O ESPIRITISMO É CRISTÃO?


por Jefferson
Quando se pergunta se o Espiritismo é cristão para um certo número de pessoas, existe uma grande possibilidade de se receber respostas divergentes. Um católico ou um evangélico (protestante) não terá dúvida de afirmar que não,   o Espiritismo não é cristão, e elencará uma série de fundamentos para tal.  Por outro lado, a mesma questão analisada por um espírita receberá uma resposta afirmativa – sim, o Espiritismo é cristão – e haverá, também, uma explicação bem embasada para a sua opinião. Portanto, a questão longe está de ter uma resposta conclusiva.
Se a pergunta fosse feita a mim, eu pediria para o interlocutor ser mais específico: cristão por qual critério? A depender do critério que se use para se definir o que é ser cristão, teremos uma resposta que inclui ou que exclui o Espiritismo do Cristianismo.
Para um religioso cristão, a exigência a ser cumprida, via de regra, será a aceitação incondicional do denominado Credo Niceno-Constantinopolitano que, como o nome já diz, foi definido no Concílio de Nicéia (325 d.C.) e ampliado no Concílio de Constantinopla (381 d.C.). Os concílios surgiram pela necessidade de unificar, entre os bispos cristãos, a doutrina a ser preservada pelas igrejas, aquela reconhecida como fiel à tradição apostólica e evangélica, e, por outro lado, quais as doutrinas que deviam ser combatidas por serem  distorções. Isso porque havia um embate sem-fim entre os religiosos sobre o entendimento do Cristianismo, principalmente sobre a natureza de Jesus Cristo, surgindo seitas com idéias muito particulares sobre quem teria sido o Mestre de Nazaré e como os fiéis deveriam vivenciar a mensagem dele.
Dessa forma, os bispos reunidos em grandes assembléias (conciliuns) definiram em que os fiéis deveriam acreditar, daí o nome “credo”, ou seja, “eu creio”. Era uma forma de declarar a sua fidelidade à Igreja (não confundir com a Igreja Católica Apostólica Romana).
Assim, ficou definido como cristão quem declarava a sua fé nos pontos capitais abaixo:
Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra,
de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho Unigênito de Deus,
gerado do Pai antes de todos os séculos
Deus de Deus, Luz da luz,
verdadeiro Deus de verdadeiro Deus,
gerado, não feito,
da mesma substância do Pai.
Por Ele todas as coisas foram feitas.
E, por nós, homens,
e para a nossa salvação,
desceu dos céus:
Se encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria,
e se fez homem.
Também por nós foi crucificado
sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia,
conforme as Escrituras;
E subiu aos céus,
onde está assentado à direita de Deus Pai.
Donde há de vir, em glória,
para julgar os vivos e os mortos;
e o Seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo,
Senhor e fonte de vida,
que procede do Pai (e do Filho);
e com o Pai e o Filho
é adorado e glorificado:
Ele falou pelos profetas.
Creio na Igreja
Una, Santa, Católica e Apostólica.
Confesso um só batismo para remissão dos pecados.
Espero a ressurreição dos mortos;
E a vida do mundo vindouro.
Amém.
(Fonte: Wikipedia)
* Católica significa “universal”, abrange todas as igrejas (romana, ortodoxa, etc.), não somente a Igreja Católica Apostólica Romana.
Estes foram os artigos de fé que definiram o que é ser cristão. Posteriormente, a Igreja Católica (Romana) reescreveu o Credo Niceno-Constantinopolitano em uma fórmula mais simples, chamada de “Símbolo dos Apóstolos”, pois, segundo a lenda, os seguidores diretos de Jesus teriam se reunido para definir os fundamentos da fé cristã, conforme exposto abaixo:
Símbolo dos ApóstolosCreio em Deus,
Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra;
e em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor,
que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;
nasceu da Virgem Maria;
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado;
desceu à mansão dos mortos;
ressuscitou ao terceiro dia;
subiu aos Céus,
onde está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,
de onde há-de vir a julgar os vivos e os mortos.Creio no Espírito Santo.
na santa Igreja Católica;
na comunhão dos Santos;
na remissão dos pecados;
na ressurreição da carne;
na vida eterna. Amen.
(Fonte: http://www.paroquias.org/oracoes/?o=7)

Assim, para os ortodoxos da fé, quem não reza por essa fórmula, não é cristão em comunhão com a Igreja, podendo ser um herege, um apóstata ou um cismático. Qual a diferença? O Código de Direito Canônico elucida:

O Código do Direito Canônico — legislação oficial da Igreja Católica — considera hereges os indivíduos batizados que negam de modo pertinaz verdades que a igreja ensina como reveladas por Deus. Define ainda como cismático o cristão que recusa a submissão à hierarquia eclesiástica e, direta ou indiretamente, ao papa. Qualifica, enfim, como apóstata aquele que renega totalmente sua fé.. (Fonte: Enciclopédia Barsa)

Portanto, se o critério para definir alguém como cristão for o Credo, os espíritas serão colocados do lado de fora do Cristianismo. Isso porque o denominado “Símbolo dos Apóstolos” não representa para os espíritas a doutrina deixada por Jesus.

Mas, então, por que os espíritas afirmam que o Espiritismo é cristão?

A base cristã que se abraça ao Espiritismo está nos Evangelhos, que representam a tradição daquilo que Jesus teria dito e feito em sua vida (lembrando: os evangelhos, no formato que conhecemos, começaram a ter a sua configuração final trinta ou quarenta anos após a morte de Jesus).

Esqueçamos um pouco o que os bispos definiram como ser cristão. A pergunta que devemos fazer é: qual o critério de Jesus para considerar alguém como seu seguidor? Afinal, seguidor de Cristo é cristão, certo? Vejamos o que nós encontramos na Boa Nova (em grego, evangelion):

Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estão à direita: – Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. Perguntar-lhe-ão os justos: – Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? Responderá o Rei: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: – Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes. Também estes lhe perguntarão: – Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos? E ele responderá: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer. E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna. (Mt 25, 31-46  – Bíblia Católica v.2.0).

Outra passagem é evangélica é mais intrigante e desafiadora

Em seguida, dirigiu-se a todos: Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. (Lc 9, 23 – Bíblia Católica v.2.0).

Na primeria passagem, Jesus define como “benditos do meu Pai” todos aqueles que foram caridosos para o seu semelhante, sem exigir nenhum outro critério (batismo, confissão de fé, etc.). No segunda passagem, a de Lucas, adverte para os que pretendem ser os seus seguidores: negue a si mesmo (a prioridade está no Reino de Deus), tome a sua cruz (aceite a sua cota de rejeição do mundo por optar pelo Evangelho) e siga-o (siga o seu exemplo).

Como vemos, o critério de Jesus é muito mais abrangente do que o das igrejas. Qualquer pessoa que ame ao seu próximo, qualquer pessoa que lhe siga os passos com prioridade, que sacrifique o seu egoísmo, orgulho e vaidade para que a paz se faça, este é o verdadeiro seguidor do Rabi da Galiléia. Aliás, não só seguidor, mas familiar de Cristo:

Jesus falava ainda à multidão, quando veio sua mãe e seus irmãos e esperavam do lado de fora a ocasião de lhe falar. Disse-lhe alguém: Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar-te. Jesus respondeu-lhe: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, apontando com a mão para os seus discípulos, acrescentou: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. (Mt 12, 46-50)

Algum concílio ecumênico teve o poder de revogar isto? Qual bispo, patriarca ou papa possui legitimidade para limitar onde Jesus ampliou?

Portanto, se o critério para se considerar alguém cristão for as palavras do próprio Cristo, o que nos parece mais acertado, os espíritas são tão membros da comunidade cristã como qualquer outro que atenda às suas exigências, independente de dogmas de fé criados pelos homens mais de trezentos anos após a sua morte.

Em resumo: para Jesus, não precisa nem acreditar em Cristo para ser cristão; ele quer é que os seus ensinamentos sejam vivenciados. O seu critério é único: fazer a vontade do Abba (“papai” em aramaico), que nada mais é do que a prática da lei do amor.

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