Condenados por Deus: Um Problema Teológico (Parte I) *

por Jefferson

Toda a teologia[1] cristã é decorrente do pensamento de que o homem tem natureza pecadora, que já nasce com esta mancha. Não se trata de pecado pessoal, porque não foi cometido por nós; o bebê recém saído do conforto uterino, por exemplo, nada fez contra às leis divinas, contudo, segundo a doutrina cristã, a indefesa criança já surge amaldiçoada, resultado da transmissão do pecado de Adão e Eva, exclusivo da espécie humana, que nos condenou à morte e ao afastamento da presença de Deus. O preço do perdão divino? A morte sacrificial de um homem-deus na cruz erguida no Gólgota e o sangue desse inocente para pagar pela absolvição de cada um de nós. Este é o fundamento da fé cristã, independente de ser católica, protestante, ortodoxa grega ou outra qualquer.

 

No presente artigo, tentaremos dissecar a Soteriologia[2]professada pelo Cristianismo, discutir as suas bases históricas e racionais, analisar as suas implicações morais para, após, verificarmos como o Espiritismo trata o tema.

Observamos, antes de adentrar no tema, que a fé professada é escolha de cada um, não podendo haver críticas ou desconsiderações sobre aquilo em que cada um acredita, não sendo justificadas quaisquer ironias, ofensas ou agressividades de qualquer natureza sobre a religião alheia. Todavia, o questionamento é ato livre do ser humano, não havendo assunto ou dogma que não possa ser dissecado pelo bisturi da razão, acolhendo como único limite o respeito e a urbanidade no estudo.

 

O Pecado de Adão e Eva

 

É provável que o leitor conheça a história de Adão e Eva desde a sua infância, portanto, não nos demoraremos nela, que pode ser consultada em qualquer Bíblia no livro de Gênesis (Gn 1-3). O que nos interessa neste estudo é a chamada “queda”. Segundo a mitologia bíblica, Adão e Eva sucumbiram à tentação da serpente e comeram do fruto da árvore do bem e do mal. Deus os expulsou do paraíso antes que provassem da árvore da vida e conquistassem a eternidade, também se tornando deuses. Para que não retornassem ao Éden, dois anjos com espadas flamejantes ficaram responsáveis pela guarda dos portões paradisíacos, impedindo o retorno deles e de qualquer ser humano àquele lugar.

O episódio rendeu várias maldições divinas. Por conta da falta dos nossos antepassados, a serpente foi destinada a se arrastar pelo chão e a comer poeira por todos os dias da sua vida; a mulher recebeu as dores do parto e a subordinação ao marido; o homem ficou condenado a trabalhar no solo para tirar o seu sustento e, como do pó foi tirado, ao pó o homem deveria voltar quando se extinguisse a sua vida. A morte e o afastamento da presença de Deus foram as consequências da gula adâmica.

A Remissão dos Pecados por Cristo

Segundo a narrativa bíblica, passados aproximadamente 3.800 anos da criação de Adão[3], o fariseu Paulo de Tarso, conhecido pelos cristãos como São Paulo, estava com um grande problema na sua tentativa de divulgar a mensagem de Cristo entre os povos pagãos: a resistência dos judeus convertidos ao Cristianismo. Liderados por Tiago, irmão de Jesus, os cristãos-judeus acreditavam no filho de José e Maria como o Messias prometido, que voltaria em toda a sua glória para estabelecer o seu Reino em toda a Terra. Contudo, Paulo e Barnabé, seu companheiro de evangelização, haviam chamado os gentios (não-judeus) também para fazerem parte dessa nova ordem mundial, o que causava profundas divergências com os que consideravam que as promessas de Cristo somente poderiam ser destinadas ao povo de Abraão. Para o grupo de Tiago, antes de ser cristão, os gregos, macedônicos, cretenses, romanos, etc., deveriam, primeiro, se tornar judeus, circuncidando os homens e sujeitando os convertidos às prescrições mosaicas. Depois sim, segundo a igreja de Jerusalém, eles poderiam ser cristãos.

Paulo discordava duramente desse entendimento. Para ele, bastava a fé em Cristo, ponto final. Nada de circuncisão, cuidados alimentares, rituais de purificação, sacrifícios no templo de Jerusalém. A recepção do batismo e a fé no Messias ressuscitado era o bastante para judeus e gentios, afirmava o Convertido de Damasco.

De inteligência impar, com um conteúdo rabínico não encontrado entre os discípulos mais próximos de Jesus, Paulo de Tarso fundamenta o seu discurso em uma teologia que livra os cristãos das exigências judaicas, libertando-os das prescrições mosaicas que sempre os remetiam ao templo de Jerusalém.

Dessa forma, explica Paulo:

“Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. (…) Se pela falta de um só todos morreram, com quanto maior profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se derramaram sobre todos. (…) Por conseguinte, assim como pela falta de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da obra de justiça de um só, resultou para todos os homens justificação que traz a vida. De modo que, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.”

Graças à genialidade de Apóstolo dos Gentios, o Cristianismo estava desvinculado das exigências do Judaísmo, tornando a sua divulgação muito mais fácil entre outros povos, pois o único rito de iniciação era o batismo e a única prática ritual era a ceia em comum, com a divisão do pão e do vinho. Se ficasse vinculado ao Judaísmo, o Cristianismo esbarraria na resistência natural entre culturas, principalmente na questão da circuncisão[4] de homens adultos. É provável que muitos simpatizantes do Cristianismo desistissem de abraçar a nova fé se tivessem que ter os seus pênis tocados por uma lâmina.

Sem o vínculo às prescrições mosaica, o Cristianismo pode se desenvolver por toda a bacia do Mediterrâneo.

Contudo, as palavras de Paulo foram apropriadas por outros pensadores religiosos seguidores de seus passos, que fizeram da morte de Jesus na cruz a única salvação da natureza pecadora da humanidade, desvirtuamento moral este decorrente da falta de Adão e Eva.

 

No magistério católico oficial, publicado no Catecismo da Igreja Católica, temos a seguinte explicação

“Na linha de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens e sua inclinação para o mal e para a morte são incompreensíveis, a não ser referindo-se ao pecado de Adão e sem o fato de que este nos transmitiu um pecado por nascença nos afeta a todos e é ‘morte da alma’. Em razão desta certeza de fé, a Igreja ministra o batismo para a remissão dos pecados mesmo às crianças que não cometeram pecado pessoal.

De que maneira o pecado de Adão se tornou o pecado de todos os seus descendentes? O gênero humano inteiro é em Adão ‘sicuti unum corpus unius hominis – como um só corpo de um só homem’. Em virtude desta ‘unidade do gênero humano’, todos os homens estão implicados no pecado de Adão, como estão implicados na justiça de Cristo.”[5]

Para o autor evangélico Myer Pearlman:

“(bPecado Inerente, ou ‘pecado original’. O efeito da queda arraigou-se na natureza humana que Adão, como pai da raça, transmitiu aos seus descendentes a tendência ou inclinação para pecar. (Sl 51: 5.) Esse impedimento espiritual e moral, sob o qual os homens nascem, é conhecido como pecado original. Os atos pecaminosos que se seguem na idade de plena responsabilidade do homem são conhecidos como ‘pecado atual’. Cristo, o segundo Adão, veio ao mundo resgatar-nos de todo o efeito da queda. (Rm. 5: 12-21.)”[6]

Portanto, no ritual católico, por exemplo, vemos nas igrejas em destaque o altar, lugar de imolação, de sacrifício. A missa é o ritual de sacrifício pascal, no qual os fiéis relembram que Jesus foi imolado pelos seus pecados:

” Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela; assim, quer pela oblação quer pela sagrada comunhão, não indiscriminadamente mas cada um a seu modo, todos tomam parte na acção litúrgica.”[7]

A cada celebração eucarística dominical, Cristo é oferecido como vítima para o aplacamento da ira de Deus e remissão do pecado de todos os participantes da ação litúrgica.

Contudo, não basta acreditar ou querer para obter a salvação. Não são todos que são salvos pelo sacrifício de Jesus, mas somente aqueles que Deus escolheu antecipadamente. O homem não pode salvar a si mesmo e nem mesmo escolher ser salvo, pois a salvação vem da graça de Deus e esta graça Ele dá a quem quer. Os que receberão a graça de Deus já foram escolhidos e predestinados a ela.

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme o beneplácito da sua vontade, para louvor e glória da sua graça, com a qual ele nos agraciou no Amado. (…) Nele, predestinados pelo propósito daquele que tudo opera segundo o conselho da sua vontade, fomos feitos sua herança, a fim de servirmos para o seu louvor e glória, nós, os que antes esperávamos em Cristo.” (Ef 1, 3-6 e 11-12)

“Pela graça fostes salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é o dom de Deus: não vem das obras, para que ninguém se encha de orgulho.” (Ef 2, 8-9)

“E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio. Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de ser ele o primogênito entre muitos irmãos. E os que predestinou, também os chamou; e os que chamou, também os justificou, e os que justificou, também os glorificou”. (Rm 8, 28-30)

Assim, em termos simples, podemos resumir a questão da salvação cristã da seguinte forma:

– Cada um de nós nasce contaminado por transmissão pelo pecado de Adão e Eva;

– O pecado nos afastou de Deus e nos condenou à morte;

– Deus se reconciliou conosco enviando o seu único filho para ser sacrificado em nosso nome, como os animais eram sacrificados em nome dos ofertantes nos altares do templo de Jerusalém;

– O sangue de Jesus limpou os nossos pecados, nos aproximando de Deus novamente;

– Serão salvos aqueles quem Deus escolheu antecipadamente para isso, não dependendo da vontade do homem ou de seus méritos, mas da graça de Deus.

Expostas as premissas básicas da Soterologia cristã, no próximo artigo, analisaremos as suas bases e as suas consequências, para, ao fim, comparar com a “Soterologia” espírita.

[1] 1 Teologia: ciência ou estudo que se ocupa de Deus, de sua natureza e seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo; ciência da religião, das coisas divinas (Dicionário Houaiss)

[2] Parte da teologia que trata da salvação do homem.

[3] Tomando por base o calendário judaico, que coloca a criação de Adão 3.761 anos antes do nascimento de Cristo.

[4] Circuncisão: retirada cirúrgica do prepúcio, pele que recobre a glande do pênis. No Judaísmo, o ato ritual marca a inclusão masculina na comunidade judaica

[5] Catecismo da Igreja Católica – Edições Loyola (em parceria com as editoras Ave Maria, Vozes, Paulinas e Paulus) : São Paulo – 2009 – parágrafos 403 e 404

[6] PEARLMAN, Myer – Conhecendo as Doutrinas da Bíblia – trad. Lawrence Olson – Ed. Vida : São Paulo – 1999, p. 93.

[7] LUMEN GENTIUM – SOBRE A IGREJA – Papa Paulo VI – 21/nov/1964. Fonte: sítio eletrônico do Vaticano (http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html)

 

* publicado originalmente em 23/02/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

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