor poderoso, porque era cultuado por povos que tem origem nômade. A “terra santa” é um pedaço de terra que possui abundância de pedras, desertos e montanhas, e carência de terras produtivas, mas é santa porque é a sua terra, e não dos outros. Encontraremos na Bíblia muitas menções ao cedro do Líbano, ao camelo e ao leão, mas não terá uma linha sobre uma jabuticabeira, uma jibóia ou lobo-guará, pelo simples fato de que não eram do conhecimento dos povos do Oriente. Quem escreveu a Bíblia, escreveu para o seu povo, embebido de sua cultura e de seus costumes, e o Deus narrado por ele também ficará limitado pelo seu horizonte. Portanto, as características do Deus da Antiga Aliança serão as mesmas do povo que o cultua. “Um deus terrível das selvas, um deus árabe, um deus que atravessava as montanhas, percorria os desertos, repousava em barracas, suntuosamente coloridas. Um deus que protege seu povo, à noite quando este se recolhe para dormir, um deus que o leva à batalha, que castiga os seus inimigos sem dó, um deus que muda de idéia como o vento, que é rápido na vingança e não recua ante uma mentira quando esta lhe convém. No entanto, é um deus que não comete injustiças, que é generoso para com estranhos, bondoso para com os órfãos e misericordioso para com os pobres. Em poucas palavras, um deus que possui todas as virtudes e defeitos do beduíno árabe.” (Thomas, Henry – A História da Raça Humana Através da Biografia – 10 ed., Rio de Janeiro: Globo, 1979, p.40 e 41). O mundo mudou, a humanidade evoluiu, Deus já não cabe mais nesse modelo. Como vimos mais acima, “Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a obra e procurai o autor.”, dizem os Espíritos. Feita a proposta, vamos estudar a obra para conseguirmos dimensionar o autor. Vamos dar um rápido passar de olhos na criação para tentarmos entender a dimensão de seu Autor. Além da Imaginação Toda a histórica bíblica se passa na região que abrange a bacia latina do Mediterrâneo, o Oriente Médio e as terras que seriam os atuais Irã e Iraque. A sua crença na divindade era restrita ao seu conhecimento, às suas experiências, da mesma forma que os deuses ameríndios e polinésios não se assemelharam ao Deus de Israel, porque Israel desconhecia esses continentes. O mundo é muito maior do que Canaã. O mundo também não se sustenta sob colunas, não existe uma abóboda onde são firmadas as estrelas, não existem águas sobre essa abóboda e não existem abismos sob as colunas. O planeta não é plano e não é o centro do universo. Portanto, se quisermos entender Deus, temos que olhar para o livro da natureza, e não para a Bíblia. Pelas Sagradas Escrituras se pode entender muito de como o povo hebreu entendia Deus, mas não se pode entendê-Lo, pois Ele é muito maior. Israel, comparada ao Brasil, Estados Unidos, China e Índia, em termos geográficos, é uma pedaço de terra inexpressivo, e a sua população, com todo respeito que merece a sua cultura e as suas tradições milenares, mesmo hoje, é uma parcela ínfima quando comparada com o somatório de todas as civilizações e culturas que existiram e existem em nosso planeta. Deus é muito maior para ser representado por um único povo. O nosso próprio planeta, quando comparado com outros tantos, é uma pequena semente flutuante no espaço cósmico, e o nosso sol, que nos parece tão grande e imponente, é uma pequena chama de um fósforo aceso ao lado de Arturo, e esta estrela não passa de pálida fonte de luz se comparada com VY Cão Maior. E estamos falando de estrelas, que são pontinhos diminutos no condomínio de galáxias chamado Universo. “Pela obra se reconhece o autor.”, bem nos lembram os Espíritos. Pois bem, neste Universo devassado por nossos telescópios mais poderosos, do qual ainda sabemos muito pouco, é o verdadeiro livro das virtudes de Deus. Deus não pode ser um beduíno do deserto, não pode se comportar com as nossas fraquezas e mesquinharias, pois a sua obra espalhada pelo Cosmos nos atestam a sua infinita sabedoria e poder; uma natureza muito maior do que as nossas especulações infantis. O que representa uma pequena nota dissonante nessa sinfonia incalculável de sóis, supernovas, buracos negros e galáxias? O Arquiteto Supremo, o Criador Incriado é passível de se ofender conosco a ponto de amaldiçoar toda a raça humana? A sua ira é tão terrível que somente o sangue no altar, ou a crucificação de um justo é capaz de serená-lo? Elevemos o olhar para muito além do nosso horizonte. Deus é maior! Seguindo a máxima de que uma imagem vale mais do que mil palavras, vamos admirar o livro da criação divina cujas páginas os antigos hebreus não podiam ler e aproveitar para refletirmos em qual livro Deus deixou escritos os seus atributos.     A Soteriologia Espírita Fizemos, abaixo, um resumo da explicação dada pelos Espíritos sobre a nossa origem, a causa de nossas aflições e o destino que nos aguarda. Algumas frases são transcrições literais do Mestre Lionês. Todas as afirmações abaixo podem ser consultadas nas obras de Allan Kardec, particularmente no item VI de “O Livro dos Espíritos” e no livreto “O Que é o Espiritismo”. Deus tem a sua perfeição proporcional à sua obra, que se caracteriza pela imensidão ilimitada no tempo e no espaço. Mas se Deus é perfeito, porque nós somos miseráveis em nossas virtudes, pródigos em nossas desgraças, escravos de nossos prazeres e vítimas de nossas dores? Se Deus é justo, porque tantas diferenças visíveis desde o berço sem que a nossa vontade possa afastar o golpe do destino? Deus é tão grande que não nos enxerga e não ouve os nossos apelos? Qual a razão da vida que nem sempre é resultado de nossos melhores esforços? Os questionamentos não são novos, mas em uma época da busca pela razão, somos muito mais exigentes nas respostas. Adão e Eva, serpente, paraíso, maldição, pecado, Satanás, ira divina, nada disso mais satisfaz a quem procura uma resposta além dos muros do dogma. Para esses o Espiritismo tem muito a dizer. O Espiritismo não se impõe a quem quer que seja; quer ser aceito livremente e por efeito de convicção. Expõe suas doutrinas e acolhe os que voluntariamente o procuram. Não cuida de afastar pessoa alguma das suas convicções religiosas; não se dirige aos que possuem uma fé e a quem essa fé basta; dirige-se aos que, insatisfeitos com o que se lhes dá, pedem alguma coisa melhor. O Espiritismo, que nada mais é do que a Doutrina formada do ensino concordante dos Espíritos, postula que Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, e que criou o Universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, visíveis e invisíveis. Os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos. Todos somos criados simples e ignorantes, adquirindo inteligência, gostos e tendências de acordo com as escolhas feitas, conforme vamos evoluindo e passando por diversas experiências. Os Espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível, cuja destruição pela morte lhes restitui a liberdade. Deixando o corpo, a alma volve ao mundo dos Espíritos, donde saíra, para passar por nova existência material, após um lapso de tempo mais ou menos longo, durante o qual permanece em estado de Espírito errante, ou seja, sem morada fixa. Existem Espíritos de todas as espécies de inteligência e moralidade, da mesma forma que percebemos essas diferenças nas pessoas que habitam o nosso mundo. Contudo, os Espíritos não ocupam perpetuamente a mesma categoria. Todos se melhoram passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita. Esta melhora se efetua por meio da encarnação, que é imposta a uns como expiação, a outros como missão. A vida material é uma prova que lhes cumpre sofrer repetidamente, ou seja, por várias reencarnações, até que hajam atingido a absoluta perfeição moral. As diferentes existências corpóreas do Espírito são sempre progressivas e nunca regressivas; mas, a rapidez do seu progresso depende dos esforços que faça para chegar à perfeição. As qualidades da alma são as do Espírito que está encarnado em nós; assim, o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito, o homem perverso a de um Espírito impuro. O Espírito encarnado se acha sob a influência da matéria; o homem que vence esta influência, pela elevação e depuração de sua alma, se aproxima dos bons Espíritos. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões, e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites grosseiros, se aproxima dos Espíritos impuros, dando preponderância à sua natureza animal. Quem transgride a Lei de Deus são corrigidos através de novas existências, de forma a recomeçar o trabalho que negligenciaram, que nada mais é do que ser uma pessoa correta e caridosa, disposta a praticar ao bem e não se revoltar com as dificuldades que fazem parte da vida. Não existem faltas irremissíveis, que a expiação não possa apagar. Meio de consegui-lo encontra o homem nas diferentes existências que lhe permitem avançar, conforme os seus desejos e esforços, na senda do progresso, para a perfeição, que é o seu destino final. Portanto, o destino do homem está em suas mãos, sendo de sua responsabilidade os resultados que colhe na vida. Se não encontra causa de seus sofrimentos nesta vida, deverá suspeitar que a origem remonta a vidas anteriores. Assim, não existe injustiça, mas redenção em cada prova da vida. Mesmo a criança recém saída do útero materno, que nada fez nessa vida para vir com essa ou aquela deformidade, nascer nesse ou naquele ambiente, como Espírito imortal, viajante de muitas existências corporais, colhe hoje o que plantou no passado, e semeia hoje os frutos saborosos ou amargos do amanhã. Segundo o axioma “todo efeito tem uma causa”, as misérias da vida são efeitos que hão de ter uma causa e, desde que se admita um Deus justo, essa causa também há de ser justa. Ora, ao efeito precedendo sempre a causa, se esta não se encontra na vida atual, há de ser anterior a essa vida, isto é, há de estar numa existência precedente. Sem privilégios, sem maldições, sem injustiças, sem salvação pelo sacrifício de terceiros. Todos fomos criados com as mesmas possibilidades, todos escolhemos os nossos caminhos, todos somos responsáveis pelos nossos atos, todas temos as oportunidades inumeráveis de resgate, aprendizado e evolução. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. E uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, talseja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação e é quando se torna um castigo. Deus, através dos seus enviados e das pessoas com quem convivemos, nos ensina o bem e nos estimula ao progresso, cabendo a nós o mérito da vitória ou a responsabilidade do fracasso momentâneo. Nenhum dos seus filhos se perde, porque todos tem a eternidade como trunfo para a vitória. No nosso atual estágio evolutivo, não nos lembramos das vidas anteriores, porque essa lembrança mais atrapalharia do que nos auxiliaria em nossa tarefa. Como é comum reencarnarmos em grupos com quem temos uma história comum, o conhecimento público de nossas faltas seria motivo de vergonha e remorso; em outro sentido, os títulos de nobreza, os cargos de importância, os feitos grandiosos do passado nos eclipsariam a possibilidade de corrigir defeitos, modificar tendências, ter o benefício do anonimato para podermos desenvolver novos trabalhos sem desvios. Nascemos sem a memória do passado, que voltará em sua plenitude quando retornarmos ao nosso estado de Espíritos errantes, mas com a nossa personalidade, inteligência e índole incólumes, instrumentos necessários a nossa identidade enquanto indivíduos e ferramentas necessárias ao nosso progresso. Para nos melhorarmos, outorgou-nos Deus, precisamente, o de que necessitamos e nos basta: a voz da consciência e as tendências instintivas. Priva-nos do que nos seria prejudicial. Ao nascer, traz o homem consigo o que adquiriu, nasce qual se fez; em cada existência, tem um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi antes: se se vê punido, é que praticou o mal. Suas atuais tendências más indicam o que lhe resta a corrigir em si próprio e é nisso que deve concentrar-se toda a sua atenção, porquanto, daquilo de que se haja corrigido completamente, nenhum traço mais conservará. As boas resoluções que tomou são a voz da consciência, advertindo-o do que é bem e do que é mal e dando-lhe forças para resistir às tentações. Eis a soterologia espírita, que enaltece Deus em sua justiça e amor, que dignifica o homem enquanto ser dotado de livre-arbítrio e responsabilidade, e que nos dá a esperança de sempre continuarmos no caminho do bem, para que possamos, no menor espaço de tempo possível, estarmos face a face com o nosso Pai Celeste.   ,

* publicado originalmente em 18/01/2013 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

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