Condenados por Deus: Um Problema Teológico (Parte II) *

  por Jefferson   O presente texto é a segunda parte do artigo “Condenados por Deus: Um Problema Teológico”, no qual analisaremos a Soteriologia[[1]] professada pelo Cristianismo, discutindo as suas bases históricas e racionais, abordando as suas implicações morais para, após, verificarmos como o Espiritismo trata o tema. Encerramos a primeira parte com o seguinte resumo da salvação cristã: – Cada um de nós nasce contaminado por transmissão pelo pecado de Adão e Eva; – O pecado nos afastou de Deus e nos condenou à morte; – Deus se reconciliou conosco enviando o seu único filho para ser sacrificado em nosso nome, como os animais eram sacrificados em nome dos ofertantes nos altares do templo de Jerusalém; – O sangue de Jesus limpou os nossos pecados, nos aproximando de Deus novamente; – Serão salvos aqueles quem Deus escolheu antecipadamente para isso, não dependendo da vontade do homem ou de seus méritos, mas da graça de Deus. Em continuidade, analisaremos a veracidade dessas afirmações e quais as suas consequências que elas passam na concepção de Deus. Um Homem, uma Mulher e Uma Cobra que Fala Se o pecado original é a fonte das misérias humanas e da nossa tendência para o mal, como quer a teologia cristã, a história bíblica sobre este pecado deve ser verdadeira, o que inclui a certeza histórica da existência de Adão e Eva e de uma serpente que fala. Se algo faltar nesta história, o erro do casal primitivo não ocorreu, e se não houve pecado, não há de se falar em punição divina e nem mesmo da sua redenção pela cruz. Primeiramente, ao contrário do que se pensa, o livro de Gênesis não foi o primeiro texto bíblico a ser escrito[2], nem tampouco Moisés foi o seu autor. Ele foi a compilação de diversas tradições dos povos de Israel e da Judéia, que servem de introdução a história dos patriarcas, pessoas que serviram a ideologia de um povo formado a partir de um ancestral comum. As narrativas sobre a criação, o surgimento do homem, da mulher, a explicação da necessidade do trabalho, das dores do parto, da morte, etc., são lendas piedosas que os hebreus antigos tinham como explicações sobre os fatos da vida a que cotidianamente eram confrontados. São mitologias daquelas sociedades, metáforas apropriadas ao objetivo de seus autores e de satisfação dos seus ouvintes. Querer dar a essas historietas a chancela de verdades incontestáveis é desfigurar o seu objetivo narrativo e retirar a idéia do contexto onde surgiu e se desenvolveu. Não cabe nem mesmo a afirmação dogmática de ser a “palavra de Deus”, porque o dogma da inerrância bíblica já foi superado, principalmente com os avanços da Ciência, notadamente a partir do século XIV. O primeiro grande golpe desferido contra a “incontestável veracidade bíblica” foi dado por Galileu Galilei (1564 – 1642), que com o seu telescópio artesanal provou a incorreção do sistema cosmológico dos antigos hebreus: a Terra não é o centro do universo e nem do nosso sistema solar. Josué não poderia ter parado o Sol (Js 10, 12-15) para se sagrar vitorioso sobre os exércitos dos reis amorreus, pois é a Terra que gira em torno do Astro Rei e não o contrário, sem contar que “parar o Sol” significaria sair da velocidade de rotação (1.674 km/h na linha do equador) para o estado estacionário do planeta, o que resultaria em um abalo sem precedentes nos continentes, oceanos, montanhas, cidades, etc., transformando tudo em pó. O segundo grande golpe veio com naturalista britânico Charles Darwin (1809 – 1882), com a sua obra “Origem das Espécies“[3] que comprova que os seres vivos são resultado da evolução de espécies anteriores. Além das provas derivadas dos fósseis de animais e hominídeos, a teoria de Darwin é corroborada pelos dados da Genética, que comprovam a ligação entre espécies pelas cadeias de seus DNAs, provando que existe um parentesco cromossômico entre os seres, não havendo um único indivíduo que não tenha surgido de um outro mais elementar. Descobertas após descobertas científicas vão demonstrando que a Bíblia deve ser vista como um livro religioso, e não um livro de história ou de ciência. A religião é uma abordagem humana de Deus, e não o contrário. Calcada em dogmas e rituais, ela não se presta a ser seguida como verdade absoluta, posto que o seu objetivo é o de atrair a humanidade para Deus, fazendo uso da linguagem figurada, das imagens literárias, das metáforas, parábolas, de sacerdotes, lugares sagrados e toda a sorte de recursos didáticos que tornem a Divindade mais inteligível a nós, seres imperfeitos em dificuldade para conhecer, ainda que parcialmente, a Perfeição Absoluta. Não é função da religião disputar o conhecimento com as academias, os laboratórios e universidades, da mesma forma que seria um absurdo a Ciência atacar a fé de cada um de nós. Portanto, partindo do princípio que Deus não erra, visto que é perfeito, a Sua palavra não pode ser desmentida. Se Galileu e Darwin provaram que a Bíblia contém equívocos, não é porque Deus errou, mas porque a Bíblia não pode ser tomada como a Sua palavra, mas palavra humana colocada nos lábios divinos, de acordo com os povos, seus costumes e a época. Darwin trouxe uma situação incômoda na crença da condenação da humanidade resultante do “pecado original” cometido por Adão e Eva: pela teoria da evolução das espécies, o casal adâmico, como original e diferente dos demais seres, nunca existiu. O fato é Darwin nos mostrou que a humanidade é resultado da evolução de espécies anteriores, e não fruto de uma criação única, exclusiva. Portando, o “casal original” não é nada original; se existiu de forma histórica, foi resultado de milhares de casais anteriores a ele. Um fato curioso, mas que é importante nessa história, é o papel da serpente na queda do casal primogênito. Na historieta de Gênesis, existe uma serpente que pensa, fala, seduz e que parece ter pernas, pois não se arrastava sobre o próprio ventre. Falar requer aparelho fonador, pensar requer estrutura cerebral e intricada rede neural e para seduzir se necessita de vontade. Fora do mundo das fábulas e da mitologia, tal cobra nunca existiu. Retirar a linguagem figurada da narrativa bíblica para uma aceitação literal de seu conteúdo é abrir mão da própria inteligência e torcer o texto sagrado dos antigos hebreus. Não se precisa avançar do senso comum para saber que cobra não pensa, não fala e não tem astúcia, características próprias dos seres humanos. E antes que alguém levante a hipótese demoníaca, o texto não permite identificar a serpente com Satanás, pois o que consta no primeiro texto é que “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito.” (Gn 3,1). O texto é claro, trata-se de um animal e não nos permite criar uma situação onde o Anjo Mau – sem entrar no mérito de sua existência – se apresentou como o réptil da história aqui narrada. Por último, o texto bíblico é claro ao afirmar o motivo da expulsão de Adão e Eva do paraíso: “E o Senhor Deus disse: ‘Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente.’ O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra donde tinha sido tirado.” [4] Logo, o motivo apresentado pelo narrador bíblico não é o da desobediência, mas o da rivalidade: a criatura já tinha ciência, se conquistasse a eternidade, rivalizaria com Deus. Por isso da impossibilidade da permanência do casal original no jardim do Éden. De forma intencional, o Cristianismo atribuiu o motivo da expulsão à desobediência. Em resumo, não temos Adão, Eva ou serpente, não temos fruto proibido, expulsão do paraíso e pecado original. O que temos é uma narrativa metafórica incluída na Bíblia, e como tal era vista pelos judeus antigos até que Paulo de Tarso fez uso dela para solucionar um grande problema que as comunidades cristãs viviam: a judaização do Cristianismo. São Paulo e a Teologia da Cruz A idéia do “pecado original” nasce com São Paulo. O Apóstolo dos Gentios cria uma forma inteligente dos incircuncisos participarem das comunidades cristãs sem precisarem aderir ao Judaísmo. A sua saída teológica foi a da salvação pela cruz. Paulo entendia que em Jesus não havia mais judeus e gentios, homens e mulheres, senhores e escravos; todos eram iguais por Nosso Senhor Jesus Cristo[5]. Era uma forte oposição ao grupo representado por Tiago, irmão do Senhor, que entendia que Jesus era o coroamento das promessas feitas por Deus à Abraão. Ora, pensavam os partidários de Tiago, não haveria como a pessoa ser recebida em Cristo sem antes fazer parte da família de Abraão. Isso significava aceitar todas as prescrições mosaicas, inclusive as da circuncisão, respeito ao sábado, ofertas no templo de Jerusalém, abstenção das carnes consideradas impuras, etc. Paulo, e seu companheiro de evangelização, Barnabé de Chipre, entendiam que tais exigências sufocariam qualquer tentativa de converter as pessoas oriundas do politeísmo à causa cristã. Uma coisa era aceitar o rito do batismo, outra bem diferente seria um grego adulto aceitar um corte na pele do pênis, prática mosaica conhecida como circuncisão. O Convertido de Damasco, com sua experiência na comunidade cristã de Antioquia da Síria, concluiu que não haveria justificativa plausível para a tendência judaizante imposta pelo grupo de Jerusalém. Afinal, tanto os gregos como os judeus recebiam os dons do Espírito Santo, não cabendo aos homens distinguir onde Deus abençoou[6]. Imbuído de tal pensamento, Paulo de Tarso construiu a teologia pela qual o pecado entrou no mundo por um só homem, Adão, e por um só homem, Jesus, o mesmo pecado saiu dele[7]. Jesus, ao morrer na cruz, afirmava Paulo, foi o derradeiro sacrifício pelos pecados de todos nós, libertando o homem das amarras da lei de Moisés, lei esta que permitia ao homem viver de forma digna ainda que sob o poder da sua fraqueza. Se Jesus havia nos liberado do pecado, não faria sentido os homens continuarem sob a lei dada aos pecadores. Com isso, a fé de Abraão era a fé dos cristãos em Nosso Senhor, não havendo mais a necessidade de templo, oferendas, circuncisão, etc. Por isso que encontramos no evangelho de João a afirmativa do Batista de que Jesus é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1, 29). Este evangelho, escrito por volta do ano 100, concebido décadas depois da epístola de Paulo, já traz a doutrina da libertação pela cruz. A teologia paulina também atendia a uma grande indagação dos primeiros cristãos: se Jesus era o Messias Divino, o Filho de Deus, por que ele morreu na cruz como um bandido? Como explicar para os judeus que o seu mashiak, ao invés de libertar o “povo escolhido” do abuso imperialista romano, foi vítima pacífica daqueles estrangeiros tirânicos? Como fazer um grego entender que o Christós havia sido sentenciado ao castigo mais vergonhoso e doloroso que o Império dos Césares poderia reservar a uma pessoa? Que tipo de salvador era aquele que não conseguiu descer da cruz onde o deixaram? A teologia paulina, mais uma vez, responde a esses questionamentos transformando o escândalo da cruz em símbolo de redenção, de vitória. É na salvação dos pecados que Paulo encontra utilidade na morte por crucificação de Jesus. O seu sangue escorreu na cruz pela humanidade como o sangue do cordeiro imaculado era oferecido sobre o altar do templo de Jerusalém, mas em Jesus a redenção é universal e eterna, enquanto a do sacrifício animal é individual e precisa ser renovada a cada ano ou a cada falta. Jesus precisava morrer para que o seu sangue resgatasse a humanidade do pecado de Adão e Eva, permitindo aos crentes a limpeza da alma necessária para viverem na nova ordem das coisas, aguardada para a segunda vinda de Cristo: o Reino de Deus. Quando a Solução se Torna o Problema Entendida em seu contexto, a teologia paulina foi de uma genialidade impar. Não há como pensar o Cristianismo sem Paulo de Tarso. É provável que, sem a teologia de Paulo, o Cristianismo desaparecesse como outras religiões orientais desapareceram no Império Romano. Foi a sua visão inovadora que permitiu não só a recepção dos gentios no seio das comunidades cristãs, como a rápida propagação dos Cristianismo em toda a costa do Mediterrâneo em apenas um século. Se a doutrina judaizante de Tiago tivesse vencido, a igreja seria de poucos adeptos no mundo helênico, e teria sucumbido junto com a cidade de Jerusalém, com a invasão do exército romano sob o comando do general Tito, no ano 70 d.C. Contudo, nos dias de hoje, a teologia paulina não se sustenta, pois o terreno onde foi erigida é todo movediço. Adão, enquanto primeiro homem criado por Deus pronto e acabado, nunca existiu, da mesma forma que não existiu Eva, assim como nunca existiu uma serpente que fala, quanto mais uma serpente detentora de astúcia. Sem Adão e Eva não existe desobediência a Deus, logo não existe pecado e, por decorrência, não existe punição. Somente a imposição dogmática dos teólogos e a aceitação incondicional dos fiéis cristãos tem impedido que a teologia do pecado desapareça. Ainda que Adão e Eva fossem personagens reais, ainda que serpente tivesse pernas, falasse e os tivesse convencido a comer do fruto da árvore do conhecimento, o bom senso não poderia aceitar que Deus, detentor da infinita bondade e justiça, punisse não só o casal original como toda a sua descendência com a maldição da morte e de uma natureza íntima corrupta. Também não se pode admitir que este mesmo Deus, para se reconciliar com a humanidade, precisasse do sangue de um inocente para aplacar a sua ira. Em termos simples, teríamos um Deus irado, que nos culparia pelo pecado dos outros (Adão e Eva) e que nos absolveria pelo sacrifício de um inocente (Jesus). Por essa lógica, seríamos punidos pelo erro de desconhecidos e redimidos pelo sacrifício de terceiro, sem que em nada fizéssemos a diferença, nem para o erro, nem para a remissão, nos roubando por completo o dom maravilhoso do livre arbítrio. No dizer do grande escritor espírita Léon Dennis: “Apresentado em seu aspecto dogmático, o pecado original, que pune toda a posteridade de Adão, isto é, a Humanidade inteira, pela desobediência do primeiro par, para depois salvá-la por meio de uma iniqüidade inda maior – a imolação de um justo – é um ultraje à razão e à moral, consideradas em seus princípios essenciais – a bondade e a justiça. Mais contribuiu para afastar o homem da crença em Deus, que todas as agressões e todas as críticas da Filosofia.”[8] Assim, a condenação surge da cabeça de um homem, Paulo de Tarso, motivada pela preservação do Cristianismo frente ao desafio de sua autonomia em relação ao Judaísmo, mas, nos dias atuais, ameaça ser o motivo da perda de credibilidade do mesmo Cristianismo quando chamado a explicar-se em mundo menos inclinado às fábulas e mais exigente em relação aos fatos. Na terceira e última parte deste artigo, mostraremos como o Espiritismo entende o pecado e a salvação da humanidade. Até lá. [1] Parte da teologia que trata da salvação do homem. [2] Vários estudiosos apontam para o livro de Jó como o livro mais antigo da Bíblia. [3] O título completo pode ser traduzido como “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida”. [4] Gn 3, 22-23 [5] Gl 3, 28-29. [6] At 10, 44-48; 15, 1-35. [7] Rm 5, 15. [8] Léon Dennis, Cristianismo e Espiritismo, Ed. FEB.

* publicado originalmente em 27/03/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

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