A Travessia do Mar Vermelho por Ron Wyatt *

Por Jefferson

Existe uma apresentação em power point que é muito difundida na internet, contendo fotos que provariam o êxodo hebreu descrito na Bíblia como fato histórico. São vários slides com fotos da praia de Nuweiba, no Golgo de Ácaba, fotos de rodas de charretes utilizadas pela cavalaria egípcia e ossadas humanas submersas no Mar Vermelho, etc. As referidas “descobertas” são fruto de um trabalho “investigativo” do Sr. Ron Wyatt, enfermeiro anestesista, arqueólogo amador, já falecido (1999), que afirmou ter descoberto a arca de Noé, provas do Êxodo e a arca da aliança (segundo ele, debaixo da cruz onde Cristo foi martirizado). O Sr. Wyatt era obcecado em obter provas arqueológicas dos eventos bíblicos. Suas “descobertas” foram profundamente criticadas no meio científico. Atualmente, o seu trabalho é divulgado pelo Sr. Randall Osborn, evangélico e carpinteiro em acabamentos, que veio a Brasília em 2010 para divulgar as ditas “descobertas”. A apresentação de slides se encerra com o dizer: “É difícil dizer mas a tendência predominante da mídia anti-Deus é não retratar estes fatos verdadeiros na luz da fé. Preferem ser céticos e duvidar da veracidade de tais provas arqueológicas e a historicidade das narrações bíblicas, um dos livros de história mais acurados do mundo.” Em uma época de profundo avanço científico e de rigor acadêmico, muito natural que a história mais importante da Bíblia Hebraica recebesse a tentativa de legitimidade nas universidades e academias. Contudo, pesquisadores não se contentam com boa-vontade e fé, mas com fatos comprovados. Não basta gritar “Deus disse…”; os cientistas querem saber onde Ele escreveu e se o documento tem firma reconhecida. Em entrevista à Revista Adventista (mar/2009), o especialista em Arqueologia Bíblica Dr. Rodrigo Silva, com o título “O Êxodo Que Não Existiu”,  analisou as tais evidências de Wyatt. Eis aqui alguns trechos da matéria: “Por mais de uma vez tive [diz Rodrigo] a oportunidade de visitar, com a equipe arqueológica da Universidade Andrews, os locais a que Wyatt faz referência. Coletamos dados, fizemos análises, entrevistas, etc. e, depois de tudo isso, posso afirmar, sem temor de erro, que essas descobertas são completamente falsas.” “[Wyatt] sustentava que o Golfo de Áqaba, perto de Nuweiba, seria o local da travessia dos hebreus. Ali, num trabalho arqueológico submarino, Wyatt disse ter encontrado ossos humanos e rodas das carruagens de faraó cobertas de corais…” Quanto as fotos das rodas do fundo do oceano, assim o Dr, Rodrigo afirma: “O que Wyatt não contou”, diz Rodrigo, “é que os egípcios tinham dois tipos de carruagem: uma para a guerra, com aro sêxtuplo (…) e uma para passeios ocasionais, a quádrupla, que ele disse ter encontrado. Se a dita roda fotografada por Wyatt fosse mesmo autêntica, teríamos de perguntar por que faraó teria usado carruagens de passeio para perseguir o povo hebreu e deixado em casa as carruagens de guerra?” Segundo a revista:  “As peças fotografadas por Wyatt provavelmente provieram de navios cargueiros que afundaram na região entre 1869 e 1981. A cidade de Hurghada, no norte do Mar Morto, chega a abrigar um sítio turístico para mergulhadores que desejam ver destroços de navios naufragados ali.” E Rodrigo conclui: “Não acreditemos apressadamente em tudo o que se diz na internet, nem propaguemos o boato através de e-mails do tipo FWD. A descoberta de uma fraude pode colocar em descrétido a verdadeira mensagem que devemos comunicar”. Fonte: http://www.criacionismo.com.br/2009/03/boataria-internetica.html

Para subsidiar o presente artigo, transcrevemos matéria publicada no sítio eletrônico Portal G1, da Globo.com:

“Moisés pode não ter existido, sugere pesquisa arqueológica Escavações e inscrições mostram que povo de Israel se originou dentro da Palestina. História sobre libertação do Egito teria influência de interesses políticos posteriores. Reinaldo José Lopes

Do G1, em São Paulo

Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP), resume a situação: “O Moisés da Bíblia é claramente ‘construído’. Pode até ter existido um Moisés lá no passado que inspirou o dos textos, mas nada sabemos dele com segurança. Nas minhas aulas de história de Israel, começo com geografia e passo para as origens de Israel em Canaã [antigo nome da Palestina], não trato mais de patriarcas e nem do Êxodo”. Data-Limite Os pesquisadores dispõem há muitos anos do que parece ser a data-limite para o fim do Êxodo. Trata-se de uma estela (uma espécie de coluna de pedra) erigida pelo faraó Merneptah pouco antes do ano 1200 a.C. A chamada estela de Merneptah registra uma série de supostas vitórias do soberano egípcio sobre territórios vizinhos, entre eles os de Canaã. E o povo de Moisés é mencionado laconicamente: “Israel está destruído, sua semente não existe mais”. Não se diz quem liderava Israel nem que regiões eram abrangidas por seu território. Trata-se da mais antiga menção aos ancestrais dos judeus fora da Bíblia. Por algum tempo, arqueólogos e historiadores acharam que haviam identificado evidências em favor dos elementos básicos dessa trama. É que, por volta do ano 1700 a.C., a região da foz do Nilo foi dominada pelos chamados hicsos, uma dinastia de soberanos originários de Canaã e de etnia semita, tal como os israelitas. (O nome “Jacó”, muito comum na época, está até registrado entre nobres hicsos.) Pouco mais de um século mais tarde, os egípcios expulsaram a dinastia estrangeira de suas terras. Isso mataria dois coelhos com uma cajadada só. Explicaria a ascensão meteórica de José na burocracia egípcia, graças à proximidade étnica com os hicsos, e também por que seus descendentes foram escravizados — eles teriam sido associados à ocupação estrangeira no Egito. Os textos egípcios também não falam em nenhum momento da fuga liderada por Moisés, se é que ela ocorreu. “Isso é um problema grave. O argumento de que os egípcios não registravam derrotas é falso: a saída de um pequeno grupo nem era um revés, e eles relatavam derrotas sim, mesmo quando diziam que tinha sido um empate”, afirma Airton José da Silva. Apiru = hebreus? Para Milton Schwantes, professor da  Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, outro problema com a ligação entre os israelitas e os hicsos é dar ao Êxodo uma dimensão muito mais grandiosa do que seria razoável esperar do evento. “É uma cena de pequeno porte — estamos falando de grupos minoritários, de 150 pessoas fugindo pelo deserto. Em vez do exército egípcio inteiro perseguindo essa meia dúzia de pobres e sendo engolido pelo mar, o que houve foram uns três cavalos afundando na lama”, brinca Schwantes. Ele é menos pessimista em relação aos possíveis elementos de verdade histórica na narrativa do Êxodo. Os israelitas são freqüentemente chamados de “hebreus” nesse livro da Bíblia, uma mistura de nomenclaturas que deixou os estudiosos com a pulga atrás da orelha. Documentos do Oriente Médio datados (grosso modo) entre 2000 a.C. e 1200 a.C., porém, falam doshabiru ou apiru — grupos que parecem ter vivido às margens da sociedade, atuando como trabalhadores migrantes, escravos, mercenários ou guerrilheiros. “Ou seja, os hebreus talvez não fossem um grupo étnico, mas uma categoria social, de pessoas que muitas vezes eram forçadas a participar de grandes construções no Egito, sem receber o necessário para o seu sustento”, afirma Schwantes. Ele também vê sinais de memórias históricas antigas nos nomes de algumas cidades egípcias mencionadas na narrativa do Êxodo — lugares que foram ocupados por um período relativamente curto de tempo, por volta de 1200 a.C. “O próprio nome de Moisés é um nome egípcio que os israelitas não entenderam”, diz Schwantes. Parece ser a terminação “-mses” presente em nomes de faraós como Ramsés e quer dizer “nascido de” algum deus — no caso de Ramsés, “nascido do deus Rá”. No caso do líder dos israelitas, falta a parte do nome referente ao deus. Mar: Vermelho ou de Caniços? O momento mais famoso da saída dos israelitas do Egito é o confronto entre Moisés e o exército egípcio no Mar Vermelho, quando, por ordem de Deus, o profeta abre as águas para seu povo passar e as fecha para engolir os homens do faraó. No entanto, é possível que a história original tenha se referido não a águas oceânicas, mas a um pântano. Explica-se: o sentido original do hebraico Yam Suph, normalmente traduzido como “Mar Vermelho”, parece ser “Mar de Caniços”, ou seja, uma área cheia dessas plantas típicas de regiões lacustres. Assim, nas versões originais da lenda, afirmam estudiosos do texto bíblico, os “carros e cavaleiros” do Egito teriam ficado presos na lama de um grande pântano, enquanto os fugitivos conseguiam escapar. Conforme a tradição oral sobre o evento se expandia, os acontecimentos milagrosos envolvendo a abertura de um mar de verdade foram sendo adicionados à história. O dado mais importante sobre a dimensão real do Êxodo, no entanto, talvez venha da Palestina. Israel Finkelstein, arqueólogo da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, conta que uma série de novos assentamentos associados às antigas cidades israelitas aparecem na Palestina por volta da mesma época em que a estela de Merneptah foi erigida. Acontece que a cultura material — o tipo de construções, utensílios de cerâmica etc. — desses “israelitas” é idêntica à que já existia em Canaã antes de esses assentamentos surgirem. Tudo indica, portanto, que eles seriam colonos nativos da região, e não vindos de fora. Para Finkelstein, isso significa que a história do Êxodo foi redigida bem mais tarde, por volta do século 7 a.C. O confronto com o Egito teria sido usado como forma de marcar a independência dos israelitas em relação aos vizinhos, que estavam tentando restabelecer seu domínio na Palestina. A figura de Moisés, talvez um herói quase mítico já nessa época, teria sido incorporada a essa versão da origem da nação.”

Fonte: Portal G1 do sítio Globo.com http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL418821-9982,00.html

Portanto, na falta de evidências confiáveis, e de subsídios secundários que corroborem o relato bíblico, o espírita sério deve ser contido em seu entusiasmo bíblico, evitando de replicar e-mails que, depois, se mostram sem credibilidade. Nunca nos esqueçamos desta máxima espírita: “Fé inabalável só  o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.” ( Allan Kardec – Ev. Segdo. o Espiritismo – Cap. XIX, item 7).

 

* publicado originalmente em 10/02/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

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