Evangelhos Perdidos, de Bart D. Ehrman*

Evangelhos Perdidos

 

Bart D. Ehrman – Título original: Lost Chirstianities

 

Tradução: Eliziane Andrade Paiva – 3ª.Edição – Editora Record

 

RESENHA

Bart D. Ehrman Chefia o Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, EUA. Uma autoridade nos estudos da Igreja primitiva e da vida de Jesus, é presença constante em programas de rádio e televisão. É autor de diversos livros relativos ao assunto Jesus Histórico.

Neste livro, dividido em três partes e doze capítulos, Ehrman mostra a diversidade de Cristianismos que existiam nos primeiros séculos da Era Comum, e se atem particularmente às obras que não chegaram até nós, por terem sido banidas do cânon sagrado que compôs a Nova Aliança que temos disponível nos dias atuais. Ele analisa diversos textos apócrifos descobertos a partir do século XVII e principalmente no século XX, com os manuscritos do Mar Morto e a biblioteca de Nag Hammadi. Se hoje já é difícil falar em Cristianismo, dada a enormidade de variantes existentes, para os mais diversos gostos (Presbiterianos, Manipuladores de Serpentes nos Apalaches, Sacerdotes Gregos Ortodoxos, Pentecostais, Evangélicos e muitos outros), nos primeiros anos do Cristianismo, a quantidade de visões em relação ao ensinamento de Jesus e dos apóstolos era significativamente maior, cada uma delas se declarando as portadoras da verdadeira fé e donas da correta interpretação destes ensinos, declarando todas as outras como doutrinas falsas e em muitos casos, vinculadas ao demônio. Havia cristãos que acreditavam em um Deus. Havia aqueles que acreditavam em dois, outros em trinta e outros que diziam ser 365. Havia cristãos que acreditavam que a Terra era criação do Deus verdadeiro, outros que era criação de um Deus menor e outros que a Terra era um erro cósmico criado por uma divindade má como um lugar de prisão. Havia aqueles que consideravam os escritos do Antigo Testamento como válidos. Havia aqueles que rejeitavam tudo o que vinha da religião judaica e outros que permaneciam seguindo aquela tradição religiosa. Uns, criam na divindade plena de Jesus, outros que Jesus foi um ser humano como todos nós. E ainda outros que acreditavam que Jesus era as duas coisas, ao mesmo tempo ou em partes distintas da sua vida. Também havia contrassenso a respeito da morte de Jesus, tento cristãos que acreditavam que através dela veio a salvação da humanidade, outros que não acreditavam em tal hipótese, e outros mais que nem acreditavam que Jesus havia sido crucificado. Todas essas questões eram um prato cheio para a existência de centenas de formas de Cristianismo, dado que não havia consenso geral de como era a fé Católica (fé geral), que surgiu somente séculos mais tarde. E cada uma dessas visões de fé produziu seus textos, suas escrituras, nas quais acreditavam piamente. Houve naqueles primórdios do Cristianismo a produção de inúmeros Evangelhos, Epístolas, Atos e Apocalipses, todos eles atribuídos aos apóstolos de Jesus e para cada um dos grupos distintos, seus textos tinham o status de escritura sagrada, enquanto o dos outros eram considerados textos heréticos, crenças falsas.

O método de escrita da obra foi estruturado de maneira a abordar, na primeira parte, as “Falsificações e descobertas”, onde se analisa os textos descobertos recentemente e o conteúdo destes, para tentar entender o que pregavam e no que acreditavam as seitas do Cristianismo que, no decorrer da história, foram desaparecendo. Depois, na segunda parte, o enfoque é sobre “Heresias e ortodoxias”, onde são apresentados os tipos principais de crenças existentes e o combate perpetrado pelos proto-ortodoxos à essas crenças consideradas heréticas. Por último, na terceira parte, são vistos os “Vencedores e perdedores”, o trabalho exercido pela proto-ortodoxia para eliminar as “falsas crenças”, a assimilação por parte destes de muitas das crenças heréticas como forma de criar um entendimento comum, a produção do cânon de escrituras autorizadas e por fim, uma analise do que poderia ter acontecido caso outro grupo de Cristãos tivesse vencido as disputas para o título de fé verdadeira. Iniciando a primeira parte do livro, Ehrman mostra que todas as escrituras perdidas tratavam-se de falsificações, ou seja, que não foram escritas por aqueles que se diziam ser os autores de tais documentos. De fato, a grande maioria dos documentos canônicos também se tratam de falsificações, livros escritos em nome de apóstolos que não escreveram uma linha sequer, em qualquer documento, sendo uma das poucas, senão a única exceção, as epístolas de Paulo de Tarso (e mesmo assim nem todas as que lhe atribuem), sendo que até mesmo nas reconhece de sua autoria há indícios de falsificações de trechos. Ehrman mostra também que falsificações não são raras mesmo em dias atuais, citando alguns exemplos dessa “arte”, que muitas vezes engana por muito tempo comunidades inteiras. No primeiro capítulo, Ehrman aborda um documento falsificado que era utilizado por muitas comunidades cristãs nos séculos II e III – O Evangelho de Pedro, um documento que carregava elementos doutrinários Docéticos e Adocionistas Os Docéticos eram um grupo de Cristãos que acreditavam que Jesus nunca possuiu um corpo de carne, que era completamente divino, e sua presença junto aos seus discípulos se dava só em aparência. Já os Adocionistas criam em Jesus como ser humano normal, mas que foi adotado por Deus no momento de seu batismo, cumpriu sua missão e abandonou o corpo de Jesus antes de sua morte. Fala-se da descoberta recente de um trecho desde manuscrito, que contém um relato do julgamento, da crucificação e da ressurreição de Jesus, e de muitos outros trechos deste mesmo Evangelho (não descobertos),que foram comentados por Serapião, bispo de Antioquia, que inicialmente não viu problemas com a adoção deste evangelho por muitas igrejas, mas após uma avaliação mais cuidadosa proibiu seu uso por conta destas teologias ‘heréticas”. Baseando no trecho de manuscrito descoberto e nos comentários de Serapião, Ehrman faz uma análise deste Evangelho, mostrando a popularidade que ele tinha. Além deste, também é abordado o Apocalipse de Pedro e outros documentos, até mesmo um chamado Atos de Pilatos, que narra o julgamento de Jesus de maneira muito mais completa, mostrando a culpa dos judeus e a superioridade de Jesus sobre tudo o que é pagão. O segundo capítulo continua abordando o tema falsificações, mostrando esta prática sendo usada para produção de vários textos. Os Atos de Paulo e Tecla, suposta ajudante de Paulo em suas viagens missionárias, um texto com viés de romance, que também atraia muitos cristãos, sendo Tecla considerada muito popular até o século V. Este e outros “Atos” utilizaram deste estilo literário. Trata também do tema “mulheres na igreja” e das inconsistências da visão proto-ortodoxa, onde se mostra trechos de cartas de Paulo orientando que estas permanecessem caladas nas igrejas, e no mesmo texto (1Coríntios), capítulos antes, o mesmo apóstolo defendendo a participação das mulheres na igreja, concluindo que o texto original da carta foi falsificado posteriormente por motivação doutrinária (para defender uma posição contrária à participação feminina nas comunidades). Aborda-se também outros Atos Apócrifos, como os Atos de Tomé, que seria irmão gêmeo de Jesus (?!?!?!), os Atos de João e os problemas que estes textos geravam para os proto-ortodoxos, por conseguirem atrair a atenção de muitas comunidades. No terceiro capítulo, discute-se as várias descobertas recentes de manuscritos que mudaram sobremaneira a visão que se tinha do Cristianismo primitivo, manuscritos estes que permitiram o entendimento aprofundado de visões e interpretações das escrituras que geraram seitas que se perderam no tempo, como é o caso dos Gnósticos. Estuda-se a fundo um dos documentos mais importantes recém-descobertos, o Evangelho Copta de Tomé, onde se pode encontrar a síntese do pensamento gnóstico. Ehrman mostra a história por trás das descobertas recentes destes manuscritos que mostraram ao mundo aquilo que a corrente de fé vencedora não divulgou (justamente por ter sido a vencedora e consequentemente, por considerar todas as outras heréticas). O capítulo seguinte inicia-se com a demonstração de que a prática da falsificação de textos é comum mesmo nos dias atuais, com exemplos de falsificações famosas, como “O diário de Hitler”, e voltando-se ao tema do livro, o surgimento de Evangelhos estranhos, que tratam de porções da vida de Jesus desconhecidas (infância, adolescência), viagens de Jesus à Índia, dentre outras coisas inusitadas. Verifica-se que, apesar da maioria das falsificações serem grosseiras e de fácil identificação, outras são muito elaboradas e muitas delas passam por originais e muitas destas são, até hoje, objeto de muita discussão entre estudiosos sérios a respeito da originalidade/falsificação É demonstrada também a questão de uma das falsificações recentes, feita por um estudioso de história do Cristianismo chamado Morton Smith em cima do texto do Evangelho Secreto de Marcos, texto utilizado por gnósticos que acreditavam que havia duas versões deste evangelho, um para os cristãos comuns (o que nós conhecemos) e outro com conteúdo secreto, de entendimento específico daqueles que possuíam a gnose. Questiona-se, no entanto, a autenticidade do material usado por Morton em suas pesquisas, bem como o fato de somente ele ter tido acesso aos documentos que estudou. Isso tudo gerou questionamentos quanto a real existência do conteúdo por ele estudado, apesar de haverem algumas provas materiais através de fotografias que ele tirou da carta polêmica. Várias questões são levantadas em relação ao estudo feito por Smith, e muitos fatos levaram muitos a acreditar na possibilidade de que ele tenha falsificado o texto analisado, principalmente pelo fato de Smith ter sido um especialista sobre Clemente de Alexandria, famoso teólogo que viveu e escreveu por volta do ano 200 da Era Comum, o autor da carta polêmica que foi objeto dos estudos de Smith. Abrindo a segunda parte da obra, Ehrman nos fala sobre o entendimento dos diversos grupos cristãos, e da obsessão com a qual estes grupos buscavam considerar-se os portadores da verdade, fato que diferia de tudo o que se via no Império Romano, onde a diversidade de crenças era tolerada e respeitada, mesmo entre as seitas que acreditavam em coisas distintas. Somente com o surgimento do Cristianismo é que surge o conceito de que era necessário acreditar na coisa certa para ser salvo, e que todos os que não acreditassem naquilo estariam condenados. E justamente por isso, a diversidade de seitas e de entendimentos a respeito dos ensinamentos de Jesus fazia com que a intolerância fosse, em alguns casos, violenta. No quinto capítulo, são analisados dois grupos com entendimentos diametralmente opostos, do ponto de vista da origem Judaica da fé cristã: os Ebionitas e os Marcionitas. O primeiro grupo mantinha a crença na tradição judaica, enquanto o segundo abominava tudo que advinha dos judeus. Ehrman mostra Paulo como grande disseminador da tese pagã de que, para ser cristão, não era necessário adotar a religião judaica. É mostrada como era a crença de cada um dos dois grupos. Particularmente em relação aos Ebionitas, a falta de documentos produzidos por estes dificulta o entendimento de suas crenças, mas uma análise deste grupo é possível através do estudo do que foi escrito pelos oponentes destes (sempre avaliando estas fontes com bastante critério). Sabe-se, através de consenso em relação a estas fontes, que tratava-se de um grupo de judeus seguidores de Jesus, que respeitavam a lei e as tradições judaicas, que não acreditavam na preexistência de Cristo e muito menos na concepção virginal de Maria. Acreditavam que Jesus teria sido adotado por Deus, mas era um ser humano real, de carne e osso como todos nós, que foi concebido da união sexual entre seus pais. Adotavam o Evangelho mais judaizado, o de Mateus (com diferenças em relação ao Evangelho de Mateus que temos a disposição). Já os Marcionitas, por considerarem Paulo como o apóstolo maior de Jesus, tinham suas crenças extremamente atrativas à grupos pagãos. Este grupo rejeitava tudo de origem judaica, inclusive o Deus dos judeus, que estes consideravam uma deidade inferior ao Deus de Jesus. Acreditavam que o Deus dos judeus era um Deus rigorosamente justo, e que por isso, se encolerizava e punia as transgressões às suas leis, e o Deus de Jesus veio para salvar as pessoas do vingativo Deus dos judeus (o que os fazia acreditar na existência de dois Deuses). Acreditavam que Jesus nunca teve um corpo material, ou seja, ele apenas parecia ser humano. Marcião, o líder deste movimento, foi a primeira liderança entre as diversas seitas do Cristianismo a se preocupar em formular um cânon de escrituras sagradas, e muito provavelmente foi devido a este fato que os proto-ortodoxos passaram a sentir a necessidade de fazer o mesmo. E aqui, estamos falando de apenas duas visões, duas interpretações da vida e ensinamentos de Jesus, completamente distintas nos seus entendimentos, ambas reivindicando para si o título de verdadeiros seguidores de Jesus, sendo que é sabido que haviam diversos outros grupos, e que mesmo entre estes dois grupos definidos, havia diferenças menores de entendimento, o que mostra o quão complexo era o contexto Cristão dos primeiros séculos. O que teria acontecido com o Cristianismo atual se, no passado, um desses dois grupos tivesse prevalecido frente aos proto-ortodoxos? Ehrman faz uma breve análise a respeito deste questionamento neste ponto da obra. O capitulo 6 aborda especificamente um grupo de cristão: os Gnósticos. Como abordado anteriormente no livro, muitos documentos referentes à essa variante do Cristianismo vieram a público com o descobrimento da biblioteca de Nag Hammadi, com diversos evangelhos desconhecidos até então, onde se podia verificar ensinamentos secretos e “mais verdadeiros”, Evangelhos supostamente escritos pelos discípulos Filipe, João (filho de Zebedeu), por Tiago (irmão de Jesus) e por seu irmão gêmeo Tomé, dentre outros, todas as falsificações reconhecidas, mas que foram levados a sério por muitas comunidades e por muitas gerações. Mostra-se as características da crença Gnóstica, de que o mundo é um lugar ruim, e que a busca destes é a fuga deste mundo ruim, através do conhecimento secreto. Há, nos escritos de Nag Hammadi, descrições detalhadas dos Gnósticos sobre a criação do mundo e como viemos a habitá-lo e como se escapar dele, e que só aqueles que detém este conhecimento secreto, só uma pequena elite que possua uma fagulha divina dentro de si, faísca essa que é reacendida por meio da gnose, é que seria, salvos, segundo eles. A vastidão dos textos descobertos em Nag Hammadi é tão grande que alguns pesquisadores cogitam se a parte referente aos Cristãos Gnósticos (muitos dos textos lá descobertos não são sequer de seitas cristãs) pode ser representativa do grupo inteiro de Gnósticos ou se havia variantes de interpretação dentro deste grupo maior, fato que é aceito pela maioria dos estudiosos. Além dos textos descobertos em Nag Hammadi, outras descobertas compunham o rol de informações sobre esta seita, entre documentos escritos pelos combatentes contra tal seita nos primeiros séculos da Era Comum, bem como documentos descobertos nos séc. XVIII e XIX, que não foram levados em consideração pela comunidade acadêmica da época por não representarem a fé vigente. Cita-se também neste capítulo alguns exemplos de textos gnósticos, como “O Evangelho da Verdade”, “A Carta de Ptolomeu a Flora” e “O Tratado sobre a Ressureição”. O capítulo seguinte, seguindo uma linha didática de abordagem sobre o assunto, refere-se à última parte das divisões-macro do Cristianismo, ainda não descrita à fundo até este ponto da obra: os proto-ortodoxos, a parcela dos Cristianismos que no fim sagrou-se a “vencedora”, e cujos ensinamentos foram repassados adiante através dos séculos até nos alcançar nos dias atuais. Ehrman discorre sobre os mártires proto-ortodoxos, dentre eles Inácio, Bispo de Antioquia, preso e martirizado pelas feras doColisseum Romano, por conta de suas atividades cristãs. É frisada uma das características marcantes deste grupo, que era o desejo de morrer pela fé, característica esta que separava, segundo os proto-ortodoxosos, os verdadeiros fiéis dos falsos “hereges”. Cita-se também outros martirológios, todos cercados de acréscimos lendários. Inácio também é muito lembrado pela sua visão de organização da igreja, preocupação esta crescente na igreja primitiva, onde a desorganização e a falta de lideranças foi bastante prejudicial. Cita-se cartas falsamente atribuídas ao apóstolo Paulo, onde este escreve às suas comunidades sobre a necessidade de organização (o que o mesmo Paulo não havia feito em epístolas reconhecidamente escritas por ele – daí a conclusão de que são falsificações). Inácio, no seu caminho para o martírio em Roma, também escreve a diversas comunidades, sempre frisando a necessidade de respeito às autoridades eclesiásticas e aos livros da Antiga Aliança, pois os proto-ortodoxos sabiam na necessidade de busca de legitimidade em tradições antigas (naqueles tempos, o Cristianismo era uma religião considerada nova, e a vinculação aos textos tradicionais judeus ajudou a dar legitimidade à igreja, perante outras crenças). Além disso, Inácio buscava mostrar aos cristãos que Deus falava aos cristãos por outras formas, além do Velho Testamento e dos textos que mais tarde vieram a compor a Nova Aliança. De fato, Inácio considerava a si próprio como recipiente direto das revelações divinas, e durante muito tempo a revelação direta fez sucesso entre os cristãos proto-ortodoxos. Finalmente, é verificado o desenvolvimento de Inácio e outros expoentes sobre a teologia proto-ortodoxa, com a adoção de crenças na Trindade e a dualidade da figura de Cristo (totalmente humano e totalmente divino). Interessante observar que conceitos tidos como válidos pelos proto-ortodoxos eram considerados heréticos pelo mesmo grupo após poucas décadas, e tão interessante quanto é a adequação, por parte da teologia proto-ortodoxa, de suas crenças, como forma de abranger as crenças de outras seitas, de maneira a explicar suas posições teológicas e buscar se considerada como a fé verdadeira. Na terceira e última parte do livro, explora-se o tema “Vencedores e Perdedores”. Nesta parte, Ehrman discorre sobre as lutas entre os grupos distintos, suas ações e estratégias em busca da ortodoxia da fé, mostrando que desde sempre houve disputas de entendimento das escrituras, até mesmo na época em que Jesus era vivo (como por exemplo, a disputa tradicionalmente conhecida entre Jesus e os Fariseus), passando por Paulo, com suas cartas dirigidas às comunidades com o intuito de resolver problemas originados nas comunidades fundadas por este, problemas estes gerados por “falsos professores” que estavam deturpando o ensino dado por ele. Posteriormente, são estudados os conflitos entre os grupos, que perduraram entre os séculos II e III, sempre com cada parte buscando para si o título de fé ortodoxa. Ao término das disputas, a parte vencedora acabou escolhendo quais registros dos embates deveriam ser mantidos e como contariam a história do conflito, tendo as “vozes” dos perdedores sido silenciadas por muitos séculos até voltarem a ser “ouvidas” novamente com alguma clareza recentemente. O oitavo capítulo mostra que, a partir do século IV, os termos heresia e ortodoxia não eram mais problemas, visto que a crença Cristã foi definida com o Credo Niceno. Heresia, após a vitória da proto-ordodoxia, era considerado por estes tudo o que estivesse em desvio com a crença estabelecida, e para os ortodoxos, qualquer doutrina herética deveria ter surgido após a doutrina ortodoxa inicial tendo, aqueles que produziram as novas crenças, tido em mãos a crença verdadeira, a qual deturparam, ou seja, a partir do momento em que o credo Católico foi definido, este foi considerado como “A” forma original de Cristianismo. Esta visão clássica de ortodoxia e heresia perdurou por muitos anos, e cita-se o trabalho de Eusébio de Cesaréia, que em sua obra “História da Igreja”, escrita em 10 volumes, narra o curso do Cristianismo sob este prisma. Segundo Eusébio, as visões heréticas à ortodoxia se iniciaram com Simão Mago, que se considerava “o Poder de Deus”. Tal visão clássica sobre ortodoxia e heresia, no entanto, começou a ser combatida a partir da era moderna. No livro, são explorados três enfoques sobre o combate à esta visão clássica: Jesus e seus discípulos ensinaram uma ortodoxia que foi transmitida para as igrejas dos séculos II e III? O livro dos Atos fornece um relato confiável dos conflitos internos da igreja cristã mais antiga? Eusébio dá um resumo imparcial das disputas que fervilhavam nas comunidades cristãs pós-apostólicas? A primeira questão envolve os ensinamentos de Jesus e seus apóstolos e a confiabilidade dos documentos do Novo Testamento que transmitiram estes ensinos. Como vimos na obra “O que Jesus disse, o que Jesus não disse”, do mesmo autor, há milhares de problemas com os textos dos diversos manuscritos que os historiadores tem acesso, e como foi dito por um destes historiadores, “há mais diferenças entre os manuscritos do que palavras no Novo Testamento”. Nesta obra, Ehrman contempla os estudos feitos sobre estas inconsistências pelo historiador alemão Hermman Reimarus, na época da do Iluminismo, onde ele mostra que muitas das qualidades atribuídas a Jesus não eram ensinadas ou assumidas por Ele, mas sim que foram atribuídas por aqueles que vieram depois, durante a criação da religião Cristã (a qual Jesus também não fundou e, segundo documentos históricos, não pediu que fosse fundada). Fala-se também do trabalho de outro estudioso alemão, F.C Baur, a respeito das disputas entre o Cristianismo Judaico e o Cristianismo Gentio, onde o Livro do Apocalipse, por exemplo, mostra-se completamente judaico (tese da síntese de Baur), enquanto as cartas de Paulo aos Gálatas e aos Romanos são completamente anti-judáicos (tese da antítese), enquanto obras como O Livro de Atos são uma força mediadora, o que leva ao entendimento de que o Livro de Atos não pode ser considerado uma visão histórica dos fatos os quais ele narra, sendo dirigido por uma ordenação teológica que afeta a exatidão histórica. E na terceira questão, mostra-se o estudo de Walter Bauer sobre os escritos de Eusébio de Cesaréia e seu relato sobre ortodoxia e heresia na história da igreja.

O próximo capítulo mostra que as disputas doutrinárias ocorriam mais fortemente no campo das palavras (apesar de ter havido batalhas armadas entre grupos). Há uma vasta coleção de manuscritos contendo os ataques verbais dos proto-ortodoxos às outras visões de fé e vice-versa. Mostra-se alguns exemplos de ataques dos Ebionitas (judeus cristãos) contra os ensinos de Paulo de Tarso, bem como ataques gnósticos à proto-ortodoxia, mostrando que a crença proto-ortodoxa não era errada em si, mas que era ridiculamente inadequada e superficial, e que os gnósticos interpretavam os credos, as escrituras e os sacramentos dos proto-ortodoxos de maneira muito mais espiritual e iluminada. Em contrapartida, são mostrados os ataques da proto-ortodoxia às outras visões, utilizando de meios polêmicos para extirpar os gnósticos das suas igrejas, destruir as escrituras especiais e aniquilar seus seguidores, estratégia tão bem executada que até recentemente não se fazia ideia do tanto que os gnósticos foram significativos nos primeiros séculos do Cristianismo. Ehrman demonstra como os proto-ortodoxos defendiam a unidade (por exemplo, a crença em um só Deus, Deus e Jesus como sendo um só) e imputavam aos outros a diversidade. Falavam de bom senso e imputavam aos outros a falta de senso. Falavam em verdade em suas crenças e erro na crença dos demais grupos. Citavam a sucessão apostólica contra a crença em falsos profetas. Inventam falsos costumes de ordem moral dos outros grupos, em casos escandalosos de orgias sexuais como atos litúrgicos destas outras seitas, e coisas ainda mais escandalosas. No décimo capítulo, são verificadas as falsificações produzidas pelos proto-ortodoxos, para desmoralizar as crenças por eles consideradas heréticas, como por exemplo, O Evangelho de Infância de Tomé, onde se contam fatos mirabolantes sobre os poderes de Jesus quando criança, documento esse atacado pelos proto-ortodoxos como sendo falsificação gnóstica, mas que numa análise mais aprofundada, é mostrado que não há nenhum traço gnóstico neste, ou seja, que o texto não parece desenvolver nenhum traço teológico específico, mas foi usado pelos proto-ortodoxos no combate a outras crenças. Além disso, mostra-se falsificações de relatos com o intuito puramente teológico, para dar embasamento à crença proto-ortodoxa, como se fossem escritos antigos, mas que de fato foram produzidos nos séculos II e III, mostrando a preocupação existente neste grupo em relação à busca de legitimidade de suas crenças. Cita-se o exemplo de várias falsificações deste tipo, uma mais elaboradas, outras mais sutis, e também a falsificação dos textos que vieram posteriormente a compor o cânon sagrado, com inserções de trechos nos textos sagrados para combater outras teologias. O penúltimo capítulo enfoca a criação da escritura proto-ortodoxa, com a adoção do cânon de livros sagrados no final do século IV, após a oficialização do Cristianismo Católico como religião oficial do Império Romano. Ehrman estuda o processo de formação do cânon da Nova Aliança, mostrando as interpretações de Jesus às Escrituras Judaicas e a tradição destas interpretações sendo convertidas em Escrituras por aqueles que vieram depois Dele. Verifica-se que além de seguir em grande parte o que estava escrito na Antiga Aliança, os ensinamentos de Jesus muitas das vezes suplantavam esta. Tais ensinamentos, já no final do século I já haviam adquirido, para os Cristãos, o status de textos sagrados, dando a estes textos autoridade. No decorrer do capítulo, verifica-se os métodos utilizados para definir quais livros da vasta coleção de textos que haviam na época deveriam entrar no cânon sagrado, quase no final do século IV, apesar do surgimento da necessidade de estabelecimento deste já ser verificada entre os proto-ortodoxos a partir do século II.Cita-se a descoberta de um cânon, no século XVIII – o Cânone Muratoriano, um texto pessimamente copiado, com textos de vários padres da igreja do século IV e V, mas que já citava grande parte dos livros que acabaram compondo o cânon definitivo. Cita também os quatro critérios usados para verificar se um determinado texto deveria fazer parte da Nova Aliança (Antiguidade, Apostolicidade, Catolicidade e Ortodoxia do texto), e o trabalho de Eusébio, na sua obra de 10 volumes sobre a história da igreja, onde este classifica os textos em quatro categorias (reconhecidos, questionados, espúrios e heréticos), bem como as discussões da ortodoxia que culminaram na escolha dos 27 livros que foram escolhidos. Fechando a obra, Ehrman avalia mais a fundo as possibilidades alternativas de vitoriosos na ortodoxia e as consequências que estas vitórias alternativas poderiam trazer para a humanidade dos dias atuais. Explica também que, como parte da estratégia de vitória, a proto-ortodoxia adotou, muitas das vezes, a prática de absorver o conteúdo do que as outras visões e interpretações tinham, incorporando tais visões à sua, levando a conclusão de que a vitória da proto-ortodoxia não foi completa, justamente por conta desta absorção de tradições não-ortodoxas para explicar muitas das crenças defendidas pelos proto-ortodoxos. E apesar destes fatos, verifica-se o quão intolerantes eram os proto-ortodoxos em relação às outras visões e interpretações existentes, embora não seja possível afirmar que estas outras visões fossem mais tolerantes em relação às outras, dado que a maioria dos textos destes grupos foram perdidos. Verifica-se também que, graças à essas descobertas e estudos sobre os Cristianismos primitivos, a visão atual das crenças é bem mais tolerável e gera maior fascínio por estas visões, o que gera sentimento de perda em relação ao esquecimento de tradições bem intencionadas que foram abandonadas e destruídas, mas ao mesmo tempo, vem a alegria das novas descobertas oriundas dos estudos e pesquisas, para nos mostrar cada vez mais que a crença que chegou até nós, vitoriosa dos conflitos do passado, também carrega consigo os traços daquelas que foram derrotadas, suprimidas e perdidas. Diante de tudo o que foi visto na obra, é possível verificar o quão distante da ortodoxia está a crença que hoje é divulgada pela Igreja Católica Romana. A diversidade de crenças existente desde os primeiros momentos do Cristianismo, as diversas interpretações que haviam nos primeiros séculos, os intensos combates entre as partes na busca pela hegemonia de crença, as falsificações perpetradas por todos os lados e os meios utilizados para garantir a manutenção de determinados textos em detrimento de outros, que fizeram com que tradições inteiras fossem perdidas, tudo isso mostra que a visão de ortodoxia defendia pela igreja, desde que a proto-ortodoxia venceu as disputas teológicas no início do século IV passa longe de ser um consenso. Ao mesmo tempo, é fácil perceber que, apesar de tudo o que aconteceu naqueles tempos, é difícil imaginar que a vertente vencedora não tenha sido a mais apropriada, diante de interpretações muitas das vezes absurdas que eram dadas ao ensino perfeito deixado por Jesus para a humanidade. E o livro consegue mostrar todos estes pontos com excelente didática, numa leitura agradável e muito informativa.

Resenha feita por Bruno Oliveira
* publicado originalmente em 07/03/2014 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

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